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Entrevista a Julio Daio
Borges Portal
digestivocultural.com Fevereiro de 2008
Márcio-André é precoce. Completando trinta anos em 2008,
já publicou três livros de poesia; edita uma das mais
importantes revistas literárias da atualidade, a
Confraria; e coordena a editora Confraria do Vento, pela
qual lançou seu último volume, Intradoxos, e também a
coletânea dos dois primeiros anos da Confraria, ambos em
2007. "Primeiro poeta radioativo do Brasil", já leu
poemas até em Chernobyl, na Ucrânia, e, no momento,
desenvolve um trabalho em "geopoética", a "poética das
casas", define.
Nesta Entrevista, Márcio fala da Geração 00 ("o fato de
publicar já não atesta ninguém como escritor"), da
gênese e da consolidação da Confraria ("nosso interesse
era enfrentar a academia e a maneira pela qual ela
sempre se fez ver") e da caminhada editorial da
Confraria do Vento ("estamos descobrindo como é difícil
e complicado levar adiante uma editora no Brasil").
Embora poeta militante, Márcio-André teme pelo fim da
poesia ("ela exige uma contemplação, uma paciência e uma
auto-reclusão difíceis de se encontrar hoje"), dá os
seus palpites sobre o livro eletrônico ("vejo a
'pirataria literária' como uma possibilidade de
democratização da leitura") e reflete sobre a relação
escritor-leitor ("será que o escritor [contemporâneo]
está preparado para intermediar, como queria Hölderlin,
deuses e homens?"). — JDB
*
Queria começar falando de você e da sua produção.
Como eu acompanhei a internet e a Geração 00
praticamente desde o início, cansei de ver gente que
descobriu a escrita através do e-mail e através da Web –
e, de repente, pensava que era escritor. Sem nenhuma
cultura para isso. Sem ler a literatura feita antes (às
vezes renegando a tradição sem conhecer a tradição),
maltratando a ortografia e a gramática, e publicando,
naturalmente, obviedades, como se fossem peças originais
ou mesmo autênticas. De uns tempos pra cá, porém,
apareceu gente como você – que lê, que estudou (e
continua estudando) literatura e que vem com uma
proposta. Como foi no seu caso? Não sei se você concorda
comigo, mas eu acho que você não é o único – eu tenho
visto autores jovens, com vontade de aprender,
perguntando, pesquisando... sem aquela empáfia de quem
nasce sabendo tudo. Você confirma essa atitude?
Eu acredito num valor ambíguo da
Internet, que tem menos a ver com ela do que com seus
usuários. Seu grande mérito está na possibilidade de
independência do escritor dos canais formais de difusão
e produção, sejam estes as editoras, a academia, a
imprensa, tradicionalmente responsáveis por “atestar”
aquilo que deve ser lido. Não há aqui um julgamento. Não
há certo ou errado, mas naturalmente cada mudança de
aspecto implica uma mudança no panorama: se antes havia
uma dificuldade maior de veicular o trabalho, por outro
lado havia um maior “profissionalismo” da escrita – para
o bem e para o mal. O editor, por pior que fosse, agia
como mediador qualitativo, ainda que em função do
mercado, de uma tradição ou de um grupo. A tecnologia
tornou tão fácil lançar um livro ou um blog, que surge
espaço tanto para uma escrita menos comprometida a esses
ditames quanto para essa falta de “profissionalismo” da
escrita, surgindo muitas vezes escritores sem critério
algum. Isso leva justamente ao caminho oposto, onde o
fato de publicar já não atesta ninguém como escritor. A
proliferação dos autores que “nascem sabendo tudo” só é
problema da Internet na medida em que ela queira o mesmo
nivelamento democrático da idéia que a subjaz, enquanto
produto desta, cuja propensão é justamente a de
direcionar sua fala a todos aqueles que queiram
simplesmente se “expressar”. A idéia da expressão,
enquanto valor artístico, é muito mais antiga, surge com
a modernidade e remete mais imediatamente à idéia do
gênio no romantismo, justamente onde o projeto de
industrialização teve o seu maior impulso (não eram,
como se pensa, movimentos divergentes, mas antes a
reafirmação da noção do sujeito, num momento em que o
indivíduo mais e mais deixava de ter algum valor real na
sociedade). Naturalmente, surgem também escritores mais
engajados na escrita, jovens escritores como Victor
Paes, Marcelo Ariel, Karinna Gulias, Rod Britto, Paulo
Ferraz, Ronaldo Ferrito e muitos outros, que, mais cedo
ou mais tarde, se encontrarão na excelência de si
mesmos, justamente porque recusaram ver seu trabalho
como "expressão". A lição que fica, neste panorama, é
que, cada vez mais, o leitor precisa ser um crítico –
apaixonado, pleno de afeto, mas exigente – para que ele
mesmo possa discernir o que o interessa ou não. Ou seja,
o leitor passa a ser, mais do que nunca, ativo diante de
tanta oferta e a leitura toma o seu devido lugar, o de
diálogo, e, cada vez menos, o de consumo editorial.
