Aos poetas deveria ser dado o
direito apenas de escrever poesia. Não há nada mais
entediante hoje do que ouvir um poeta falar em público.
Isso porque em última instância ele fala sobre poesia. É
raro, aliás, quando fala qualquer coisa que não seja
sobre ele mesmo. Cheguei a dormir em recente conferência
onde um desses grandes aedos que se multiplicam pela
cidade e semanalmente opinam nos cadernos culturais
contava em detalhes sua trajetória de vida antes mesmo
de se tonar poeta, provando sua competência em qualquer
coisa em que viesse a atuar, mas – para o bem da poesia
– se dedicou à escrita. Eu nem gostava de literatura
– dizia ele – meu interesse era outro, era pólo
aquático. Eu era um ótimo jogador de pólo... até que
conheci os grande autores. Outro gênio ao lado,
também palestrante, no esforço talvez de confrontar a
postura por demais elitista do colega, declarou em
seguida: eu nunca precisei ler poesia, só escrever.
Apesar de terem ali assumido "lados opostos" em relação
ao exercício da escrita, eles deixavam igualmente ao
público apenas a sensação de estarmos testemunhando
potências criativas de dimensões avassaladoras. No fim,
pouco ou nada disseram sobre poesia, além daquilo que
eles, enquanto poetas, deram em seu benefício.
A postura de ambos, cuja oposição
anula-se por uma única e real atitude diante da poesia,
deixa entrever uma corriqueira coincidência: o fato de
esses e de outros gênios escreverem versos que se
resumem a uma sutil ostentação de sua joye de vivre,
de seu status quo enquanto intelectuais e das
freguesias nas quais se encastelam por falta de leitores
– seja partilhando os lugares bacanas que freqüentam, as
sensações agradáveis, suas conclusões descoladas e seu
cosmopolitismo capiau, seja levantando sua
automarginalidade, sua atitude contracorrente ou seu
estilo junkie de ser como estandartes das obras
que produzem. O fato é que, trocado em miúdos, tais ou
tais posturas chegam a um denominador comum: o segundo
plano legado à poesia diante da figura do poeta – vulgar
perpetuação do ideal romântico do artista egocêntrico,
aquele semi-deus do próprio eu, transitando entre
mortais, orgulhoso do fato de só ele poder ser ele.
Idéia tão vulgarmente atacada desde o século XX e, em
certo sentido, "superada", mas ainda amplamente
praticada com outros nomes e critérios.
Num tempo e lugar em que o livro
de poesia não passa do mais "fajuto" dos bens culturais,
o qual, muito aquém de tornar alguém rico ou famoso,
pouco esgota uma edição de quinhentos exemplares – prova
quase empírica de que nem mesmo os poetas, uma população
em larga expansão, lêem os poetas –, o fato de haver uma
grande quantidade de escritores desinteressados no
diálogo com a contemporaneidade é, no meu entender, o
que mais afasta os leitores, tornando o mercado
editorial de poesia um salve-se quem puder no
qual cada autor luta para morder um pedaço de carne no
osso, variando sutilmente o talento e o posicionamento,
mas esbanjando vaidade. Apesar de chegarmos à proeza
acadêmica de propormos a crítica ao presente, os poetas,
mais do que nunca, estão voltados para o passado,
recusando todo aquele que lhe seja contemporâneo.
Transparece a mensagem na qual cada poeta entende que
seria o único vivo merecedor de leitura. E, como
acontece com todo bem cultural, sendo a oferta
infinitamente maior que a demanda, acaba-se difundindo
uma escrita que, quando muito, interessa a uma
pequeníssima parcela da população, tornando o universo
da poesia cada vez mais um gueto, como são os dos
ouvintes de black metal e dos jogadores de RPG. Fica
difícil compreender como, no mundo onde o sujeito se
afirma sujeito através da subestima ao outro, podemos
admirar algo que não seja produto da própria
subjetividade. Como dialogar se o interesse se mantém na
expressão das vivências pessoais, para aquém de
experienciações concretas que envolvem um exercício de
abertura ao outro? Não um outro selecionado para constar
entre os compadrinhos e amigos – logo, em função de si
mesmo –, mas o completo outro, indeterminado e
desinteressado. A expressão é a moeda de troca vigente,
e o artista, sobretudo o poeta, um certo comerciante
barganhando seu "universo interior" a quilo. Mas e a
arte? O impasse se torna claro diante do fato de que
qualquer viagem de psicotrópicos seria o suficiente para
produzir uma obra-prima – o que não acontece.
