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Poesia

Ensaios

Traduzidos

 

O evangelho segundo a água

(fragmentos)


1.

 

aqui do estômago desta baleia
a cidade é um cardume cintilante
e
a estátua de drummond tem as costas ao oceano –
[as estátuas são para os homens não para o mar]


cultivar um peixe por dentro
para um dia comê-lo


esperando uma mulher surgir da precisão da ossada


um dia somos felizes em nosso jardim cetáceo
e ela caminha suavemente ao meu lado
sonhando o domingo mais triste do mundo no subúrbio do
lado de lá


um dia estamos na meia idade e bebemos porque não há opção


e o guindaste no cais estará esmagado como um inseto morto
diante das mil falhas na goela das águas


o mar está na foto dos homens não no sonho das estátuas

 

 

2.

 

:sua voz através do mar é o próprio mar em travessia


chamamento remoto
de mulher equilibrada nos rochedos


é também credível viver fora dos peixes
dentro de um farol no extremo das docas


e nos encontrarmos agora
mais por vício das marés
que por desarranjo do acaso


:o mar está entre nós e por isso nos une:
a mesma palavra que cabe em minha boca
cabe na sua


em sua boca cabem todos os oceanos:
 

 

3.

 

um dragão com quatro corações
desperdiçado ali num valão em pilares


a dama cativando a besta foi um dia alguém que amei
o épico de cada pequena historia de amor


foi lendo tabacaria para mim na universidade
que seus cabelos passaram a ser meus


e como a água que conforma o corpo
quando conformada por ele
assim foi gerado o filho que nunca teremos


esse dragão articulado nas manilhas do bairro


ela enroscada no tapete da sala
o cosmético calcário do caracol
 

 

2010 Márcio-André | Design : Confraria do Vento | Crédito das Imagens

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