Ao mesmo tempo, parece que estamos superando,
finalmente, a fase do vômito na literatura
contemporânea. Eu vejo a sua poesia como um trabalho de
elaboração. Porque, em muitos livros que eu li (ou
folheei) de 2000 pra cá, parecia que o autor publicava,
às vezes propositalmente, o esboço ou o rascunho – a
primeira versão. No seu Intradoxos, você evita o que vem
mais fácil e procura trabalhar, realmente, o verso. Fora
que o seu livro, além de divisões (e uma numeração de
páginas pouco usual), tem um projeto. Ou seja: embora
esteticamente eu não concorde 100% com tudo (o
pleonasmo, aqui, é consciente), eu reconheço que houve,
como disse, elaboração, que você não foi simples e
apenasmente “espontâneo” – como tantos autores, ainda
hoje, são. Acredita que seja um traço seu (da sua
personalidade) ou podemos generalizar – como venho
fazendo aqui – para uma nova geração “pós-internet”
(“pós-00”)?
Particularmente, sou contrário a qualquer tipo de
generalização. Foram as generalizações que fundamentaram
vários preconceitos durante a história da literatura,
inclusive as mais absurdas delimitações do que seria ou
não literatura. Ora, quando se fundamenta, a partir de
certos parâmetros incomuns, um paradigma geral, o
resultado é a anulação de todo elemento que destoe
desses parâmetros. É uma falha ética da própria lógica,
onde se entrevê uma lógica de exclusão. As
classificações são tão arbitrárias que revelam mais a
vontade daquele que classifica do que a do classificado,
e entrevemos aí, o exercício do poder. Quando se
classifica literatura por parâmetros geracionais, então,
a coisa complica. É uma taxonomia que não fundamenta
mais do que uma linha de “nascença” entre os escritores.
Como então determinar uma unidade de escrita, mínima que
seja? Além disso, não vejo a elaboração como uma escolha
estilística, mas como um pressuposto fundamental do
próprio fazer artístico, ainda que a própria elaboração
possa permitir uma “falta de cuidado” enquanto valor
conceitual. Não me entenda mal – não acho que a escrita
da fase que você chamou do “vômito” não possa ser
literatura, mas ela será tanto literatura quanto mais
esteja fundamentada enquanto projeto – e está longe de
mim querer determinar se ela está ou não – eu só não
acredito é numa ingenuidade artística. Os beats, por
exemplo, com seu despojamento, demonstravam um aparente
desleixo ao ofício, mas é só deter-se um pouco ao que
escreveram, que entrevemos um pensamento profundo, uma
revelação da escrita muito maior do que aquela
pressuposta pelo “automatismo genial”. O que vai
determinar esta elaboração, ao meu entender, é o
confronto do escritor com a própria tradição. Não
somente a tradição formal, mas qualquer tradição com a
qual esteja dialogando – um repentista é tanto um melhor
repentista, quanto mais ele conheça a tradição do
repente e compreenda a sua própria criação. A tradição é
um dos ritos da memória – e ainda que seja para
enfrentá-la, não se encara a tradição sem conhecer seus
pontos fracos. Esse enfrentamento produz a própria
memória e ergue os parâmetros éticos da escrita,
enquanto engajamento ontológico e não meramente ôntico.
Pois então eu creio que a tal falta de elaboração, essa
“primeira versão”, como você falou, esteja relacionada
ainda à ingenuidade do jovem escritor diante da
facilidade de se publicar, que comentamos anteriormente.
Por outro lado muitos jovens autores estão escrevendo
obras que, como Intradoxos, têm em vista estas questões
e que são rigorosamente elaboradas. Mas, ainda que
Intradoxos ou meu livro anterior tenham sido escritos
por alguém que pertença cronologicamente a geração “00”,
“pós-00” ou como se escolha chamar, não vejo semelhança
com a obra dos meus contemporâneos, da mesma forma que
pouco vejo de semelhança entre eles. Não se trata aqui,
como você citou, de estar de acordo ou não com tal ou
tal projeto estético. Eu acredito na obra enquanto
diálogo e um diálogo é uma questão afetiva e não uma
obrigação. O importante é que, caso esse diálogo
aconteça, caso uma obra o cative em sua singularidade de
leitor, esta obra seja a mais “elaborada” possível, para
que o diálogo então possa ser profundo, incisivo e
transformador.
Inevitavelmente, chegamos à Confraria – que te
tornou conhecido (pelo menos para mim). Eu sei que você
já contou essa história algumas vezes mas eu gostaria de
indagar, ainda, sobre alguns pontos. Primeiramente, por
que criar mais uma revista eletrônica com grande ênfase
em literatura? Você frisa bastante que a Confraria tem
uma ambição além das letras, que é o pensamento – mas
será que os seus leitores captam essa sutileza? Eu
admiro o esforço de vocês, de comportar, num mesmo
espaço, propostas antagônicas. Então queria resumir tudo
numa pergunta: como vem insistindo Barack Obama, na sua
campanha pela presidência dos Estados Unidos, será que a
humanidade finalmente chegou à compreensão de que
alcançaremos mais e melhores resultados pela superação
das nossas diferenças? Ao rejeitar “linhas”, grupos e
mesmo “panelas”, vocês, na Confraria, anteciparam essa
tendência?