Curioso, porém, é como essa
continuidade da supervalorização romântica do autor
acabou por viabilizar hoje, contrariamente aos ideais do
próprio romantismo, uma realidade por vezes brutal no
que tange à instrumentalização do indivíduo. Mesmo atos
normalmente despreocupados, como a eventual citação de
um colega numa conferência ou numa entrevista, acaba
ganhando tamanha dimensão política que implica a escolha
detalhada daquele que será citado – escolha esta que
depende de uma ação de canonização do citado para que
este possa estar à "altura" de quem o cita – ainda que
seja para atacá-lo. Antes de se basear na qualidade ou
não do citado como escritor, ou mesmo em fatores de
natureza estético-ideológica, esta canonização tem posto
em jogo princípios outros que pouco se referem à poesia
– troca de influências e favores, endogamia, adulação,
tensão de forças e poderes. Assusta ainda mais que o
mesmo aconteça se o exemplo for transferido para uma
mesa de bar ou qualquer outro ambiente informal, onde a
escolha do citado não deveria ter uma relevância maior
do que a da recordação de um bom encontro, de uma boa
anedota ou de um bom porre. Também nesse ambiente o
indivíduo é selecionado segundo a relevância de sua
citação. Tal comportamento repete-se largamente em
outros exemplos, determinando aos artistas a escolha de
qual lançamento, palestra, vernissage ou festa devem
comparecer, quais autores comentar em seu blog, sobre
quais livros escrever a próxima resenha ou quais nomes
acrescentar na antologia que estão organizando. Nessa
técnica da canonização, o outro perde sua
dignidade de indivíduo para se tornar um objeto, um
instrumento de reafirmação daquele que o cita, num
movimento em que a própria citação converte-se em
espéculo de sua subjetividade – em que a poesia, por sua
vez, vê sua dignidade poética alterada em um
discurso vazio.
Tal relação entre a
supervalorização romântica do poeta e a
instrumentalização do indivíduo não apresenta de fato
nenhuma contradição quando percebemos que essa
supervalorização reestabelece a base do sistema no qual
vivemos, em que a reafirmação da crença absoluta no
sujeito é a força motriz do módulo de produção e
consumo. Para reafirmar-se sujeito – através do consumo
–, é preciso antes reduzir-se a objeto – através da
força de produção. Basta observar qualquer comercial de
televisão, onde o apelo de exclusividade do indivíduo
propiciado por determinado produto varia de acordo com o
seu valor de compra. Quanto mais caro, mais "exclusivo"
será aquele que o consome. Em outra instância, é mesmo
óbvia a percepção de que tal comercial é transmitido em
rede nacional, propondo "exclusividade" para milhares de
pessoas em tempo real, criando assim uma massificação e
uma instrumentalização do direito à individualidade.
Enquanto valor de compra, a individualidade, a dignidade
do – e enfim, a própria condição de – poeta será medida
a partir desta lógica da canonização, dentro da qual o
que se tem em vista é a cotação na bolsa de influências
e citações. Eis o canibalismo de todas as carnes.
