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A enumeração da água - Prefácio para o livro Palmyra, de Löis Lancaster e Eliana Pougy

Conheci Löis Lancaster, um dos dois autores desse livro, há alguns anos em uma mesa de bar no campus da UFRJ, na ilha do Fundão, Rio de Janeiro. Até então, eu só o conhecia pela atuação à frente da banda cult Zumbi do Mato. Não sabia do escritor tão pouco convencional. Anos depois, me surgiu virtualmente a figura de Eliana Pougy, a outra metade criadora deste volume, através de seus comentários no chat do Portal Cronópios. O livro, este, ainda não existia. Ou não existia para mim. Palmyra surge em minha escala de mundo, portanto, como a reunião de duas referências muito distintas e inusitadas. O Löis, vizinho, no Rio, a Eliana, um nome distante por trás de frases gravadas em pixel, em São Paulo; duas cidades, ademais – uma feminina e outra masculina –, que sempre se sonharam mutuamente entre o amor e o ódio.

Mas seriam essas duas figuras, de fato, reais? Löis e Eliana, imagens tão díspares em meu sistema cognitivo, poderiam ser tão ficcionais como seus personagens. Como saber que não eram, simplesmente, frutos de um delírio que viria a culminar nesse livro escrito em minha cabeça e materializado por obra de um deus ignoto? Não é fácil descartar essa possibilidade: trata-se de um livro do qual gostaríamos de ser coautores – como os próprios autores quiseram ser, ao ponto de realizá-lo. Há também a opção de que eu mesmo não exista para além de um personagem nesse prefácio inventado pelos dois e nomeado a partir de alguém real que leva este nome acima.

Tais especulações me vêm (e virão também ao leitor) após iniciar a primeira parte do livro, que, não à toa, se chama Da ficção. Suas primeiras frases são dedicadas a uma espécie de ensaio-evocação. Evocação ao avesso: ao invés de pedir à “musa” que incorpore, leva para ela o que há de realidade nesses que escrevem. Revela-se, antes de tudo, o mundo: cenário onde os autores exploram o próprio ato da criação: a ficção de algo sério brota da precisão quando há um passo da certeza para o perigoso de que estão apenas todos e sempre se divertindo, e de nada vale morrer por qualquer. É tudo brincadeira, no perigo. E então nos são apresentados personagens, que também se divertem, por ganharem vida. Não é um metalivro, pois que o conceito de ficção é uma ficção, assim como a realidade nada tem de real. Enquanto obra que destina um capítulo a debater-se ironicamente em torno da ficção, este é um livro de invenção de idiomas, isto sim, no qual personagens inventam autores e autores inventam um ao outro.

Mas ainda que ficção e realidade sejam assim palavras que já não dizem, é claro que há qualquer distinção entre o que está dentro e o que está fora de um livro – caso contrário, não faria diferença os ler. Ainda que todos os níveis narrativos se confundam na arte com a qual “lançam mundos no mundo”, o que está dentro de um livro se distingue por ser precisamente uma enumeração do que está fora. Palmyra é, pois, para mim, a enumeração da água. Dezenas de imagens aquáticas percorrem suas páginas. Frases recorrentes como Yvonne se levanta, espreguiça o corpo e pensa em água; As pessoas correm pela chuva e a chuva por elas, um empate; ou Meus cabelos acompanham o ritmo das águas e tantas outras que evocam a água e seus correlatos: chuva, lágrima, rio, transbordo, mares, etc nos revelam mais que todos os diálogos que poderiam ter tido os personagens. Os diálogos são a confirmação da presença dos seres que não sentimos por estarmos fora do livro, mas as imagens aquáticas ali enumeram aquilo que está no livro que temos por dentro, esse outro livro sincronizado ao livro aí nas mãos. É, sem dúvida, uma narrativa de águas, onde um Jonas se vê engolido por essa baleia-esfinge que é Yvonne – esta que é, por sua vez, parte totalizante da mesma água calma e morna do feminino. Se ficção vem da palavra latina fingere (moldar), a água é justo o elemento mais moldável; maleável, passivo, que se adequa, mas que é também rebelde, excêntrico, que aos poucos molda os terrenos que lhe moldam – a água é também ficção. Ficção líquida que engravida nossa personagem do mais puro bolor do desejo, nesse seu espaço de ser que é o ser fêmea. E a ficção na água é uma ironia da água mesma para nós: enumerar a água é só um outro modo de dizer que nós (Yvonne, os autores e leitores) estamos vivos, fora e dentro do livro. Cada ato de enumeração – ficção/real – é um dar à água o seu próprio nome e, consequentemente, trazer ao mundo essa mulher, Yvonne, que passa por entre nós. E assim podemos seguir mergulhados nessa narrativa-útero, na qual metamorfoses ovidianas transformam noite em dia a partir da umidade e do sentido de lassidão frouxa desse desejar comum aos que desejam.

E em um misto de referências pops e eruditas, que vão de Alex Proyas e Alejandro Amenábar a James Joyce e Ovídio, da literatura noir ao nouveau roman, Löis e Eliana conduzem essa narrativa chuvosa e emocional pelo cotidiano dessa pequena burocrata retida em seu escritório no Centro da cidade, com seu épico de happy hours e gabinetes de diretoria; essa “pequena criatura” submetida à fatalidade do que é. Texto labiríntico, enigmático, que reveza vozes e autores, pleno de charadas, detalhes obscuros e personagens secundários que se entrecruzam ou são reiterados em seus próprios capítulos (na segunda parte). Tudo conduz a uma escrita sensorial, que se universaliza quanto mais se individualiza. O umbigodomundolivro, como cunhado por Haroldo de Campos. Local sagrado da escritura onde o tempo é uma sentença, um discurso da luz sobre si mesma. Um livro de ensaios que ensaia o livro: que é água e que é erotismo.

A premissa – dois autores (um homem e uma mulher), escrevendo, a quatro mãos, narrativa que envolve um casal – não é nova. A novidade aqui se faz pela natureza do texto. Ambos praticam a escrita da precisão, da concisão e da poesia. Linguagem de cunho experimental, diga-se. Nem sempre radicalizante, mas sempre bela – talvez até em excesso. Um livro a quatro mãos como um jogo, uma peça beckettiana – Palmyra, palavra misteriosa na qual consigo identificar o anagrama de play –, no qual quem joga é o leitor, este outro personagem inventado pelo livro. Pois, independente da história íntima de sua criação e de todo o rebuscamento lançado pelos autores em prol desse mundo fora do chão, fato é que resultou nesse subproduto físico da celulose e petróleo que temos nas mãos. Um livro verdadeiro, sem dúvida. Daqueles de que costumamos sentir falta táctil. Inteligentes e escritos com inteligência. Não necessariamente fáceis nem obrigatoriamente difíceis. Na medida. Uma obra que se faz daqui para diante e que só falta ser começada. Boa travessia!

 

2010 Márcio-André | Design : Confraria do Vento | Crédito das Imagens

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