Nunca pensamos dessa forma, que estávamos criando uma
outra revista eletrônica de literatura, nem que essa
devesse ter um diferencial. Nosso interesse era outro,
era enfrentar a academia e a maneira pela qual ela
sempre se fez ver. Lutávamos contra o pensamento
vernacular, guardado em formas viciadas, formatado para
especialistas e direcionado a uma elite intelectual –
queríamos provar que o pensamento pudesse ser lúdico e
libertário. O objetivo era levar a literatura ao espaço
“público”, tirá-la do “gueto” – isto é, a academia e o
ambiente dos escritores. Não só isso, queríamos que a
revista fosse um panorama atualizado do que estava sendo
produzido naquele instante e que pudesse ter um acesso
irrestrito e gratuito. Nesse sentido, a internet
oferecia um grande potencial democratizador e foi, de
fato, uma das responsáveis pelo sucesso da revista.
Então, por ser sincera, nossa proposta acabava tendo um
diferencial. Atrelado a isso, tínhamos a crença de que
pensar a literatura (e é isso que chamo de pensamento)
era pensar a si mesmo enquanto produtor deste fenômeno
tão intrigante. Então, o que a Confraria queria oferecer
não era somente o poema ou o conto ou a tradução, nem
mesmo uma crítica sobre estes, mas o que tem se pensado
a respeito, fosse qual fosse a tendência. E muitos
leitores têm captado essa sutileza, alguns de imediato,
outros sem nunca perceber. Já ouvi várias vezes alguém
comentar “a confraria mudou minha percepção das coisas”,
mas também já ouvi: “aquele texto que vocês publicaram
mudou minha percepção das coisas”, e para nós quer dizer
o mesmo. Eu acredito, humildemente, que a proposta da
Confraria antecipa uma tendência ainda mais ousada, do
que a da simples superação das diferenças, que você
citou. O projeto americano sempre foi de fato em prol
dessa tal superação. Não é algo novo – vem desde o
humanismo, passando pela proposta iluminista, que é a
base do pensamento democrático deles. Há uma motivação
positiva – e gosto de acreditar que é nessa instância
que Obama trabalha – mas sua realização, agente de uma
lógica de assimilação das diferenças – no sentido de que
há um movimento em torná-las identitárias,
assimilando-as ao projeto dominante – sempre resultou em
discursos trágicos e belissistas. Pois superar as
diferenças, na prática, é tornar as diferenças
irrelevantes. A Confraria parte, ao contrário, da idéia
de que é preciso eliminar a intolerância à diferença.
Aceitar as diferenças enquanto diferenças, sem que para
isso, uma diferença anule a outra. Esse segundo
movimento encontra respaldo na própria complementaridade
da física moderna, a qual, para não enlouquecer diante
da indeterminação das partículas, aceita que informações
excludentes entre si sejam concomitantemente
verdadeiras, sendo o confronto destas a única forma
possível de descrever o objeto observado. Obviamente
essa posição ideológica resulta numa busca pelo espaço
do debate real, que não privilegia esta ou aquela
tendência. Todas são igualmente belas em sua essência,
concordemos com ela ou não. A Confraria já publicou
autores de todas as vertentes literárias e teóricas que
se encontram hoje no Brasil – de Augusto de Campos à
Emmanuel Carneiro Leão, dos concretos à poesia marginal.
O leitor sente isso, sente essa sinceridade, sabe que
não estamos ali para defender a literatura enquanto
discurso. As panelas são formas ainda muito atrasadas de
se pensar e um dos grandes responsáveis pelo atraso do
Brasil em termos culturais – ainda muito atrelada aos
ideais modernistas, às fundamentações mais básicas de um
nacionalismo nascente. Ora, qualquer partido que assuma
o poder político e queira privilegiar somente o seu
grupo só vai promover uma política cultural trágica,
fadada à elitização brutal e violenta. Quem promove
panelas, entende o poder de modo ingênuo, como forma de
privilégio e não como oportunidade de desenvolvimento
coletivo.
Gostei da edição em livro, do primeiro biênio,
e, de fato, fica mais prático, em termos de leitura –
até para se dar conta do que a Confraria andou
produzindo de mais significativo desde 2005. Como foi o
feedback em relação ao volume? Você acha que a
apreciação do trabalho de vocês mudou de nível depois
disso? Nós discutimos isso nos Encontros de
Interrogação, mas queria saber se você acha que a
internet e o papel vão ser sempre complementares nesse
sentido – a primeira fornecendo um alcance quase
infinito e o segundo fornecendo credibilidade (e até
substância)? Eu pergunto muito isso aqui – mas quis
repetir a pergunta com você, porque, nos Encontros, você
fez questão de não se colocar de nenhum dos lados. Mas
não com aquela postura em cima do muro, de quem não
sabe, ou de quem “ouviu falar” – e, sim, com argumentos,
com experiência e com pontos de vista de quem pensou no
assunto. É por aí?
