Há homens que entendem mais de
janelas. O pintor americano Edward Hopper é certamente
um deles. Entender de janelas é fazê-las vigorar como
fenda na fenda onde se revigoram. A função da janela é
deixar-se ver através de si, de tal forma que quando a
nomeamos – janela – estamos nomeando algo que se ausenta
para permitir outras visões. Pois a única possibilidade
de uma janela existir como janela é não sendo alguma
outra coisa. É somente deixando de ser parede, por
exemplo, que ela pode vir a ser janela – presenciar esta
ausência, portanto, é fazê-la funcionar. Temos então um
axioma curioso: para ser algo, a janela precisa
deixar de ser algo, tornando-se espécie de
não-objeto no qual se pendura cortinas, vidro, madeira.
E isso faz com que o real sentido da coisa janela seja a
própria renúncia da coisa outra em prol da paisagem.
Alguns perguntariam pela porta, mas a porta já carrega
em si uma função mais urgente e prática, menos
"poética". A porta é essencial ligação entre o interior
e o exterior da casa e sem a qual esta não poderia
existir. A janela, porém, cuja falta não impediria, na
prática, uma casa de ser habitada, se presta a
possibilitar um horizonte e ampliar seus cômodos até o
limite da vista. Mesmo suas funções mais imediatas, como
iluminar, arejar e fazer circular o ar, não se afastam
simbolicamente do sentido de alargamento das
possibilidades e de abertura para o lado de fora.
Outro aspecto torna a janela, essa
máquina de horizontes, ainda mais próxima da imagem de
nós mesmos, e nos fascina profundamente, muito além do
que permite uma porta, mero deleite para as sandálias: é
o fato de sermos nós também janelas, nossas próprias
janelas do mundo, confirmando nossa vocação de
consolidar o mundo em nós – através de nós, janelas. O
universo solidifica o real e tudo preenche os espaços
vagos entre nossas partículas. Fôssemos portas, não
seríamos homens, mas animais, deuses de si mesmos
confinados em seu sonho de mundo, sem vícios, sem ritos,
cumprindo o destino de comer, foder e definhar sem
significados. Mas como janelas, somos o mundo, pois
radicamos no vazio para permitir ao mundo – através de
nós – ser visto e significado e poetizado. Toda vez que
olhamos por uma janela vislumbramos a paisagem encerrada
em nós mesmos.
Hopper sabia disso e deixou em
suas telas (telas estas que, pelo artista, também
cumprem um outro papel de janela) o sentido profundo
desses não-objetos de entrever. Seus personagens
urbanos, solitários e melancólicos se perdem todos
diante da amplitude do mundo estendido através das
janelas – elemento insistente em sua obra –, como se
procurassem, não na paisagem, não nos olhos, mas no
limiar da própria esquadria a instância e o instante do
estar ali. Não é um questionamento existencial, mas
poético. A pergunta que inspira não é o que somos?,
mas o que há entre nós? Nem chega a ser de fato
uma pergunta, mas um medo, uma ansiedade consumada numa
ausência constante, pressuposto de uma busca adiada, de
uma rota incompleta, de um quê que ficou pelo meio do
caminho e não se sabe ao certo. A sensação é de ser
pequeno e frágil diante do mistério que sonda por atrás
de cada elemento da paisagem: dos prédios, das casas,
das montanhas. Talvez por isso as paisagens entrevistas
nas janelas de Hopper possuam algo de enigmático e
incômodo. Seus elementos são irreais, sórdidos,
feéricos. Não são paisagens externas, mas internas,
perdidas num tempo estagnado de tão estanque. Vejamos,
por exemplo, o quadro Compartimento C, vagão 193,
de 1938, ou o Motel no oeste, de 1957. Ambos
mostram mulheres sentadas em ambientes fechados, diante
de janelas abertas para vastas paisagens. O primeiro é
uma cena quase noturna: aparentemente solitária em uma
cabine de trem, a mulher lê um livro ou uma revista.
