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Poesia

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Proposta para se pensar as nuvens

Para cada casa, um céu – e o céu, em cada parede, circunfere-se uma casa. Nesta simétrica correspondência entre as casas e o céu, tão evidente e tão obscura, dá-se o humano. Idéia talvez singular, mas cuja ancestralidade se perde na própria memória de alvenaria das construções humanas. Nas Metamorfoses, Ovídio nos lembra da ainda tão recente separação entre céu e terra, quando Prometeu se utiliza desta para moldar o homem. Ora, se essa era uma terra ainda fresca de céu, foi essa mesma terra a matéria escolhida pelo homem para edificar sua moradia. Mitos da cultura, semelhantes a esse, nos quais o homem depara-se com sua herança celes-tial, sua parcela divina, são constantes entre aqueles primordiais que nos pensaram primordialmente. E as casas estão lá, matéria de nossa matéria, carne de nossa carne, erguidas a partir de nossa centelha cósmica. Os tijolos, cada um deles, encerram poeira das estrelas, e por isso podem ser empilhados como casas. Olhar o céu é abranger o ilimitado a partir da limitação, uma medida pela qual o homem se percebe homem e compreende um destino. Akhenaton, mergulhado neste conflito, nesta questão suave de homens e deuses, desejou expandir sua capital em direção aos céus – nem para o norte, nem para o sul. E ainda nas Metamorfoses, por conter matéria celeste em seu corpo, o homem, diferentemente dos outros animais, conseguia andar de pé e erguer o rosto para olhar os astros. Aos animais, cuja terra já não continha qualquer frescor celeste, só lhes restava, com o rosto voltado para baixo, olhar para o chão. O homem é o único animal que efetivamente constrói casas. E é neste destino do homem, de construir e habitar suas casas, que se configura sua humanidade. O céu sustenta as construções humanas em seus alicerces de sonho.

Considerar a casa e suas extensões corpóreas, a rua, o bairro, a cidade, faz-me naturalmente querer caminhar os caminhos não usuais deste negativo celeste riscado no chão. Sigo, procurando os lugares pouco explorados. Gosto de observar as ruas, sobretudo as do subúrbio, suas construções sem origem no tempo, suas casas-enigmas, suas fábricas natimortas, suas favelas na linha do trem, suas vidas começadas de súbito e terminadas em milhares de direções. É certo que a questão da violência dificulta o trânsito por alguns desses lugares. O risco de assalto ou de coisa pior limita os passos, e o próprio prazer de andar a esmo está sacrificado. Grades, ruas com cancela, condomínios fechados, shoppings centers, por sua vez, restringem os espaços públicos, obrigando-nos a vislumbrar um futuro onde todos os lugares serão cercados. Creio, entretanto, só ser possível ter uma compreensão real da vida das casas se fugirmos às zonas centrais, onde tudo já foi por demais pensado e sentido e já tem um nome ou uma imagem formulada. Tudo que se possa viver nesses lugares, por exemplo, Ipanema, no Rio de Janeiro, será sempre a partir de imagens repetidas e caducas. Os sentimentos já são previsíveis, as experienciações, programadas. Andar por Ipanema não importa para nós: ali não há ruas, somente estereótipos num bairro-estereótipo. Os lugares mais organizados não passam de cópias grosseiras dos grandes modelos globalizados de cidade: as ruas regradas, com sua assepsia visual e étnica, seus transeuntes assépticos, com roupas assépticas e pensando assepticamente. Há lugares tão alvejados e luminosos que machucam os olhos. É preciso pensar o céu dos lugares deslocados de qualquer privilégio de centralidade, dos lugares "caóticos" e mal iluminados. É preciso aceitar o fato de o "desequilíbrio" ser a instância mais propriamente real do real. Amar o belo é simples, ele já está pronto. A luz não faz esforço para alcançar os olhos. Amar o que não é belo ou luminoso (ou pelo menos o que normalmente não é considerado como tal) é que consiste em verdadeiro desafio, e aí sim o desejo de superá-lo pode ser considerado amor. Até mesmo a violência urbana e os problemas sociais que se agravam diariamente encontram sua origem em nossa própria ignorância geográfica acerca dos lugares "periféricos". Conhecendo a geografia conhecemos o corpo de terracota e argila a revestir o outro. Isso vai muito além de um mero conhecer e catalogar o alheio. Trata-se de um conhecer-se. Experienciar o lugar além da paisagem, um organismo pelo qual respiramos.