Em termos editoriais, cada meio oferece suas vantagens e
desvantagens. O importante é saber explorá-los o melhor
possível no que oferecem. Se puderem ser conciliados
então, não vejo porque não o fazer. O fato de a
Confraria ter insistido, nos dois primeiros anos, em ser
uma revista unicamente eletrônica, tinha um fator
político. Isso a ajudou a ser conhecida no Brasil e no
exterior, entre o publico acadêmico e o publico “leigo”
e assim driblamos os problemas de distribuição, de custo
e de falta de interesse da mídia especializada. Nosso
objetivo nunca foi vender revistas, por isso, quando
fizemos a versão impressa, queríamos que fosse
retrospectiva, que todos os textos já estivessem
disponíveis na versão eletrônica. Naturalmente, a versão
impressa, trouxe um atestado de seriedade maior para a
Confraria, pois ainda existe muito preconceito contra a
mídia eletrônica no Brasil. Na Europa e nos EUA, esse
preconceito já foi superado e existem muitas publicações
respeitadas na rede. Em Portugal, a Confraria adquiriu
um destaque interessante e atrai a atenção dos
portugueses pela literatura brasileira. Mas no Brasil
ainda se busca a publicação impressa como “legitimação”
e não acho que seja apenas uma questão da facilidade de
leitura, mas a própria forma de como pensamos a
propriedade. Creio que por aqui não simpatizemos muito
com a “propriedade” abstrata, aquela que não se enquadra
nem na idéia do bem privado, nem público. O sistema de
leasing para automóveis, por exemplo, é algo que não
emplacou no Brasil devido a essa aversão por aquilo que
não possamos resguardar. Isso é muito forte nos países
que tiveram um mercantilismo acentuado, cuja origem da
economia está baseada quase exclusivamente na expansão
territorial e no acúmulo de bens físicos. Já a internet
foi pensada por nações que confluem a origem da
abstração moderna. Por conta desses fatores, apesar de
menos lida que a versão eletrônica, a revista impressa
mexe com a fantasia tátil dos leitores brasileiros e tem
tido melhor retorno da mídia e dos intelectuais, que
finalmente “reconheceram” o seu valor, sem o habitual
lob do “quem indica”. Naturalmente, algumas portas se
abriram à revista e tenho ouvido elogios de todo lado,
de intelectuais do Brasil e do exterior. Eduardo
Portella chegou a dizer em sua turma de doutorado, que a
Confraria é uma das publicações mais importantes dos
últimos tempos, e um jovem poeta de Santos, O Marcelo
Ariel, declarou em seu blog, que a Confraria “é um
pequeno milagre maior do que a Bossa Nova, porque encara
o silêncio árido de trezentos desertos culturais”.
Declarações como essas, para mim, são mais significantes
que uma grande resenha no Globo.
E a editora, como está indo? Acho que ela
reforça essa sua posição, afinal, depois do site, vocês
ainda resolveram editar livros, fundando a Confraria do
Vento. Como está sendo a convivência entre os dois
mundos? São mundos complementares (de novo)? O livro
eletrônico (através de aparelhos como o Kindle, da
Amazon) pode, um dia, juntar esses dois mundos – ou, por
enquanto, ainda é uma quimera? Um dos principais
problemas das jovens editoras é a falta de distribuição
e, por conseqüência, de projeção e de vendas – como
vocês estão contornando isso? A questão da
sustentabilidade da editora, como empresa, incomoda
vocês, ou o objetivo da Confraria do Vento é mais o de
colocar as obras na rua? Parece contraditório e parece
repetitivo, mas a grande preocupação minha é entender
como as novas empreitadas editoriais vão se desenvolver
e, portanto, viabilizar novos caminhos para a nossa
cultura...
Estamos descobrindo que é realmente difícil e complicado
levar adiante uma editora no Brasil. Não só por conta
das dificuldades financeiras, mas pela própria má
vontade das distribuidoras e livrarias. Em parte, os
preços elevados de um livro no Brasil se devem às
livrarias que cobram de 40 a 50% do valor de capa do
livro. Tem livrarias, como a Saraiva, que cobram
absurdos, 55%. Isso para uma editora, pequena ou grande,
é cruel, pois a livraria, sem pagar o autor, a tradução,
a revisão, a editoração, o designer e a impressão, tira
limpinho, metade do valor do livro. A editora então tem
que jogar o valor lá em cima para tirar um lucro mínimo.
Isso para mim é o reflexo de um país cada vez mais
elitizado em relação à leitura. É só olhar para as
livrarias e ver que se tornaram verdadeiras butiques com
cafés charmosos. As distribuidoras, por sua vez, se
recusam a trabalhar com pequenas editoras e quando o
fazem, chegam a pedir 65% sobre o valor de capa do livro
– um absurdo! Mas, independente disso, a Confraria do
vento vai, aos poucos, avançando e ganhando espaço. Ano
passado, primeiro ano da editora, lançamos oito livros.
