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Poesia
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Prefácio para o livro Cabalísticos,
de Löis Lancaster e Eliana Pougy
Cada pedra, mesmo a mais bruta, acolhe em sua dureza a
lubricidade das fêmeas. Nas contas de opala da dentição,
a mulher calcifica o que de rocha tem em si. É sob a
pressão e o escuro das profundezas, que terra e mulher
se identificam no poder de gestar no silêncio paciente e
violento do mundo. Géia, pedra-fêmea: o erotismo medido
na equivalência desses dois entes magníficos surge nesse
livro de Edson Bueno de Camargo, revelando um universo
de luas cheias, de turmalinas, de combinações
alquímicas, de imagens domésticas e misteriosas,
acontecendo no espaço entre o chão e o baixo ventre das
damas.
Edson está entre os escritores atuais que mais admiro,
por sua potência criativa e sua inconformidade com as
soluções prontas, mesmo trabalhando dentro da
arqueologia tradicional do poema, o que torna tudo mais
admirável. Soma-se a isso, a sua perícia em arquitetar
uma poética que articula o excesso até a extrapolação –
até o ponto de fissão metamórfica da realidade – e, ao
mesmo tempo, suave como se nada se excedesse. Isso
comprova sua vocação de mestre cabalista. Pois Edson não
é um poeta de “achados”. O seu maior achado é aquilo que
se deve levar para todo poema: a própria poesia. Ele tem
aquela magia numérica fundamental aos poetas que não se
aprende nem se ensina, mas se revela ou não.
Este livro, com suas mulheres de orelhas pequenas e que
cheiram a incenso, sonha a leveza e a dureza em imagens
claras e vigorosas, e consolida ainda mais a poética
desse bruxo que é Edson Bueno de Camargo. |