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Uma poética da resistência -
prefácio para o Livro Encarna, de Berimba de Jesus
Não pretendo
deter-me aqui na inegável qualidade da poesia deste livro – ela fala
melhor por si mesma. Também não me interessa descrever o poeta Berimba,
cara responsa daqueles que você simpatiza ainda na primeira rodada
de chopp, uma vez que qualquer biografismo fajuto nada tenha a melhorar ou
piorar o trabalho do autor. O que gostaria de debater com o tão logo
leitor é o caminho escolhido entre o poeta e sua poesia, que enfim
resultou neste livro que ambos (leitor e prefaciador) temos, neste exato
instante, nas mãos.
Se pudéssemos seccionar e isolar as atuais vertentes, tendências e
direcionamentos da literatura ou da arte de um modo geral, chegaríamos a
apenas duas atitudes diante dela: aquela (grande maioria) que enxerga no
ofício da escrita uma possibilidade de expressão ou afirmação dos valores
de quem escreve, deixando entrever aí uma ferramenta ideológica e de
consolidação institucional, e aquela onde a escrita é já a própria
condição fundamental da vida, de tal forma que o escritor não a concebe
possível fora de sua dimensão. Talvez seja apenas uma questão de vetor,
uma vez que no primeiro caso, escreve-se para consolidar-se escritor, e no
segundo, a condição de escritor surge da necessidade e ato de escrever.
Entretanto, é justamente na direção – isto é, aonde levam – que os
caminhos se qualificam e o artista se define quanto ao seu papel social e
ético. Está em jogo se a obra de arte será sujeita ao indivíduo ou se é o
indivíduo que se conformará em corresponder aos apelos da própria arte.
Esta segunda postura, cujo caminho é certamente mais estreito e penoso, é
aquela assumida por Berimba de Jesus – não porque tenha chegado até aqui
se equilibrando no fio da navalha, conhecendo a realidade comum à maioria
dos brasileiros, porém acessível a poucos poetas, mas porque remando
contra todas as determinações e potências imperiosas dos condicionamentos
sociais, ele não deixou de trilhar o caminho da poesia – mais, não deixou
de esmerar-se em torná-lo cada vez mais o seu próprio caminho. Neste
sentido, é verdadeiramente difícil distanciar o poeta Berimba de sua
poesia, ainda que não devamos jamais confundir a obra com o autor, caso
contrário, correríamos o risco de cair na primeira postura citada acima. O
que, de fato, se confunde aqui com a poesia não é Berimba, mas as
conseqüências da escolha que, em algum instante obscuro de sua vida,
determinou que seu corpo e devoção não fossem consagrados a nenhum outro
deus que não a escrita.
Berimba, o autor, participa de uma forte vertente contracorrente da poesia
paulistana: os Maloqueiristas, que produzem livretos de forma independente
e os vendem nas ruas. Assumidamente “marginais”, o grupo busca a
“redenção” ao fazer valer e destacar a periferia no ambiente mainstream de
Sampa. E eis que a poesia de Berimba deseja igualmente ser resistência à
ética estabelecida da retificação urbana, em prol de uma po-ética
sub-urbana, contra os pequenos simulacros, contra as formalizações, contra
os que se julgam detentores da arte e da cidade só porque detêm o poder
formal das instituições – e entre estes está aquela grande massa atuante
na primeira qualidade de artistas descrita acima. Mas, ainda que
"militante”, a poesia de Berimba não faz isso de forma ingênua ou
assumidamente confrontadora. Não, pelo contrário. Encarna inicia seu
primeiro poema da seguinte maneira:
vou mergulhar o corpo
em todos os meios
Neste verso, Berimba – não o poeta, mas o personagem escolhido pelo
próprio poema para, a partir das experienciações daquele que o escreve,
instaurar o estado poético – revela-se sábio. A palavra meio possibilita
aí uma dupla leitura. Por um lado manifesta o desejo de transitar em todos
os ambientes, por outro, a recusa em aderir a eles – isso porque estar no
meio é estar fora das extremidades – sugerindo um observador que não toma
partido. Não se trata de uma isenção temendo o comprometimento, mas do
afastamento necessário àqueles que sobreviveram a infernos piores e agora
gozam de certa sagacidade. São nesses meios que ele pretende mergulhar seu
corpo. Paradoxo conflituoso, onde por um lado há o desejo de não estar de
fora e por outro o desdém, é, entretanto, uma postura sábia, pois irônica,
que, sem julgamentos, mas pleno de crítica, compreende e ri da pequeneza
daqueles que acreditam em tais meios. E é preciso ser duro para tornar-se
inteiro.