Até março temos mais quatro previstos. Temos nossos
projetos pessoais de antologia das poesias
contemporâneas de países como Cabo Verde, Finlândia,
Inglaterra, Argentina e Chile, além de ensaios sobre
arte e filosofia. Os livros estão bem distribuídos no
Rio e agora começam a ser levados para toda região
sudeste e sul e alguns lugares do Nordeste. Então acho
que até cobrir o Brasil inteiro é questão de tempo. A
idéia é sim de que os livros possam sustentar a editora,
mas isso ainda parece distante, então, por enquanto,
vamos tentando expandir nosso catálogo e alcance, nunca
abrindo mão da qualidade e de um controle rigoroso do
que publicamos. Quanto à superação do papel, acho uma
pergunta um tanto sem resposta, não porque não se possa
prever o seu fim, mas porque não acredito na
essencialidade de nenhuma tecnologia. O papel um dia vai
ser superado, claro, se não daqui a cinco, daqui a
10.000 anos, como um dia o computador vai ser superado.
“Superação” talvez seja uma palavra que já denote nossa
dependência fundamental a esses meios, então, creio que
eles só possam ser “superados” quando já não fizer
diferença para nós que um livro esteja sendo lido na
tela ou no papel – independente da implicação que isso
trará ou tenha trazido em termos sócio-políticos. Uma
coisa que me atrai, contudo, em curto prazo, é a idéia
de que a popularização do e-book aumente a pirataria
literária, o que eu, enquanto anarquista intelectual,
vejo como possibilidade de democratização da literatura.
As editoras e as livrarias, como as lojas de disco,
teriam que se repensar para não falir e aí, talvez, se
interessassem por livros singulares, editoras menores e
autores estreantes.
Essa discussão me leva a um dos seus temas
preferidos, que é aquele papo de que o racionalismo pesa
sobre a tradição ocidental. O Nietzsche foi um dos que
mais criticou essa influência racional, apolínea, do
“logos”, desde Platão e Eurípedes. Segundo ele, foram
séculos de carência do dionisíaco, do mundo “sensível”,
afastando o homem da natureza e das suas origens. Não
sei se é essa, exatamente, a sua teoria, mas confesso
que andei pensando a respeito depois que conversamos.
Outro dia, em outra conversa, uma pessoa me falava que o
Ocidente hoje caminha para o enriquecimento do “ser” – e
que o Oriente, que sempre caminhou nessa direção, agora
caminha, digamos assim, na direção contrária, na direção
do “ter”, das conquistas, do lado material. Você acha,
também, que é um choque de civilizações? E se for, onde
vamos parar (quem vence)? Para mim, estamos eternamente
oscilando entre uma coisa e outra. Será uma solução?
Há um movimento na história do pensamento ocidental que
é inegável: a fundamentação da metafísica. Esse caminho
dicotômico e determinista que, na modernidade, fundou as
delimitações entre sujeito e objeto, é exclusividade
nosso. Graças a ele conseguimos desenvolver um
pensamento analítico e uma ciência mais rigorosa, mas
por outro lado – e justamente por isso – fomos
gradualmente abrindo mão de muitas coisas importantes em
nossa maneira de enxergar o mundo. A perda mais grave é
certamente a da perspectiva do desconhecido, que em
certo nível pode ser comparado à aversão ao outro –
ambos, o desconhecido e o outro são entidades que fogem
ao nosso controle. Ora, “ser” foge igualmente ao nosso
controle. Não podemos dominar ou compreender sua
dinâmica plenamente, isso porque, apesar de sermos nós
aqueles que “somos”, é o “ser” que nos determina
“entes”, não o contrário – basta lembrar que ninguém
escolhe onde, como, quando e porque nascer. Já os
orientais – isto é, os povos não ocidentais, mesmo
ocidentalizados –, incluindo as culturas que
desenvolveram certo pensamento científico, sempre
lidaram com esse movimento do desconhecido, simplesmente
porque admitem dinâmicas que não podem determinar ou
dominar. Isto parece uma generalização, mas não é: o que
descrevo não é o oriente, mas uma característica
exclusivamente do ocidente. Não se trata, como você
propôs, de uma oscilação. Se pegarmos a história,
veremos que a metafísica da causalidade é um movimento
único, com pouco mais de 2500 anos de idade e diz
respeito somente à nós. O próprio Nietzsche, quando fala
das pulsões apolíneo-dionisíacas está restrito ao âmbito
do pensamento europeu. O apolíneo não se refere
exatamente ao que estamos falando aqui, pois ele dá
conta apenas de certo aspecto do real – por vezes,
vinculado à racionalidade. E um pensamento poético não
exclui uma racionalidade. Toda racionalidade é por si só
poética, e ambas são, naturalmente, indesconciliáveis. O
que o ocidente fez foi deter-se somente na faceta
racional do poético, fundando categorias muito
específicas e limitadoras de enquadramento da realidade.
Nesse sentido, acho interessante a teoria do seu amigo.
