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Entrevista
a Márcio
Aquiles Folha
de São Paulo, 3
de setembro de 2011
Márcio-André foi entrevistado pelo jornalista Márcio
Aquiles, para realização de matéria na Folha de São
Paulo sobre o seu poema-instalação "Debug is on the
table". Exposta durante os três dias do festival Poetas
por Km², no Centro Cultural São Paulo, e controlada em
tempo real pelo poeta diretamente da Espanha, a
instalação consistia de uma saleta coberta por
projeções. No centro da saleta, uma mesa com uma webcam
e, diante dela, as palavras "bug
: god". Tendo como única referência essa webcam, ele
manipulava poesia por meio de sons e imagens,
interagindo com as pessoas que se aproximam. Abaixo, a
entrevista completa, incluindo o que não foi publicado.
Quando você criou este poema-instalação?
Ele começou a ser
concebido há uns seis meses, quando Claudio Daniel
me convidou a realizar uma performance no evento.
Por questões de agenda, eu não poderia comparecer
pessoalmente e aí comecei a desenvolver uma ideia
que já vinha me perseguindo há algum tempo, a de
trabalhar com programas de videopresença e acesso
remoto. Foi, portanto, a junção entre a necessidade
de resolver um problema prático e a de explorar um
conceito. A questão entre proximidade e distância
e como transformar isso em obra tornou-se
obsessão quando fui morar em Portugal. Nos primeiros
meses, eu sentia muita falta dos amigos, de forma
que, semanalmente, nos "reuníamos" para beber - eles
no Rio, eu em Lisboa -, o que terminava em
verdadeiros porres virtuais. Eu ficava
intrigado com essa ideia de me sentir mais próximo
dos amigos no Brasil que das pessoas ao redor.
Claro que o uso
de programas como skype para apresentar eventos,
palestras e mesmo realizar obras artísticas já não é
novidade, mas o que vou fazer é completamente
diferente disso. A proposta é apresentar o mesmo
tipo de espetáculo que apresento ao vivo, com a
mesma complexidade técnica, valendo-se dos programas
de acesso remoto, muito usados por técnicos de
informática para fazerem manutenção à distância. A
presença imprescindível do
performer, nesse caso, é substituída pela
evidenciação de sua ausência física. Até onde
tenho conhecimento, essa é a primeira performance de
acesso remoto no mundo.
Já
foi exibido em algum lugar?
Ainda não. Esta será
não só a estreia da performance, como também o teste
de fogo do projeto como um todo, incluindo os
inúmeros riscos que permeiam a proposta - que vão,
desde possível lentidão na transferência de dados
(ou mesmo queda na conexão) durante a realização à
própria montagem da instalação, que em si já
representa um desafio, por eu só poder acompanhar
parcialmente, via webcam.
Você considera debug in on the table mais como
poesia digital/hipermídia ou performática?
Eu não me preocupo
muito com essa questão, que parece dar demasiada
importância à uma taxonomia da qual a obra pode
prescindir. Seria como tentar definir para uma
criança se teatro de marionetes é dramaturgia ou
brincadeira. Qualquer que seja a definição, não fará
diferença para ela. Além disso, uma coisa não impede
a outra. Por exemplo, em
todas as as minhas performances presenciais, na qual
trabalho essencialmente com a relação entre o corpo
e o espaço através da palavra, eu processo áudio e
imagem em tempo real, utilizo projeções e mesmo
hipermídia (como no caso de Multitubetextura, no
qual eu intervinha com um
aglomerado de vídeos do
youtube executados aleatoriamente). Não creio,
portanto, que haja qualquer necessidade de colocar
um conceito antes da obra. Mas, se ainda assim eu
precisasse classificá-la, eu gostaria de dizer que é
um penetrável digital, remetendo diretamente ao
Hélio Oiticica. Pois me fascina essa ideia de um
local físico para guardar o virtual. Como, aliás,
são concebidos os templos das religiões.
Como serão
manipulados os sons e imagens pelos 3 dias? Será
ao vivo? quantas horas?
A ideia é bem simples: quem for
ao Centro Cultural São Paulo nos dias do evento
encontrará uma pequena saleta coberta por projeções.
No centro da saleta, haverá uma mesa com uma webcam
diante das palavras "bug : god". A
partir de minha casa, na Espanha, posso ver todos
que entram na sala pela webcam e manipular os sons e
as imagens projetadas, que serão criados à partir de
fragmentos meus e de diversos outros poetas
contemporâneos. Basicamente,
os programas que irei manipular estarão no
computador em São Paulo, ao qual, através de um
programa de acesso remoto, terei controle em tempo
real. Se a rede do CCSP
suportar, pretendo ficar durante todo o tempo de
funcionamento do espaço. É
um exercício de resistência também. Mas, sobretudo,
de paciência, pois, como é uma experiência nova, esses
programas não estão plenamente preparados para isso
e tudo pode acontecer. Não se descarta, afinal, a
presença desse deus:bug, código ignoto e autômato,
que paira sobre a parafernália digital (e mesmo
sobre o real).
Como você enxerga a poesia contemporânea em
meios não impressos (poesia oral, digital,
performática, tridimensional, objeto etc.) ?
O mundo hoje é complexo,
sobretudo porque estamos cada vez
mais conscientes de que é mais importante colocar as
questões que respondê-las plenamente. Acredito que
esses novos caminhos na poesia contemporânea
possibilitem a recuperação do espaço originário que
ela detinha: a de colocar questões de forma mais
radicalmente diretas.
Não que tais questões não estejam em um poema
impresso, mas o livro, enquanto objeto de cultivo
individual, ao modo que foi idealizado pela reforma,
não pode hoje suportar
sozinho a responsabilidade de levar a poesia para
a praça pública, para o povo. Quando
se faz poesia por outros caminhos, se possibilita
outras dimensões do questionamento, que, por sua
vez, abrem novos caminhos. Parece que tudo isso é
uma defesa do novo, mas na verdade é o extremo
oposto: me interessa apenas dessacralizar aquilo que
foi estabelecido enquanto instituição (por exemplo:
a instituição "poesia impressa em livro") para
tornar a poesia tão livre quanto foi nos períodos em
que ela não era ou era raramente escrita. Uma poesia
corporal, ainda que escrita em bites.
Paradas em Movimento: Videopoéticas ainda
está em exposição no CCSP? Como é esse trabalho?
Sim. A mostra ficará até o dia 29 de outubro.
Trata-se de uma exposição de videpoemas expostas em
telas de plasma espalhadas pelo CCSP. O curador,
Elson Fróes, fez uma belíssima seleção de alguns do
mais atuantes poetas digitais da atualidade,
incluindo Arnaldo Antunes e Eduardo
Kac. Eu participo da mostra com cinco videopoemas
preparados especialmente para a ocasião. Neles,
estão um pouco da estética que experimento,
trabalhando palavras e grafismos em vídeos com média
de cinco minutos.
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