1.
A palavra, sem abdicar de sua matéria, é uma potência exterior a ela
mesma. Ainda quando má ou prosaicamente utilizada, guarda em suas
combinações assimétricas a ascendência do mundo e a força de todas as
divindades. Quando bem e muito bem utilizada, a palavra pode prescindir da
própria palavra. É nesse estágio que encontramos na linguagem a sua
verdadeira vocação: a de abertura para e fuga de si mesma, em duplo
movimento com o qual ela abarca todos os sentidos. E eis que esse é talvez
o maior mérito de Anu: levar, de forma ainda mais radical, a
palavra a encontrar-se em sua plenitude, justamente quando ela desiste de
configurar-se palavra, instaurando uma não-língua, pois de não-palavras.
Uma não-língua, por suspender-se na escala do não, logo, na
possibilidade aberta de toda a coisa e sua denominação, deseja a
palavra-coisa a moldar-se coisa-coisa, em que a coisa prescinde de palavra
justamente por já ser ela mesma palavra – a palavra-feita-coisa em sua
própria confusão de dimensões. Eis porque a ave anu, esse pássaro
quase-corvo, cobre de negro as longas sentenças-neologismos que grasnam em
seu vôo melo-sintático nas páginas do livro. Um cubo negro repleto de
frases-coisas ou palavras-valises, como Augusto de Campos bem define as
empreitadas joyceanas, a partir de nomenclatura deixada por Lewis Carrol
na boca de seu Humpt-Dumpt.
Mas isso ainda não explica o mistério de Anu. Anu situa-se
no espaço de um épico (ainda que da dessematização). E, como épico,
instaura já em seu primeiro verso ou bloco-ave uma evocação, na qual a
palavra-ave anu vai se confundindo com a paisagem/cenário evocado, sendo
desde já paisagempalavrave e na qual o corpo transvítreo aquoso da ave se
define e completa anu através da cena noturna que transpassa o
interiordasgraiz:
riomarnointeriordasgraiz
euanuavesoubichonasenda
poçudespelhásliságuacor
rentondvítriocorpiodfauno
É nesse
instante inicial, que não comporta nem um antes nem um depois, que a
palavra-ave anu e o bloco-anu se confundem em uma só coisa, ao mesmo tempo
ave, palavra, negro, noite, livro – sem estar bem claro o que está
“dentro” ou “fora” do poema ou do livro que temos nas mãos.
E este, como épico, prossegue numa ascensão contínua da estrutura
instaurada inicialmente, a da ave-livro que se metamorfoseia pelo verbo em
tudo o que observa com seu olhardpervérticio que lhe faz anu, num
sentido cosmogônico muito acentuado:
anuéaladoqarvoaervaraiz
marsemfimcorpodpázsaro
insetaérãjiadbrejalqréptil
ervadteuolhardpervérticio
anuimalrompdialibelualo
irromplísberdalocadotatu
rãdivivacrisálidanachuva
Essa estrutura
vai compor e comportar um livro que se perfaz essencialmente como livro de
mutações, tal mesmo como as Metamorfoses de Ovídio, em que o mundo
vai se originando a partir de diferentes materializações das formas,
sempre amparado pelo mito. Mítico aqui é o desejo, físico e ortográfico,
da ave consolidar-se anu. Mito, portanto, ritualizado na
palavra. Pois é a palavra que se metamorfoseia para concretizar a
metamorfose da ave em coisas e das coisas em anu, levando essa grande
sentença-livro, formada de pequenos blocos-sentenças, a materializar-se
numa única palavra-livro, onde a ave anu realiza seu vôo alfabético com
suas vinte e três patas caligráficas e oito milhões de sentidos, para por
fim voltar a ser anu ave:
viropássarosoumesmoanu
Ao fim do qual, reinicia o vôo metamórfico, num processo cíclico a definir
o próprio estado do tempo mítico, que não comporta nem um princípio, nem
um fim:
riomarnointeriordasgraiz
Ora, o tempo mítico é também o tempo poético, pois um pratica o outro. E
nesse tempo poético, a palavra é a própria essência do tempo e do espaço,
dimensão única e plural de uma mesma e muitas coisas. É assim que se
anuncia, nesta cosmogonia wilmariana, uma espécie de oroboros, um livro
que engole eternamente a si mesmo – palavra que se come para revelar-se
comida e, desta forma (morfossintática), dar-se de comer ao leitor –
palavra. Porque comida, é pela boca que a palavra pode “retornar” ao seu
local de origem. O devorar a si mesmo implica também um desvelar a própria
ausência. E é assim que um livro complexo se comporta diante do leitor:
criando nele vazios, através do próprio vazio predito. Permite-se o
aparecimento de outras coisas no lugar do livro e do leitor devorados e
estas outras coisas nada mais são que o sentido máximo deste pássaro
tornado fabuloso pelo poder das palavras e do leitor tornado outro
pela entropia da ausência e do silêncio. Anu é alado e, portanto,
múltiplo.
2.
Esta reedição de Anu, após sete anos de seu lançamento, vem
resgatar um livro que, se já foi algo descoberto, ainda não foi lido como
se deve – longe da idéia de uma obra fechada em si. A escrita, assim como
o corpo, é uma entidade em aberto e pode, portanto, ordenar-se em dança.
Eis que este livro do poeta mineiro Wilmar Silva corporifica uma outra
escrita, permitindo um diferente movimento de corpo durante a leitura e
trazendo para o leitor atento um livro inaugural, pois necessário.
Necessário quer dizer levar ao leitor uma outra tradição, fora das já
encaminhadas nestes últimos vinte anos, ainda que tenha origens precisas,
mas não determinantes, no concretismo paulistano.
Anu desencadeia um livro cujas relações semântico-sonoras encontram
eco mais recente no Galáxias, de Haroldo de Campos, e no poema
“Cidade”, do irmão Augusto, mas também na poésie partition de
Bernard Heidsieck e na gagueira rítmica de Ghérasim Luca. É portanto um
fruto do concretismo, mas sem aderir ao seu manifesto. Um concretismo
talvez mineiro – diria até mesmo drummondiano –, que vai comendo pelas
beiradas, sem ir com sede ao centro, mas cuja importância não pode ser
ignorada como uma nova dimensão de poesia que emerge no cenário literário
brasileiro. Este livro nos apresenta um novo mundo, uma nova forma de
pensar a poesia, e ainda dispomos de poucos críticos verdadeiramente
atentos para perceber o que oferece. É um livro ousado que ainda não foi
lido com ousadia. Mas um livro nunca pertence ao crítico, e sim ao leitor.
Então, que iniciemos a sua leitura ousadamente.