Nunca tinha pensado a respeito disso, mas acho possível
que os papéis estejam se invertendo, porque no século
XX, com Planck, Einstein, Bohr e todas aquelas
revoluções da física, o ocidente deu uma guinada,
enlouquecendo não só a epistemologia como a forma
determinística com que se pensava o mundo e isso logo se
disseminou na filosofia. O que se mostra hoje é a
própria indefinição das teorias científicas, abrindo
espaço para algo que não atentávamos: o indeterminado
entre o que achamos conhecer – o desconhecido. Talvez
estejamos realmente nos aproximando de uma preocupação
com enriquecimento do “ser”, pois nos damos conta da
limitação das instituições e das estruturas, apesar
disso tudo ainda estar distante da nossa vida cotidiana
(um celular, por exemplo, apesar de produzido com os
conhecimentos adquiridos pela física das partículas, é
consumido segundo os ditames do pensamento clássico –
naturalmente me refiro à lógica do mercado, que é
herança metafísica). Já os orientais assimilaram muito
rapidamente e de forma brutal, tudo que o ocidente levou
dois mil anos para fundamentar. Vejo nesse movimento a
forma encontrada por eles de não ficar para trás, como o
índio que, para sobreviver ao homem branco, precisa
aderir às armas de fogo. Mas não creio que eles tenham
assimilado isso de forma tão inocente. Há uma linha de
pensadores chineses e japoneses que vêm se utilizando
das estruturas da academia ocidental justamente para
fundamentar seu pensamento milenar e propor dimensões
outras para o caminho do pensamento no mundo – mostrando
como o próprio pensamento deles, pode “solucionar” os
problemas filosóficos do ocidente. E esses pensadores,
mais e mais, começam a ser considerados, ainda que para
isso seja necessário que seus países cresçam enquanto
potências econômicas.
Ainda no campo das suas teorias, tem aquela
também do “fim da poesia”. Segundo o seu raciocínio, no
sistema capitalista existe cada vez menos lugar para a
poesia, então, um dia, ela vai ser finalmente banida e
vai deixar de existir. (Você me desculpe se eu estiver
simplificando demais...) Eu contra-argumentei
pessoalmente dizendo que a poesia existe
independentemente do sistema econômico – afinal, a meu
ver, os verdadeiros poetas não seguem as mesmas
premissas do mercado para construir suas obras. Mas,
junto com outras pessoas, eu e você não conseguimos
chegar a uma conclusão. No livro da Confraria, o Manoel
de Barros habilmente diz que “se o nada desaparecer, a
poesia acaba”. Ou seja: no meu entender, ele está
dizendo que a poesia não precisa de nada para existir –
quanto mais capitalismo, mercado, cenários econômicos
etc. Márcio, se você é tão convicto, o que podemos fazer
para salvar a poesia?
Olha, quando falei de fim da poesia, estava falando da
poesia enquanto discurso, enquanto “forma” estabelecida
e consagrada dentro da tradição. Obviamente, o poético,
isto é, aquilo que é inerente e fundamental ao homem ao
perfazer-se homem, nunca deixará de existir, até porque
para o poético deixar de existir o homem precisa também
deixar de existir. É por esse caminho que Manoel de
Barros percorre – o nada, para ele, é essa “inutileza”
fundamental, que, anterior a qualquer instituição,
institui o homem em sua instância poética. Este nada,
tão niilizado pelo caminho do que você chamou do “ter”,
é gerador e pleno de possibilidades criativas. Mas
quando falo do fim da poesia, eu me detenho em um
recorte unicamente literário do poético. Acredito no seu
fim, pois esta exige, e sempre exigiu, uma contemplação,
uma paciência, uma auto-reclusão cada vez mais difícil
de ser encontrada na modernidade capitalista. E à medida
que ela deixa de ser interessante ao mercado – visto que
trabalha exatamente com esses espaços da diferença e da
paciência, enquanto o mercado detém-se na planificação e
na velocidade – ela se torna cada vez menos veiculada –
como um ônibus que deixa de passar por uma cidade do
interior por falta de passageiros suficientes, ainda que
haja dois ou três que dependam dele. O poeta
contemporâneo é outro grande responsável por sua
extinção, cada vez mais afastado das questões éticas
fundamentais na poética, e preocupado somente em
promover sua escrita e ficar bem diante das
instituições. Se pensarmos no papel dos poetas, desde a
poesia pré-islâmica aos modernos poetas chineses, que
com seus versos confrontavam qualquer autoridade
estabelecida, esse nosso poeta do séc. XXI, preocupado
em adular as instituições, em ampliar o círculo de
relacionamentos, em vender uma imagem de “artista”, me
soa um tanto patético – obviamente, não estou defendendo
uma poesia engajada politicamente, mas uma poesia
engajada nas questões éticas fundamentais do humano. E
esse problema não é só do Brasil. Em todo o mundo, com
raríssimas exceções, a poesia tem enfrentado o mesmo
processo de “extinção”. Infelizmente, as soluções aos
quais se tem recorrido para “salvar” a poesia é a de
adequá-la ao jogo do mercado e não o contrário – no que
ela perde o que tem de fundamental. O mais curioso é
que, mesmo o produto desta “aproximação forçada” com o
sistema, não resulta numa popularização da poesia e nem
ajuda o “processo de extinção” a ser revertido. Veja
bem, eu falo isso, sendo eu mesmo um entusiasta da
poesia, eu mesmo tendo fundado uma editora para publicar
poetas, eu mesmo tendo interesse em achar uma solução
para essa extinção, ainda que eu só entreveja a solução
dentro de uma mudança radical na maneira de pensar a
poesia e a realidade. Então creio que eu, você e o
Manoel de Barros, estejamos do mesmo lado, dizendo a
mesma coisa, procurando esse nada fundamental para que o
mundo se refaça a partir do vazio. Obviamente, mesmo que
a poesia, enquanto recorte literário tradicional, não
dure, haverá muitas outras formas, como a poesia sonora
ou a poesia digital, mais condizentes com o sistema onde
vivemos, que se sobreponham, de maneira tão profunda
quanto o é a poesia que conhecemos.
