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Sobre o filme Diário de Sintra, de
Paula Gaitán
Uma árvore a
ancorar uma cidade no céu e a florir uma ramagem de fotografias. É assim
que começa o filme Diário de Sintra, de Paula Gaitán. A partir desta longa
seqüência-imagem inicial, o filme nos transporta por uma viagem ao
interior de Portugal, da memória e de imagens remotas de um personagem
quase lendário do cinema brasileiro. Em sua simplicidade de águas, este
passaria por um filme “pessoal”, mas, à medida que essa busca (ou fuga)
nos leva para dentro de qualquer coisa que não seja nós mesmos, mas um
possível outro na pele da câmera, começamos a perceber que pouco importa
quem ou de quem esteja falando. Não é portanto um filme sobre Glauber
Rocha, não é um filme sobre Sintra, não é nem mesmo um filme sobre a
memória, mas sobre o instante exato em que as coisas no mundo deixam de
pertencer a cada um de nós, enquanto indivíduos, e passam a fazer parte de
nosso épico de humanidade. Essa é uma memória ainda maior que a memória,
que desvela um instante de confusão poética e se revela na contradição,
pois que toda proximidade se completa na distância, toda presença, na
ausência, toda lembrança, no esquecimento e toda identidade, no anonimato.
Glauber não é mais um cineasta, nem um parente da Paula, nem mesmo morou
em Sintra, ele se perde em uma memória que não é mais a dele e se deixa
diluir na força avassaladora de todo e qualquer outro. Isso é evidente na
cena onde se mostram fotos de Glauber a populares de Sintra, questionando
se o conhecem. Estas pessoas, tão simples e tão locais, por isso complexas
e mundanas, nos deixam entrever uma especial permanência das imagens e das
coisas através de algo tão inconstante quanto o tempo. Paula encarna
Mnemósine, deusa da memória mãe das musas e é por isso que Diário de
Sintra não é um filme documental ou autodocumental. O “documento” tende a
fechar. A memória a que nos referimos aqui não se limita enquanto
discurso, usado para a permanência institucional do que corresponda a
determinado interesse. Estamos falando da memória enquanto abertura e
tensão entre lembrança e esquecimento, singularidade e todo, algo difícil
de ser precisado conceitualmente. E este filme, enquanto um diário, um
“livro dos dias”, da contagem dos sóis que se perdem sem mensuração, de
forma que “diário” se refira propriamente ao tempo passado desde o
acontecimento em questão e não a uma cronologia, é uma obra que abre para
todo e qualquer tempo. Testemunho deste real, dessa tez intangível de
memória e pedras, esta projeção nos promove o falecimento de toda verdade
pronta relacionada ao que entendemos por presente, passado e, então,
futuro, de tal forma que ambos sejam em verdade, indissociáveis e
concomitantes, sempre. Paula Gaitán não realiza um filme stricto senso,
mas uma obra prima da arquitetura delicada. Estar diante de suas duas
horas de projeção é experimentar de forma concreta esse instante mágico
que não pode ser dito de outra maneira. Talvez, a cena das nuvens, filmada
do avião, nos arrebate pela sua força épica e avassaladora de extrema
plasticidade e beleza, mas a árvore que abre e encerra o filme marca a
passagem das estações, tranqüila, sem pressa e em silêncio: primeiro o seu
florescimento, depois a queda das folhas. A árvore é, antes de tudo, essa
semente que esqueceu de que deveria ficar quieta, para nunca precisar
lembrar.
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