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Originais em português

Traduzidos

 

Prefácio para o livro Versos pornográficos, de Chico Cesar

 

A primeira vista, o título deste livro impacta pela aparente contradição, uma vez que o adjetivo “pornográfico” parece ocupar o extremo oposto simbólico e moral do substantivo “verso”. Ainda mais quando nos damos conta de que tal livro foi escrito por Chico César, autor de algumas das letras mais delicadas da MPB dos últimos vinte anos. Acontece que entre esses dois “extremos” – e, perdão pela involuntária licenciosidade evocada por um livro dessa natureza – há um espaço acolhedor a ser preenchido. E será pela própria poesia.


Sempre me pareceu demasiado moralista a distinção burguesa entre erotismo e pornografia, que busca parâmetros efetivos para distingui-los, sem no entanto ter proposto mais que definições superficiais, por vezes traidoras dos próprios pressupostos. Nessa equação, o “pornográfico” é invariavelmente condenado, embora, muitas vezes, o dito erótismo de hoje seja a pornografia de ontem. E o cálculo não se reduz a conveções sociais de épocas distintas. Recusar à obra de Marquês de Sade, por exemplo, o título de pornográfica pelo simples motivo de ter sido consentida como artística pelos altos círculos intelectuais é afinal um contrassenso tão extremo que, fosse a prova real tirada pura e simplesmente pelo prisma da “vulgaridade”, seríamos obrigados a trazer qualquer filme pornô barato para dentro do conceito de “erótico”. Ou seja, trata-se, muitas vezes, de distinções baseadas não somente no moralismo sexual dominante, mas também no julgamento moralista do valor artístico da obra, fazendo alheia ao âmbito da libido qualquer diferença legítima de sentido entre essas duas palavras.


Além disso, tal como é clichê na literatura erótica a menina rica submetida ao rústico plebeu, pode não ser tão antinatural ver o delicado vocábulo “verso” ceder aos brutos encantos de “pornografia”. Pois se há alguma distinção palpável aqui, ela se encontra na origem de ambas as palavras: “pornografia” não vem de um berço tão nobre quanto “erotismo”. Apesar de ambas serem formadas diretamente do grego clássico, “erótico” (ερωτικός) tem origem na antiguidade, referindo-se ao deus grego Eros, enquanto “pornográfico” é cunhado somente no século XIX a partir da palavra πόρνη (prostituta) para designar tanto os livros médicos sobre a prostituição quanto a arte produzida na antiguidade que retratava temas obscenos.


Não obstante, sabemos que o que a poesia sempre fez foi redimensionar as palavras para fazê-las coincidir com o real, dando a elas novas pretensões sem retirar-lhes as pretensões originais. “Pornográficos” é, portanto, o adjetivo mais adequado para os versos desse livro. Se, por um lado, sua origem descritiva nos evoca a dimensão anatômica e gráfica do ato sexual, por outro, evidencia, nesse distanciamento dos indivíduos presentes no ato, o quanto tais versos se querem perversos.


Nessa perspectiva, diferentemente do erotismo, se daria na pornografia a morte do sujeito para o nascimento do prazer. O erótico, cujo sentido mais moderno foi cooptado pela concepção patriarcalizante de amor, pressupõe uma individualização que reafirma a ideia do sujeito contemporâneo, enquanto o pornográfico sugere uma despersonalização em prol do prazer em si. Por isso, os filmes pornôs optariam por exibir um prazer impessoal, que se personifica no prazer de cada espectador, para que um ato entre atores desconhecidos torne-se o ato erótico em cada um de nós. Ou, como Alain Robbe-Grillet tão bem resumiu, “a pornografia é o erotismo dos outros”, ao que eu acrescentaria: a pornografia é o erotismo dos outros em nós. Não supreende que tenha se convencionado marginalizar o pornográfico numa sociedade tradicionalmente aversa ao ato sexual livre, fora da instituição do casamento e sem fins reprodutivos, e que recusa ao indivíduo o corpo quando dedicado unicamente a ele mesmo e mergulhado no indistinto do um e do outro. Fora da esfera da moralidade moderna, entretanto, toda obra verdadeiramente erótica é pornográfica - porque nos leva ao espanto filosófico daquilo a que nomeamos prazer.


Somente por isso, Chico César abre o seu livro dirigindo-se a uma “Cara leitora”. Essa que, de tão múltipla, pode personificar-se em qualquer uma. Se pelo nome que nomeia cada indivíduo, o corpo pode ser roçado por palavras alheias, como se estas fossem o corpo de outro, o vocativo aí substituindo os nomes, faz de cada um o perfeito indistinto alvo da bolinagem. Na tensão em que a negação da exclusividade dá o tom do pornográfico, essa leitora inominada pode tornar-se a mulher exata a quem o poeta dirige sua língua e lápis.


Depois de determinada a “Cara leitora”, expressão ironicamente retirada das antigas novelas folhetinescas dirigidas a damas de classe entediadas, Chico César constrói um texto cuja palavra, por ser pornográfica, escorre pela boca:
com a palavra gozo na boca
deixou escorrê-la ao peito

Se fosse erótica, não seria “puta e pura poesia”. Porque neste livro, pornográfico é não só o conteúdo dos versos, mas também a própria matéria morfo-semântico-fenético-sintática da palavra.

recitar e excitar
até que esporraria
tudo em teus grandes lábios de veludo
depois ao cubo
ao cu iria


A putaria é linguística (em todos os sentidos) e vai para além (ou para dentro) da leitora, evidenciando o quanto o próprio ato da fala é um ato fálico. Uma felação não estaria muito distante de um poema lido em voz baixa. Talvez por isso, a imagem da boca esteja tão presente no decorrer do volume. Esse órgão que serve tanto ao verbo quanto ao sexo. Deste jogo, no qual a matéria textual é carregada de volúpia em si mesma, surge um livro a ser escrito – imagem que Chico brilhantemente nós dá através das pernas abertas dessa mesma leitora, onde ele pode molhar “a língua e a linguagem”, para nos fazer concluir, afinal, que também todo verso é pornográfico.


Assim, ele dedica religiosamente, página a página, um caderno de orações sacanas a essa dama inominada do outro lado do livro, estimulada por uma sucessão de palavras volumosas, carnosas, úmidas e febris dirigidas ao seu ponto g, enquanto ela deve apenas deixar-se ler e ser escrita como parte do códice lascivo elaborado pelo autor entre suas coxas:

quisera estar sob tua escrivaninha
lambendo entre tuas pernas
(...)
estar aí sem te dares conta
sem tua plena consciência nem consentimento


Chico César, esse talentoso expoênte da nossa música, adentra com virilidade e potência esse novo gênero que, a despeito da relativa juventude do termo, é mais velho que o Velho Testamento, com uma edição belamente ilustrada pela artista húngara Sári Szántó e com capa criada pelo connoisseur de tipógrafia italiano Mattia Moretti.
Por isso, Cara Leitora, não se engane com o tamanho deste volume. Pequenos pacotes guardam enormes prazeres. E eu, alcoviteiro convidado a fazer as honrarias à iniciação do coito, desejo que a leitora penetre gentilmente nesses versos lúbricos - e cegamente. Ao ponto de não saber se penetra ou se é penetrada por eles.
 

 

 

2010 Márcio-André | Design : Confraria do Vento | Crédito das Imagens

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