Aliás, como você vê esse lance de MLU
(Movimento Literatura Urgente)? Não precisamos ser tão
radicais quanto Platão – que efetivamente baniu os
poetas da sua República – mas você acha que os
escritores brasileiros têm de receber bolsa-família ou
coisas do tipo? Imagine os milhares de blogueiros que
hoje escrevinham – eles entrariam também na fila do MLU?
E se não custa nada para abrir um blog, o Governo não
poderia acabar falindo com tanto subsídio aos escribas?
Agora, sério: você que, de alguma forma, enxerga uma
relação causal entre poesia e mercado, acredita,
igualmente, que sustentar escritores com dinheiro
público pode trazer algum benefício para a literatura?
Eu pergunto tudo isso porque vejo você e seus colegas da
Confraria e da Confraria do Vento se virando em uma
porção de iniciativas – e eu acho que o caminho é mais
por aí (e não o caminho da esmola governamental)...
Eu sou sim a favor de que haja bolsas para escritores,
isso para mim é conclusivo. E não vejo tais bolsas como
pertencente à mesma categoria da Bolsa família, que tem
um caráter emergencial e paliativo, enquanto a bolsa
para escritores é fundamental para qualquer país que
queira fundar uma literatura séria e de qualidade.
Países como Irlanda, Alemanha e França, que nem sequer
possuem problemas de analfabetismo, destinam subsídios
aos seus escritores e é graças a elas e a uma forte
tradição de leitura que estes são potências literárias.
É importante lembrar, entretanto, que tais bolsas só
farão diferença se acompanhadas de duas coisas: 1) a
erradicação do analfabetismo, seguida do aumento
gradativo da qualidade da educação e de uma política de
leitura não somente voltada para o mercado (coisas que
não existem hoje no Brasil), caso contrário, as bolsas
não têm sentido –, e 2) um critério sério e rigoroso de
seleção, cuidando para que essas bolsas não se tornem
mais uma forma de privilégio particular. E esse tem sido
o problema mais grave. Temos visto casos recentes de
bolsas e prêmios que resultaram em desculpa para que os
membros do júri presenteassem os amigos, criando uma
circulação viciosa de tais bolsas. Existem prêmios, como
o da Biblioteca Nacional, que nem se encontra o edital.
Além, claro, dos projetos estapafúrdios, com critérios
estranhos, desenvolvidos pela nova profissão dos
produtores profissionais. E com isso não estou querendo
acusar um ou outro, até porque a coisa se tornou
generalizada, um problema endêmico que nem aqueles que
se beneficiam talvez percebam o quanto isso é
prejudicial. Mas é aí que se perde o sentido de tais
bolsas, destinadas a uma elite intelectual, pouco
preocupada com que esse dinheiro retorne, ainda que em
valores éticos, para o contribuinte. Apesar disso, não
consigo deixar de ressaltar a importância desses
subsídios e vejo, esses que estão surgindo, como
demonstração de boa vontade do governo. Pois, ainda que
o Brasil fosse, como os EUA, “auto-suficiente” em termos
literários, ainda assim, sem as bolsas, teríamos o risco
de uma cultura cada vez mais homogênea e subserviente ao
mercado. Mesmo dentro do sistema capitalista é preciso
ter alternativas a este – a literatura, especificamente
a literatura de qualidade, não tem como sobreviver com
concorrentes tão poderosos.
E os leitores? Você tem esperança? Lá em
Buenos Aires o Joca Reiners Terron retomou aquele
argumento dele – da Curitiba Literária –, de que o
leitor brasileiro tem de ser reconhecido de alguma
forma, de que devemos instituir prêmios para nossos
escassos leitores... Como é a sua relação com eles? Você
se sente compreendido? Ou tem as mesmas reclamações do
Joca (de falta de leitura)? Será que a nossa época é –
mesmo – a de um monte de gente falando e pouca gente
escutando? Como vamos solucionar isso? Com mais barulho?
Como melhores editores/críticos/filtros? Você se
incomoda com a oferta crescente de conteúdo? As editoras
(novas ou velhas) publicam cada vez mais – o que é bom
para os autores –, mas será que isso é bom para os
leitores? Falando em ciclos, novamente: será que, em
algum momento, vamos ter de rever essa explosão?