Protegida pelas cores quentes da luz do vagão, mantém-se
alheia ao ocaso lá fora, com suas longas sombras
projetadas sobre um rio. No segundo, outra mulher, dessa
vez sentada na cama de um quarto de motel de beira de
estrada, banha-se na luz do sol projetada através da
ampla janela de vidro. Do outro lado, vemos parte de um
automóvel (mais especificamente o capô), uma estrada e,
mais além, estranhos relevos, provavelmente os de um
deserto americano. Também nesta tela a mulher parece
segura, protegida do ambiente forçosamente tranqüilo do
lado de fora do quarto. Nos dois casos, a paisagem,
sedutora e perigosa a uma só vez, portadora de uma
angústia inominável, é um grave convite à solidão, os
sinais de um tempo rarefeito. Temos em ambas as telas a
forte impressão de que o interior onde as mulheres se
encontram é o único local seguro para se estar. Do lado
de fora, a vida parece tão impossível quanto a
superfície de um planeta sem atmosfera. Situações e
sentimentos semelhantes são recorrentes na obra do
artista e aparecem em muitos outros quadros como, por
exemplo, Escritório numa pequena cidade, de 1953,
em Manhã em uma cidade, de 1944, em Sol de
manhã, de 1952, e em Manhã em Cape Cod, de
1950. No Janela de hotel, de 1956, a vista soa
especialmente aterrorizante. A mulher de meia idade
sentada no sofá diante da vidraça, em sua aparente
despreocupação, tem o olhar perdido na rua em frente.
Hopper não pintou para o nosso ângulo de espectadores
terceiros os detalhes das portas e janelas do edifício
defronte. Antes deixou um espaço tão profundo e negro
entre as esquadrias que chega a ser mais intenso que o
tom de negro da noite em volta. Às vezes a paisagem não
aparece propriamente dentro dos quadros, como em
Chair car, de 1965, onde pessoas descansam em vagão
iluminado pelo sol. Apesar de vermos as janelas do trem
não é possível ver o que se passa do lado de fora.
Outras vezes as janelas são mostradas em ângulos que
ocultam a vista externa ou nem mesmo são mostradas em
sua totalidade, como em Conferência noturna, de
1949, ou no belíssimo No escritório, à noite,
de 1940. A sensação externa se deve unicamente à luz da
lua ou de um poste adentrando o recinto. Muitas vezes a
perspectiva pintada pode ser externa, mostrando os
personagens do lado de dentro das casas, como em
Janelas à noite, de 1929, em Quarto em Nova
Iorque, de 1932, ou como no famoso Noctâmbulos,
de 1942. Mas, tirando essas pequenas diferenças, a
situação se repete: pessoas protegidas num recinto,
separadas sempre por uma janela do ambiente externo (às
vezes, muito raramente, arriscando-se do lado de fora,
mas nos limites de um alpendre ou varanda). Seja de dia
ou de noite, esse lado de fora está sempre deserto, sem
que se veja vivalma, e carrega uma paz e uma quietude
misteriosas, típicas dos lugares afastados.
Os lugares que atravessamos em
sonhos são aqueles que por pouco não se realizaram,
descartados antes do amanhecer devido ao estado de
incompletude. Fragmentários e mal acabados, repletos de
imperfeições e arestas, com cantos escuros e caminhos
ainda inacabados – são esses os cenários escolhidos por
Hopper para pendurar em suas janelas. Por isso são tão
medonhos e enigmáticos, pois repetem o cenário dos
sonhos e pesadelos. Não como no onirismo racionalizante
do surrealismo, mas a partir de sonhos cotidianos
pertencentes a qualquer um e desfeitos à primeira luz do
dia. E justamente por isso não são espaços pelos quais
se pode atravessar para alcançar outros lugares – estão
ali apenas para serem vistos através das janelas, como
cenários de filmes antigos ou de peças de teatro,
pintados em papelão. É uma vista do mistério sereno e
profundo encerrado no homem, mistério esse que o permite
ser homem. Eis então o que nos dizem as telas de Hopper
em seu leitmotiv: nas janelas não se penduram
cortinas, mas todas as possibilidades do que
potencialmente somos, ainda que não possamos
atravessá-las. Essa situação não é alegórica, mas
concreta, e é a situação do homem, não diante de suas
paisagens, mas diante do mistério que resguarda tais
paisagens, o mistério possível de ser vislumbrado apenas
como mistério, sem ser revelado. Pois quando for até lá,
quando pular a esquadria e adentrar aquelas zonas
escuras, não será mais homem, e a paisagem não será mais
paisagem. Se todos tivessem acesso a tais paisagens, se
fosse possível ir até lá e trazê-las para dentro, ou
pelo menos descobrir sua farsa, ninguém teria janelas em
casa, penduradas na parede, viradas para o bairro ou
para o mar – essa lâmina de nada, coisa-nada,
coisa-nada-interstícia, que nos separa do desconhecido
que somos. Toda vez que sonhamos, esse desconhecido, o
sábio que há em nós, aconselha o idiota que há em nós –
o conhecido. Esse sábio é o único que pode passear por
esses lugares (e só por isso ele pode ser sábio e nos
aconselhar), mas ele mesmo nos é quase inacessível, não
responde à nossa vontade, é somente uma parte
independente daquele que somos: o sábio calado – nosso
lado mais escuro e próximo da morte.