Este primeiro verso mostra a que veio o livro e vai guiá-lo até o fim. Um
mergulho no entre, social e ontológico, quase por desencanto – desconcerto
quinhentista do mundo a ser combatido em plena Paulista com seus moinhos
maquinais. É nesta dinâmica a um só tempo monástica e marginal que Berimba
constrói seu caminho:
enquanto o poema ser
minha plataforma única
estarei só
palavras e vida
Onde “estarei”, ambivalentemente, permite ser lido como estância
provisória do “ser” anteriormente utilizado de forma atípica. Ou seja:
“serei (enquanto o poema for minha plataforma permanente) só palavras e
vida”. O fato de “estar só” é também autêntico, uma vez que basta o poema
para mantê-lo firme. Tal firmeza se consolida no indiscernimento entre
palavras e vida, à espera do que, em determinado poema, é chamado de “vida
maior”:
com a sensação
de estar confinado
como quem espera
uma vida maior,
te vejo cada vez mais longe,
assim, apaixonado.
Ainda que este poema se refira ao distanciamento de alguém, essa “vida
maior” não é uma questão pessoal meramente. O verso sonha com um mundo
menos mesquinho, menos cretino, menos hipócrita. Essa “vida maior” seria
simplesmente uma vida fora dos ditames da sociedade moderna, esta do
consumo indiscriminado e da instrumentalização do indivíduo e da escrita,
assumida com tanta propriedade pelos protagonistas dos meios onde pretende
mergulhar e sair incólume. Portanto, a “vida maior” evoca aí o desejo de
libertação através da própria poesia. É somente assim que o livro anseia
pelo tombamento
das flores de aço
E este não pode ser alcançado sem uma profunda transmutação da realidade,
onde ela seja inteira, um completo indiscernimento entre poesia e vida, de
sorte que retorne ao seu estado poético primordial, através de uma obra
que se faça vida a cada instante:
sonho viver
uma obra aberta
espontâneo
a cada quilometro
Fica, para quem lê o livro, o sentido da busca por uma vida inteira,
maior, na e pela escrita. Busca que, por vezes, revela uma história que só
não é trágica pela certeza de que o personagem Berimba vence sempre.
Ressoa, entretanto, nas confissões:
confesso,
entre piadas
um achar difícil.
Encarna é, portanto, um livro de encarnação – isto é, um livro que
possibilita o fazer-se carne, fazer-se humano – ser humano, por sua vez, é
ser inteiro em sua humanidade, correspondendo à “vida maior”. E faz isso
através do escárnio dos protagonistas da farsa. Pois encarnar refere-se
tanto a “corporificar”, quanto a “perseguir” ou “zombar de”. E de quem ou
em quem o livro encarna? Se não fosse livro, seria brincadeira de malhação
do judas, que encarna o “inimigo” em boneco de espuma para este ser
encarnado pelos brincantes, em ritual onde se encarna um épico cristão de
expurgação das injustiças. Mas sendo livro, encarna o sábio personagem
Berimba para debochar do ridículo do mundo – desdenhando até mesmo de quem
o lê, ao fazer o leitor encarnar em si mesmo o ridículo da sociedade.
Então, se há neste livro um mérito – e há muitos –, certamente está na
busca por um caminho onde vida e poesia sejam o mesmo – “vida maior” –, de
tal forma que já não seria um autor a escrever o poema, mas o poema a
escrevê-lo. A busca por essa correspondência fez Berimba – neste caso, o
poeta – concretizar, através do auto-aperfeiçoamento e autocrítica, um
terceiro livro maduro, a um só tempo cru e sensível, verdadeiro, direto e
sem firulas, como deve ser o olho e a boca daquele que tem a poesia na
veia e diariamente mata um leão com as mãos. Num mundo e numa cidade onde
a poesia pegou sólidos vícios de mão única, consolidando técnicas
paradigmáticas de polarização e autocanonização, a mensagem subliminar
ecoando ao fim deste livro talvez seja: vocês terão que engolir a minha
poesia, esta que encarna em e de todas as coisas. É um livro onde vida é
risco, onde poesia é risco. Uma poesia viva e da vida e fala por si e só.
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