Sim, é no leitor onde mais entrevejo esperança. O
problema é que se confunde o leitor com uma noção
estranha e mal formulada de público leitor. Eu não me
interesso por essa categoria abstrata. Eu me interesso é
por aquela pessoa que toma contato com o meu livro e, de
alguma forma, nos aproximamos. Meus livros são sempre um
diálogo, nunca um monólogo. Não me sinto incompreendido
nem distante dos leitores, por pouquíssimos e invisíveis
que possam ser – dos escritores talvez sim, por tantos e
tão visíveis que sejam. A falta de leitura é sempre
relativa e vejo muita gente reclamando de barriga cheia.
Também não vejo vantagens nem desvantagens em premiar
leitores – acredito mesmo é no básico: educação de
qualidade, nada mais. Educação de qualidade quer dizer:
possibilitar o auto-conhecimento e a auto-realização. É
aí que o escritor entra, como um aprofundador radical
desse caminho “espiritual” do leitor – cada livro é
senão uma janela para si mesmo – um professor às
avessas, que desensina. Não é, portanto, o leitor que
tem responsabilidades com o escritor, e sim o contrário.
E aí, talvez tenhamos que inverter a sua pergunta – a
questão é: será que o escritor está afinal preparado
para o leitor? Será que o que ele escreve dá conta da
responsabilidade, a que se refere Hölderlin, de
intermediar homens e deuses? Será que as palavras por
ele escolhidas podem tirar o leitor de seu espaço
luminoso e, como um pai severo, obrigá-lo aos caminhos
por vezes escuros, para chegar do outro lado alguém
melhor? Acho que o escritor deveria pensar um pouco
nessas coisas, se o que o interessa de fato é o leitor e
não ele mesmo. Não cabe exigir do leitor atenção, seja
qual for a resposta a esse questionamento. Não quero
dizer com isso que o escritor não precise ser
reconhecido ou que ele deva adequar sua escrita ao
público, mas sim que o reconhecimento precisa vir pelo
diálogo. Pode até parecer prepotência, mas a verdade é
que não penso muito nisso, nesse público leitor, apesar
de sempre me preocupar com quais rumos meus livros estão
tomando. O meu último livro, Intradoxos, teve certo
reconhecimento, menos do que acho que o livro merece,
mas bem mais do que esperava. Muitos elogios, algumas
resenhas e até um ensaio acadêmico, mas as vendas não
foram algo extraordinário – o que já esperava, pelo fato
de ser poesia, de ser um livro pouco convencional e ter
uma distribuição limitada ao eixo Rio-São Paulo. Mas
estou contente com tudo o que tem acontecido a ele,
levando em consideração que foi lançado há menos de um
ano: já teve partes traduzidas para o finlandês, o
francês e o inglês, e em breve ganhará uma tradução
integral no Reino Unido. Além do fato de que está agora
sendo adaptado para o cinema pela Paula Gaitan, que é
uma grande cineasta e pensadora das imagens. Sobretudo,
a Paula é também uma grande leitora, e foi isso que nos
aproximou. Acho que as coisas vão andando porque têm que
andar e, quando perceber, mais pessoas estarão lendo meu
livro.
Você é jovem mas eu acho que já tem uma
experiência valiosa. O que diria para o jovem autor –
que quer se desenvolver – e que está te lendo agora? Ele
deve te mandar seus originais? (Ou você, como tantos
outros editores, não quer nem ouvir falar de originais?)
O que você mudaria na sua trajetória até agora (se é que
mudaria alguma coisa...)? O caminho é esse mesmo:
internet e, depois, livro? Voltando àquela pergunta, o
quanto se deve ler antes de publicar? Ou deve haver
algum Rimbaud por aí – que não precisa de nada disso? A
faculdade de letras valeu a pena para você se tornar
escritor/editor? Ou, se pudesse, você faria outra?
Acredita, como o Carpinejar, que faltam cursos
específicos para escritores no Brasil (e por isso ele
montou o seu)? Enfim, quais são os seus conselhos para
essa horda de escrevinhadores se debatendo para
subsistir?
Eu diria para não encarar a poesia como um dom
individual, mas como um dom humano que se alcança
através da autocontemplação. Antes de mandar os
originais para qualquer editora, é preciso ler muito,
escrever muito e refletir muito sobre si mesmo e sobre
sua escrita. É um caminho cansativo, exige dedicação,
envolve desapego da imagem já pré-formulada do escritor
e questionamentos profundos que dizem respeito até mesmo
à compreensão do seu papel no mundo. A chegada é vizinha
da loucura. É preciso sair da própria razão para
encontrar a razão absoluta – a sabedoria do louco, pois
talvez só os loucos tenham direito a escrever poesia.
Essa travessia guarda um segredo profundo, conhecido
somente por aquele que o atravessa. E aí, superada, não
importa idade, não importa título, não importa curso de
escrita – ainda que cada uma dessas coisas só venha a
acrescentar. Todo o resto – editora, livros publicados,
oportunidades e leitores – virá como decorrência natural
desta caminhada e já não fará tanta diferença, pois
antes de ser um ofício de subsistência ou de realização,
ele será um ofício do humano. Talvez tudo isso seja um
pouco romântico, mas é assim que vejo.
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