Partilhando dessa mesma ideologia
de transmutação do indivíduo em recurso (canonização),
perpetuam-se noções que tanto resistem à construção de
parâmetros amplificadores no que tange ao diálogo entre
leitor e obra, popularizando, ou pior, massificando
eternamente aquela pequena parcela de textos de uma
ainda menor parcela de autores resguardados pelo cânone
ocidental. Os poucos "gênios" que a história elegeu para
excluir todo aquele que não se enquadrava nesta ou
naquela compreensão da realidade, que em outra dimensão
determina esta ou aquela escolha política, não são nada
mais que um subproduto dessa tentativa clássica e eficaz
de fundamentar a soberania dos valores da tradição
européia. É um verdadeiro massacre intelectual, por
exemplo, as centenas de compositores barrocos, das mais
diversas nacionalidades, que foram deixados de lado em
função daqueles quatro ou cinco italianos e alemães
eleitos para representar a "música eterna". Um
genocídio, com proporções devastadoras, de toda uma
genealogia da pluralidade musical, acessível apenas a
estudiosos e especialistas, provando que tal artifício
de canonização nem mesmo cumpre com o seu quimérico
intento de manutenção da obra de arte. Tão só determina
quais obras melhor representarão o "Ocidente". Se
passarmos da escala diacrônica para a perspectiva
sincrônica, excluímos também toda a produção deslocada
dos grandes centros culturais de hoje e de ontem, uma
vez que o princípio da genia-lidade compartilha
sobretudo do princípio de um espaço adequado ao
nascimento desse gênio, onde ele estaria
convenientemente exposto desde o berço a um fértil
terreno de cultura e liberdade (leia-se projeto
civilizatório). Mesmo que tentando remar conforme a
correnteza elejamos Machado ou Guimarães como "gênios"
(e ainda que o Sr. Bloom também os reconheça), não
esqueçamos que suas obras nunca serão consideradas
verdadeiramente "obras da humanidade" a menos que haja
uma drástica mudança geopolítica e lingüística que
coloque o português no meio das negociações culturais no
mundo. Prova real de uma matemática simples: gênio é
antes aquele que tem poder para eleger-se. O que sobra é
a resignação de não ser lido ou comentado, como não o
são os milhares de "gênios" dos países periféricos. E
assim, diminuindo a escala do microscópio e o
direcionando ao presente, voltamos a nossa pequena polis
com sua microfísica idêntica àquela estabelecida em
escala global e há muito tempo.
Cheguei a me perguntar se tal
característica, a de ferramenta de poder e articulação
política, raramente questionada ou mesmo percebida, não
seria a verdadeira essência da poesia moderna. Apesar de
ser uma questão cada vez mais refletida entre os
cientistas políticos e filósofos de nosso tempo, é o
poeta que deve (ou deveria) de fato preocupar-se com
ela. A poesia é quem tem mais a perder – isso, claro, se
entendermos poesia como diálogo e não como meio de
auto-afirmação e dinâmica do poder. Mas ainda que
resumir-se a ferramenta venha a ser a real essência da
poesia moderna, há uma essência ainda mais essencial a
toda poesia (de qualquer tempo ou lugar) e que, enfim, é
o que a caracteriza como poesia: sua recusa em
resumir-se ao discurso do poeta. A poesia é um diálogo
que dialoga leitor e mundo – em uma tensão que os reúne
e os religa essencialmente –, no qual o poeta é um
"tradutor" e nem ao menos deve orgulhar-se disso. A
poesia tem, portanto, um papel muito mais profundo e
crítico que o discurso do poeta, por melhor que este
seja, e já se configura um antidiscurso que
traiçoeiramente o coloca em condição também de "leitor".
Essa dimensão de compreendimento do que venha a ser
poesia precisa ser retomada imediatamente, pois como
interlocutor e interlocução deste colóquio profundo, o
leitor, mais cedo ou mais tarde, cobrará sua parte,
correndo risco, o poeta, de ser uma outra vez expulso da
república, desta vez em prol de uma poesia oriunda da
terra e do magma vulcânico – e não dos restos deixados
pelo suposto fim da história. Contra a cultura letrada,
tal debate caminhará para a destruição do conceito de
gênio, e o poeta (por extensão, todo artista) irá
recuperar o seu papel autêntico, perdido há algum tempo,
o de propiciador do diálogo, radicando-se no
exercício mundano de compor para o outro.
