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Entrevista a Victor Del Franco Revista Celuzlose. Setembro de 2009

 

A Confraria começou como uma revista digital e depois houve uma edição impressa para comemorar os dois primeiros anos de existência. Agora, vocês estão pensando em lançar edições impressas para vender nas bancas. Você pode falar um pouco sobre o desenvolvimento desse projeto?

A Confraria funcionou nesses quatro anos como revista eletrônica e isso nos satisfez até então. Adquirimos respeito, seriedade e confiabilidade frente a uma quantidade de leitores que não esperávamos. Mas chegamos à conclusão que, sendo nosso objetivo a democratização da literatura e do pensamento, deveríamos investir numa publicação física e de tiragem comercial. O papel é ainda um forte apelo à leitura e, para nós, enquanto uma publicação didática, importa mais onde chegar do que como chegar. A primeira edição já está pronta e pretendemos que chegue às bancas de Brasil e Portugal no início de setembro. O objetivo é criar a primeira revista de grande circulação voltada exclusivamente para a veiculação de autores filosóficos e escritores, ao contrário das outras revistas similares, restritas ao jornalismo cultural. Queremos chegar ao “seu” Zé do Mercadinho, pois ele também tem direito de ler textos do Giorgio Agamben e do Jean Baudrillar, o último poema do Arnaldo Antunes ou a estréia de um jovem escritor – ou então usar para embrulhar peixe, o que também é uma forma válida de crítica. Ou seja, é um projeto que tem tudo para dar errado. Não temos ainda certeza de nada, só a de que a revista vai sair. Mas, tirando isso, ainda não sabemos como e por quanto tempo. As empresas estão muito relutantes em anunciar num projeto assim, as distribuidoras têm medo. Enfim, tudo o que já esperávamos: cultura direta e real mete medo, enquanto o jornalismo, que é venda de produtos culturais – não cultura –, alivia as dores na ilusão de que inteligência é consumo. Mas, como sempre foi nosso objetivo, fiamo-nos na utopia da congregação de forças aparentemente opostas. Pois, como na edição eletrônica, queremos fazer uma revista que não seja vinculada a um grupo ou a um projeto estético específico, o Brasil precisa disso, de propostas um tanto liberais de cultura mais profunda, menos aristocráticas, menos reservadas aos encastelados de academia ou aos ensebados de classe média. Queremos uma revista de e para todo tipo de peixe – da sardinha ao baiacu.


Como você vê a questão do livro impresso e do livro digital, os dois vão conviver em harmonia ou haverá algum conflito?

Acho difícil haver conflito. Essas nossas mudanças de mídia são feitas de maneira bem natural. Não acho que o livro impresso vai acabar só porque chegou o livro digital, mas certamente vai diminuir. Pode ser que em alguns anos o livro acabe de fato, ou quase acabe, o que é sempre bom, até mesmo para o livro. Acho que o interessante nessa revolução digital, onde o livro e o chope (ainda não inventaram chope digital) serão as últimas fronteiras a serem atravessadas, é o fim da ideia de posse material, em prol do bem abstrato. A pirataria vai virar uma prática e o anarquismo cultural será finalmente instalado, tendo como base os fundamentos mais radicais do capitalismo – o que é bom e ruim ao mesmo tempo (pois, como dizia o grande “filósofo tremendão”: tudo sempre tem os dois lados). Com isso temos o risco de perdermos os parâmetros qualitativos, seja lá quais forem eles. Os problemas que enfrentamos hoje, os mais essenciais, também não irão diminuir só por conta disso. Falta de leitura, educação de baixa qualidade, a leitura como suporte de lixo editorial – tudo isso tende a se radicalizar. Mas, enfim, a questão é que se o livro impresso acabar, é porque já não ligaremos mais para eles, a exceção dos bibliófilos, que se reunirão em catacumbas e adorarão volumes sagrados como “O código Da Vinci” ou “A maravilhosa cozinha de Ofélia”. No fim, tudo será uma desculpa para as orgias.


Em seu livro “Ensaios Radioativos” existe uma parte denominada Diálogos Quânticos, além disso, você também propõe uma educação pelos quanta. Fale um pouco sobre esses conceitos. O que eles representam no seu trabalho?