Os bairros – falo propriamente dos bairros autênticos (no Rio consideraria os da Zona Norte, Centro e alguns, raríssimos, da Zona Sul) – guardam, cada um deles, o universo segundo sua própria topografia. Suas vias, vielas, passagens, caminhos, praças e casas ocultam a potencialidade de serem sonhados. Mas, olhar mais atentamente para as ruas, perguntar-se qual critério elas usam para decidir aonde vão, implica maior compromisso com o espanto. O trajeto dos ônibus cria combinações de delírios. E os trajetos não feitos? A sinuosidade das pistas, os desníveis das calçadas, as construções desordenadas, o super-posicionamento dos viadutos, os sobrados e os muros trepados, tudo isso é mais que mero acaso da necessidade de subsistência habitacional. É uma escrita para quem a saiba ler. Ler a fundo um lugar exige nele viver por algum tempo, conhecer cada amanhecer e anoitecer vistos das dobras de suas esquinas. Na sua impossibilidade, sobra-nos a chance de observar: caminhar a pé, atravessar cemitérios, zonas industriais, terrenos baldios, ou simplesmente ruas calmas e portas de comércio. Só assim a sintaxe das casas perfaz-se na sintaxe das ruas e, então, das cidades – todas cidades escritas sob o céu. É preciso repetir o andar sobre as mesmas ruas e compreendê-las no todo. Elas nunca se repetem, nunca são as mesmas, exceto sob a rotina daquele que as atravessa sem paixão. Cada momento de um lugar é um outro lugar. Uma rua num dia nublado é mais larga que esta mesma rua num dia de sol. Quando o sol é intenso, chegam a faltar algumas casas.

Poderia citar alguns bairros do Rio de Janeiro com vocação para serem sonhados. De imediato recomendo aqueles à beira das linhas de trem, com sua parcela de ancestralidade incompleta. Bairros antigos com casas antigas, mas não como a Glória ou o Centro. São incompletos em seu sentido de experiência. É como se tudo ali tivesse sido vivido pela metade, separado pela linha do trem. Ou o bairro do Caju, tomado por depósitos, armazéns e cemitérios. Perdidos lá no meio, pequenos isolados residenciais e até mesmo uma histórica casa de banhos imperial vivendo da lembrança da época em que o bairro era um balneário paradisíaco. A modernidade dos navios e guindastes destruiu suas praias, para menos de cinquenta anos depois deixar tudo largado como brinquedos velhos. Ou o bairro de Jardim América, onde uma doentia relação entre as quadras residenciais e o parque industrial circundante criou ilhotas de civilização separadas por longas ruas de muros sem casa. Ou Piedade, onde um supermercado altíssimo foi construído em torno de uma casa, deixando-lhe somente um estreito labirinto até o portão. Ou municípios periféricos e nada turísticos como São Gonçalo, por onde passa uma tênue linha de trem bem no meio das calçadas, das praças, dos quintais; e Caxias, com um centro que nos remete a uma outra possibilidade de qualquer cidade formada às pressas.