"Compor para o outro" por vezes é
confundido com o "compor pensando num público" – mas
nada pode ser mais egoísta do que compor segundo demanda
de mercado. O mercado promove, através da massificação,
a objetivação máxima do outro. Quanto mais o artista
permaneça nos moldes pré-estabelecidos das demandas de
mercado – pelo fácil caminho dos modismos estilísticos
ou pelas superações supostamente dialéticas exigidas por
este – tendo em vista a ascensão na bolsa da
aceitabilidade estética, mais se aprisiona no próprio
ego, primando antes pelo uso do trabalho (e do outro)
em proveito próprio, que pelo movimento da obra enquanto
Obra. O outro é a potência geradora de toda
diferença, aquela que evidencia e põe em questão a
própria identidade. Ao outro se deve reverência,
pois somente através dele nos ordenamos dentro e fora de
nós. Observador que nos observa e por onde nos
observamos a nós mesmos, é pelo outro que se pode
conceber um eu. Enquanto medida, ele nos dá,
antes de tudo, algum parâmetro não metafísico de
existência, pois somos sempre outro para o outro,
tornando este eu – tão fortemente acentuado pela
trajetória racionalista do Ocidente (cuja última linha
de defesa filosófica havia sido o existencialismo) –
irrelevante e anulado nas inúmeras possibilidades de ser
concebido pelo outro. Logo, impossibilitando
qualquer fixação de um estado absoluto e real do eu.
Em nossa tradição mais recente, a
poesia foi considerada a arte do eu por
excelência, esta potência egoísta e excludente. Mas
somente o cotejo das diferenças e a contemplação da
outridade podem autorizar a consumação do estado poético
autêntico. Diálogo entre homem e mundo, a poesia é um
movimento dinâmico cujo vetor aponta na direção do caos,
gerador de todas as coisas, e só pode ser concebida como
potência máxima das possibilidades e impossibilidades.
Tal potência se configura na figura do outro. Não
estamos falando de altruísmo, nem de solidariedade.
Consideramos uma escala tão mais amplificada de ação
que, dentro de suas aplicações, altruísmo e
solidariedade desapareceriam como conceitos por serem
desnecessários. Notemos também que estanciar na escala
do eu não equivale a escrever um poema em
primeira pessoa. Grandes poetas utilizam a primeira
pessoa para falar daquele múltiplo que, disfarçado de
eu, confunde-se com o outro. Fernando Pessoa
talvez seja o exemplo mais adequado, visto que concebeu
uma infinidade de outros, nomeados por diversos
eus.
Sendo a arte como um todo o real
espaço da diferença e do desconhecido, cabe ao artista a
percepção de que somente pelo compromisso com o outro
é que a Obra pode manter-se dinâmica e correr na direção
contrária à centralização imposta pelo sistema de bens
culturais. Quanto mais o artista se engaje na contramão,
quanto mais se aprofunde nessa tentativa de auscultar o
mundo, fundamentando poéticas radicais e provocadoras,
pois diferenças, mais ele se doa ao outro,
justamente por doar o que a este jamais havia sido doado
antes: uma outra possibilidade de mundo. Mas esse é
também um caminho ardoroso e por vezes solitário, pois
antes de trilhar as rotas já trilhadas, exige abrir na
mata uma senda inexistente, despertando por vezes o ódio
e o desprezo daqueles a quem se quer chegar. Essa
postura, que pode ingenuamente ser entendida como
vanguardista, não se refere a uma mera inovação formal
ou à exclusividade nos modos de criação, mas à
sinceridade com a própria Obra. Há tantas possibilidades
de mundo no qual o mundo se ordena, há tanta força na
potência oculta – logo infinita – da poesia e da arte,
que seria ingenuidade demais acreditar em apenas meia
dúzia de caminhos consagrados pela farsa da tradição.
Este sim é o verdadeiro formalismo, aquele que tem na
tradição (instância máxima da lógica da canonização) a
alternativa futura de um passado pré-determinado. Se até
a capacidade da fala é uma adaptação, um "desvio não
natural" do organismo a partir de órgãos com funções
fisiológicas específicas (respiração, digestão etc),
nada pode ser determinístico, nada pode servir como
balizas para a consumação das possibilidades plenas da
poesia. O sistema fonador é uma dádiva da cultura, fruto
da necessidade que tivemos desde o início de falar
poesia, sendo a própria fala um poema do corpo, como o
mundo é um poema do desconhecido. O desconhecido, por
sua vez, é a potência máxima da imagem do
outro.