A educação pelos quanta se concentra na ideia em torno da indeterminação entre ficção e realidade. Partindo de conceitos próprios da física das partículas, propomos algumas abordagens diante do real e da arte que podem transformar profundamente a maneira de encarar essas questões. É uma proposta que tende a acabar com as classificações históricas, uma vez que não havendo um paradigma que permeie as bases de uma verdade, - nos termos dessa nossa filosofia infinitesimal, assim como não existe um paradigma que fundamente o real estável -, o próprio conceito de história torna-se discutível. No comportamento interno das partículas, percebemos não haver diferença efetiva entre passado e futuro (o tempo circula simultaneamente nos dois sentidos) - e, portanto, se um corpúsculo só pode determinar-se ente enquanto possibilidade constante de não-ente, podemos nos perguntar muito seriamente sobre o princípio das coisas. Elas teriam uma criação num dado momento de uma linha cronológica de mão única, ligando o passado original e o futuro profético, ou estariam a todo o momento criando-se e recriando-se a si mesmas, a partir de suas permutações com outras coisas - “contaminações” -, numa constante tensão com as diferenças? Nessa didática, se conseguirmos vislumbrar o fim de separações entre as coisas, entre os espaços, entre a relação sujeito/objeto - sem jamais eliminarmos o vigor de diferença entre eles, isto é, aquilo que o torna o que ele é -, podemos supor um leitor inteiro com a obra, mutando e sendo mutado a todo instante, na grande articulação de um uno fundamental que o plenifique em sua constância de possibilidades enquanto ente em constante trasformação-contaminação. E essa ideia está presente em todo o meu trabalho, fazendo-me correr atrás de alguma coisa que não saberia dizer se é poesia, música, pensamento ou vida.


Certa vez, você declarou: “O sentido de sagrado da obra de arte sempre esteve em mim, intuitivamente”. Esse sentido permanece? E como ele se manifesta?

Goethe nos lembra que quem tem poesia já tem religião, e que quem não tem poesia, que se socorra da religião. É quase o meu caso, um tanto invertido: como eu sou um incompetente para religiões, sobra-me somente a poesia. Ela foi o meu primeiro objeto de culto (depois vieram as mulheres e o álcool), minha religião – aquilo que me religava à realidade e à terra de forma mais radical e me deixava mais perto de deus. E não somente a poesia. Quando moleque, eu tinha um verdadeiro fascínio por cinema, música, dança e literatura como um todo e eu não conseguia conceber minha vida longe disso tudo. Hoje, claro, isso ainda permanece, talvez de forma menos intensa, em certo sentido, mas certamente mais íntegra e madura, mais consciente. Se antes eu buscava tais coisas para a minha vida, hoje acho que estou totalmente inserido nelas, o que, aparentemente, me tira algum encanto. Se suponho estar um tanto entediado com tudo, não posso tão pouco me afastar – é como se já fizesse parte de meu organismo, como um sacerdote, uma vítima de sacrifício ou algo assim. É, portanto, o que me mantém pleno. Hoje percebo que este sentido do sagrado é, de fato, o que permanece de mais verdadeiro com a obra de arte. Não porque a arte dependa de qualquer relação de culto, mas porque ela é o sagrado em sua essência, aquilo que, posteriormente, será usado pelas religiões de maneira muitas vezes tendenciosas. Esse sentido maior permanece e se manifesta em seu aspecto totalizador – não no objeto artístico, mas no instante em que dialogamos com ele. Esse sentido, muito claro para mim hoje, é o que nos faz totalmente indiferenciados de tudo, tornando-nos parte de e inteiro com todas as coisas. Isso sim é o dito sagrado, aquilo que nos dá algum sentido a mais que os da normatividade do sistema moderno de relações. Da mesma forma que num culto religioso passamos a nos religar mais profundamente com o deus, na arte, nos religamos mais profundamente com o mundo, e isso faz parte do seu sistema de crenças.


Existe alguma diferença no seu processo criativo quando você pensa num poema ou em uma performance musical? Ou são apenas dois lados da mesma folha de papel?

Tenho pensado nas palavras como se fossem uma peça musical, assimilando a escritura a uma partitura. Esse conceito me acompanha desde o meu primeiro livro. Eu sempre tentei criar uma escrita “sinfônica” de dinâmicas complexas e harmonia dissonante. Meu maior desafio, entretanto, tem sido executar essas peças. Acho que o problema é criar um suporte que as sustente e, ao mesmo tempo, uma escrita que possa ser encenada. O discurso linear tem me seduzido ultimamente e o ensaio se tornou bem eficaz. O problema é que ando querendo levar isso também para a poesia e quando se quer fazer do poema uma música, você precisa pensar mais em termos de materialidade das palavras do que propriamente em seu encadeamento de sentido linear. Isso é bem difícil. Tenho andado aberto a possibilidades diversas de se escrecer e isso, para um poeta, às vezes é ruim. No final das contas (e eu jamais imaginei que diria isso), é preciso um pouco de idiossincrasia para conseguir produzir algo coerente. Mas para resumir a questão em termos de processo criativo: eu tenho tentado, cada vez mais, unir as duas coisas, para que tudo que eu venha a tocar seja um poema e tudo o que eu venha a escrever seja executável enquanto música.


Seguindo a linha da questão anterior, podemos dizer então que na sua poética o som é o sentido?