Depois de algum tempo sonhando casas, experiência própria, se começa a perceber a existência de um lugar por trás da cidade onde não se consegue chegar, escondido entre bairros e lembranças paralelas ao presente. Penso nele como a soma potencial de todos os lugares esquecidos. Numa recente descoberta, imaginei ter encontrado sua localização física. Foi sem querer que encontrei o bairro da Saúde, no Centro do Rio. Não que fosse algo totalmente desconhecido para mim, mas além de algumas caminhadas pela Sacadura Cabral, umas duas histórias e uns bares que visitei, era realmente muito pobre o meu contato com aquele Morro da Conceição, o qual eu nunca havia tido a curiosidade de subir. Imaginava, por ser um bairro do Centro, que não pudesse oferecer nada de novo. Foi surpreendente descobrir ali, entre a Rio Branco, a Marechal Floriano e o Cais do Porto, ou seja, na parte do centro que vai se deixando tomar pela decadência, um bairro "fora" do Centro, tão antigo que sua existência mal é lembrada. Surpreendo-me ao pensar como pude olhar tantas vezes aqueles becos e sobrados sem me dar conta do lugar aonde poderiam me levar. Falo de um outro lugar, radicalmente diferente do espaço à volta. Uma espécie de Santa Teresa sem glamour, com duas ou três ruas calmas e casinhas seculares, sufocadas por edifícios de mil metros de altura. Lugar lúdico, atalho para lugar nenhum além do passado ali presente. Subir a ladeira João Homem, entrando por uma escada na Travessa do Liceu que mais parece a entrada de um edifício foi como sentir-se estrangeiro no próprio país. Ou uma personagem do realismo fantástico conhecendo as portas por dentro da cidade. Nessa ladeira o sentido aéreo das casas parece ainda mais evidente: a rua inteira paira sobre os edifícios.

De qualquer maneira, sei que não é ali aquele lugar por trás da cidade. Na verdade, talvez nunca o encontre, pois é um lugar no qual não se pode estar completamente. Talvez o atravessemos um pouco a cada bairro que visitemos. Um enigma das próprias ruas.

Decifra-me ou te devoro

Quando criança, entendia equivocadamente esse prenúncio do enigma da Esfinge como o enigma em si, motivado, talvez, pelo pronome "me". Imaginava a própria esfinge se perfazendo enigma ao pronunciar a frase. Decifrá-la, portanto, era não responder à charada que ela, a esfinge, se preparava para proferir, mas tentar desvendar o seu sentido de esfinge através deste anúncio decifra-me ou te devoro. Uma espécie de meta-enigma cíclico que apontava para dentro de si mesmo, de tal forma que decifra-me ou te devoro se tornava, a um só tempo, anúncio, charada, esfinge – algo realmente assustador. Como encontrar nessa frase uma resposta à frase, e logo à existência da esfinge como linguagem? As casas são para mim esse enigma no qual sua presença propriamente já constitui o enigma. As casas, suas singularidades, seus mistérios, suas gerações de moradores, seus cômodos, as ruas e os bairros à volta são enigmas que nos devoram. Seu apelo, evocado e invocado pelo nome, pela vocação em deglutir, gestar e conceber, é um apelo a ser desvendado. Esse enigma não é um paradoxo – não existem paradoxos. Paradoxo é uma palavra inventada para tentar suprir nossa incapacidade de entender o absurdo do mundo. Um paradoxo só existe dentro de um pressuposto lógico e causal. As casas construídas de matéria uraniana não percorrem os caminhos da causalidade. Seu vigor não está no que é, mas no que deixa de ser. Está na própria fronteira que cria no espaço em torno de nós e nos seus deslocamentos temporais. Pensar as casas fora da mera edificação funcional e técnica é a única maneira de tentar criar o que chamo poética das casas. Muito mais que tornar as casas – ruas, bairros etc – obras de arte, essa poética implica uma transformação da vida, tirando-nos de nosso papel passivo na rotina das cidades para nos tornar ativos poetas do coti-diano. Tal poética não se baseia numa sociologia urbana, ou em qualquer geopolítica, mas unicamente numa geopoética – geologia celeste (ou cosmogonia telúrica) que se confere pela leitura da materialidade das casas, reenviando-as ao seu instante original, semeadura de planetas.

 

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