E aqui se conforma um caminho
ético. A questão ética não deve ser identificada a
questões meramente morais, nem com falsos engajamentos
políticos. A ética é a correspondência à interpelação
das possibilidades de mundo – interpelação sempre jogada
ao desconhecido –, e se constitui portanto um caminho
mundano que chama em resistência ao que há de falso e
secundário no que tange à realização poética, a saber:
tudo aquilo que submeta a Obra a outros desígnios que
não os dela mesma. A poesia só permanece na totalidade.
Sem ética, esfacela-se e estanca-se em fragmentos
meramente formais, se prestando a ferramenta política e
moral. Desta feita, a ética não incide em normatividade
de comportamento do escritor, mas numa escrita
desapegada de valores externos. Se a ética fosse
meramente comportamental, a questão continuaria no
âmbito do poeta, não da poesia. E o que propomos é um
lugar onde a escita revele-se escrita por uma não-ação.
Isto é: pelo ethos de uma ação que se acione pelo
próprio ato, e não pelos seus resultados. A ética é um
tal engajamento da vida na escrita que a própria escrita
passa a suplantar a vida do autor.
O enorme coração do cavalo bombeia
sessenta vezes mais sangue que o do cavaleiro. A poesia
bombeia sessenta mil vezes mais sangue que o poeta. É
preciso deixá-la tomar o controle. A poesia não é o
lugar para fazer aquilo de que se gosta, mas aquilo de
que se duvida. Não é um passeio de domingo, mas uma
viagem turbulenta por caminhos desconhecidos, sobretudo
para o poeta, e que o afeta de tal maneira que não pode
deixar de ser moldado por ela. Por isso o poeta deve ser
antes de tudo um leitor, para decidir-se poeta somente
quando da certeza de suas dúvidas, isto é: escrever não
por expressão, mas pela radical necessidade de vasculhar
o que ninguém se atreve a vasculhar por ele. O poeta
nunca deve ser maior que a poesia que escreve. Deve
sumir diante dela e restar na ordinária condição de
indivíduo – aquele que vai à padaria, que assiste a
filme ruim na Tela Quente, que nunca foi o preferido da
professora, que não ostenta essa ou aquela condição, que
não é melhor ou pior em relação a qualquer outro –, de
tal forma que falar de aspectos de sua vida não venha a
ser mais importante que a poesia contida nela. Na
verdade, já não haverá diferença entre vida e poesia, ao
contrário dos exemplos citados no início do ensaio, nos
quais a poesia não passa de um recurso retórico tendo em
vista a canonização do autor – não é a vida que se impõe
à poesia, mas a poesia que gera a própria possibilidade
da vida. O poeta deve ser, conseqüentemente, aquele que
se interessa pelas pessoas (ou não), por motivos outros
tenham elas a lhe oferecer ou não. Somente assim,
lutando em pensamento e ação por uma ética da escrita, a
poesia poderá ser, como já foi na antigüidade e em casos
muito recentes, a arma mais incisiva e poderosa contra
as incoerências da realidade. Ser ético é, portanto,
escapar ao próprio ego e engajar-se na quântica das
palavras. Essa é a dimensão da qual o poeta não pode
abrir mão. Se ele for complacente com o sistema, quem
mais deixará de ser? Somente sua simplicidade e renúncia
podem redimi-lo, muito além das ilusões criadas para
suportar sua real insignificância social. O cinismo só
se torna válido quando se aplica a nós mesmos. O artista
que tem medo de duvidar, seja de si, seja do mundo que o
aceita, tem medo de deixar de ser como é, pois ainda se
admira como o sujeito de uma realidade objetivadamente
imutável, e não como centelha de um universo mutável.
Este ainda não está pronto para a caminhada. Sua viagem
se limita a ir até a esquina e voltar.