Sim, é muito próximo disso. Talvez um pouco além, porque falar em “som” e “sentido” já não faria sentido. Não estamos equiparando uma coisa à outra, mas simplesmente não intervindo em prol de uma separação forçada. Se eu digo “tangerina” eu já sonhei essa coisa enquanto palavra e isso é muito mais do que representá-la em forma de som. Estamos dando à coisa a sua plenitude, da mesma forma que alguém só vem à luz se, imediatamente, esse alguém recebe um nome. Não há o humano fora da possibilidade do chamamento – somos sempre topônimos de nós mesmos. Quando dizemos “tangerina”, estamos, de alguma maneira, recolocando o “objeto” tangerina dentro da “coisa” tangerina (que seria a conjuntura de tudo o que torna a tangerina, tangerina), para nela adquirir cheiro, sabor, textura, peso. Conhecer o nome da tangerina é comê-la, pois se tudo está em tudo pelo seu poder de contaminação, tudo já se revela em tudo: a palavra é uma manifestação da tangerina no mundo, como o próprio objeto – tangerina – é uma outra possibilidade de sua manifestação (cheiro, cor, forma, textura, sabor, são ainda outras possibilidades dentro de possibilidades). E não estamos falando de sentidos excludentes de manifestação, mas sempre complementares – para usar um termo da física – tudo completa e completa-se naquilo que resumimos com essa simples palavra: “tangerina”. Portanto, se a tangerina têm um sabor completamente diverso da bergamota, é besteira, para mim, ignorar e não explorar ao extremo essa faceta das palavras/coisas-no-mundo, onde elas se tornam no mundo tangerina ou bergamota a partir das possibilidades de uma coisa manifestar-se. Quando escrevo-as em meus poemas, eu mesmo me contamino por essa força, fazendo-as manifestarem-se mundanamente enquanto poesia.


Em 2007, você esteve em Pripyat e fez uma leitura de poemas nas proximidades da usina de Chernobyl. Como você viaja muito para fazer suas apresentações, existe a possibilidade de repetir a experiência radioativa com uma perspectiva diferenciada? Ou, como se diz na música, fazer uma variação sobre o mesmo tema?

Gostaria muito. Chernobyl foi uma experiência extraordinária. Acho que foi o único lugar no mundo onde fiquei verdadeiramente em paz e entendi afinal que porra eu estava fazendo nesse planetinha: vivendo, radiovivendo, plenificando radicalmente minha existência com todo aquele césio purificador. Se eu pudesse, me naturalizava ucraniano e ficava lá por uns anos, banhando-me de radiação para curar minhas zigziras. Mas como é realmente bem nocivo permanecer ali muito tempo, eu me contentava com algumas horas para repensar mais a reação da força de contaminação, explorar mais a possibilidade de totalizar-me nas pedras, enquanto minério humano.


Recentemente, você recebeu um prêmio da Biblioteca Nacional para o desenvolvimento do livro “Poética das casas”. Como estão os preparativos do livro, já existe alguma previsão para o lançamento?

O livro “Poética das casas”, que é um livro de ensaios sobre a relação das cidades com céu, está na reta final. Pretendo lançar ainda esse ano, mas não é certo. Depende de vários fatores e da editora que o assumiu. Falta ainda um último capítulo, onde investigo a origem das cidades nos sonhos e isso está me tirando o sono. Tenho começado a desenvolver uma relação um tanto perturbadora com o Rio de Janeiro. Acho que estou vendo a cidade como ela jamais foi vista antes: como o resultado de um longo épico de nossos desejos de humanidade e de uma similar simetria com nossa parcela celeste. Não somos nós que a construímos, mas a cidade que se constrói em nós. E o Rio tem virado nosso mais profundo pesadelo.


Além de suas atividades como editor, poeta e ensaísta, você também é tradutor. Você tem influências dos autores traduzidos?

A tradução é uma forma de reinventar-me, sempre. É o ápice do desapego de um escritor, porque foge ao que ele é em direção ao que ele jamais imaginou que pudesse ser. Gosto de traduzir autores que tem pouco a ver com o que escrevo para estar sempre a mudar minha escrita através da escrita deles, ainda que, aparentemente, seja eu a reinventar seus textos. Sempre defendi que o tradutor devesse enlouquecer na medida do poema a ser traduzido, nem mais, nem menos. A loucura da recriação deve vir na potência de enlouquecimento do original e isso é um exercício e tanto de enlouquecimento alheio. O tradutor tem nas mãos um poder extremamente bélico. Você sabe que Hermes, o intermediador de homens e deuses podia mudar qualquer situação, caso quisesse. O tradutor, nesse sentido, pode dar ao leitor qualquer obra, boa ou ruim, mas nunca a original. Ele sempre coloca ali a sua parcela própria de divindade e humanidade. É muita responsabilidade: é preciso estar por inteiro na reescrita, como se é por inteiro na escrita. E eis porque, para traduzir poesia, o tradutor precisa também amar a poesia. Nesse momento, estou traduzindo Serge Pey, Ghérasim Luca e Roberto Juarroz, três poetas que mexem muito comigo, apesar de escreverem o extremo oposto do que gosto de escrever.


 

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