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Entrevista
a Cláudio Soares
Site
www.pontolit.com.br
Abril de 2008
Márcio-André, assim, com hífen mesmo, é um poeta do seu
tempo, logo, é múltiplo. O mesmo sinal diacrítico que
lhe assegura uma composição ao nome, antecipa uma
ligação entre extremos: o poeta que é o editor que é o
pensador de sua arte.
Márcio-André, um self-made poet, também é editor
fundador da revista de arte e literatura Confraria,
co-produção da editora Confraria do Vento e Departamento
de Pós-graduação em Ciências da Literatura da UFRJ.
O poeta, leitor voraz de Cummings, Guennády Aigui, Lope
de Vega, Ariosto e Al Mutanabbi, pela leitura (e
imaginação) os realiza.
O poeta imagina e realiza sua obra através de multimeios
e de uma interdisciplinaridade consciente e sinérgica.
Afirma, que Intradoxos, livro de poemas lançado em 2007,
pela editora Confraria do Vento, na verdade, nem foi
escrito por ele, mas por António de Torquemada, no
longínquo ano de 1565. Márcio-André “desvenda” cada um
de seus livros (assim como cada leitor) e se considera
um mensageiro, nunca um autor. E não admite que
Intradoxos receba o rótulo de um livro “experimental” já
que a própria realidade (mutante) é uma constante
experimentação de si mesma.
Essa realidade, acachapante, quase uma super-realidade,
que invade a poética, a ficção - o desafio dos artistas
do nosso tempo -, seria a experimentação ou realização
formal da “morte do autor” antecipada por Roland
Barthes? Ou ainda da arte, como sugeriu Martin
Heidegger, lembrado por Maurice Blanchot no clássico O
Livro por vir (Editora Martins Fontes, 2005)?
Não penso que as respostas seriam tão fáceis, mas as
causas em Literatura, assim como em História, precisam
ser sempre buscadas, nunca postuladas. E Márcio-André,
nesta entrevista, vai diretamente nas causas. — C. S.
Soares
*
Quais as principais referências literárias do poeta
Márcio-André?
Talvez todo meu repertório
particular de leituras efetivas e possíveis – dos livros
que gostei aos que não gostei, dos livros que li aos que
não li e imagino como sejam. Alguns autores em especial:
dos que gosto: de certo Cummings, Guennády Aigui, Lope
de Vega, Roberto Juarroz, Qu Yuan, Ton Berrigan,
Ariosto, Gonçalo Eanes do Vinhal, Al Mutanabbi, Avraham
Halfi, Tzvetaieva e outros. Dos que não gosto: Guennády
Aigui e todos os franceses que não sejam Saint-John
Perse e François Villon. Dos que, na impossibilidade de
ter lido, imagino: Sousândrade, Guennády Aigui, Gertrude
Stein, Huidobro, Iessiênin, Krutchônikh, Yoshimasu. Mas
minhas referências literárias também podem ser musicais,
cênicas, cinematográficas, e até habitacionais – há
casas que me inspiram como livros. Entre os autores que
não escrevem, destaco: Nina Simoni, Varèse, Taizi Harada,
John Tavener, Fred Frith, Iva Bittová, Cage, Linch e
Niemeyer.
Fale-nos sobre Intradoxos.
Olha, consigo falar muito pouco.
Isso porque Intradoxos é um surto maior que eu mesmo e
não tenho controle sobre ele. Na verdade, nem foi
escrito por mim. Foi escrito por António de Torquemada
em 1565, mas ele mesmo se encarregou de queimar o
manuscrito, antes de sua morte e antes que fosse
publicado. Até que em 2007, o livro imprimiu-se a si
mesmo, numa gráfica no subúrbio do Rio. Por coincidência
eu estava lá nessa hora, cuidando da produção de um
livro da Confraria do Vento e, depois que os impressores
desistiram de tentar entender o que havia acontecido com
as máquinas, recolhi o exemplar e mais tarde publiquei
com o meu nome. É a primeira vez que revelo isso. Até
porque, pouco importa quem o escreveu, pouco importa
qual nome está estampado na capa – todo livro se escreve
a partir de si mesmo, se produz pelo sopro de cada sonho
no épico do humano. Estou desvendando o livro assim como
cada leitor (é aí que está o diálogo: em ser mensageiro,
nunca autor). Sei, entretanto, que Intradoxos não é um
livro “experimental”, como afirmaram alguns críticos –
nada pode ser experimental numa realidade mutante, que
está em constante experimentação de si mesma. Também não
é um livro de poemas – sobretudo não é um livro de
poemas soltos. Intradoxos é um des-concerto: partitura
da anticriação, aquela que começa pelo engenho e termina
na pedra, que começa na palavra e termina na palavra: o
talmud das máquinas. Cosmogênese inversa: propõe a
anticivilização no entreato do mundo – onde o Princípio
está em tudo: na água, nos carros, nas latas de
refrigerantes, nos aceleradores de partícula, na morte e
nos pensamentos em vão. É uma pedra-chave, cujo segredo
permite acesso ao código-fonte do real – não sendo assim
mais que um oráculo do ordinário, que só profetiza o que
já aconteceu e se revela no movimento errático dos cães.
E o que representa a Confraria do Vento em sua
multidiversidade? Fale-nos da revista e da editora.
A revista Confraria é apenas um projeto que tem dado
certo, nada demais. Revela mais uma carência de
propostas editoriais maduras (não de revistas) no
Brasil, do que algum talento nosso enquanto editores.
Se, em algum momento, acertamos na revista, é porque
antes de tudo já tínhamos um postura ética frente à
literatura. Nosso interesse sempre foi o texto, nunca os
autores. A função do autor é produzir textos, não o
contrário. Colocar o autor acima do texto é fazê-lo
desviar de seu caminho, é submeter a Obra aos caprichos
do individuo. Por isso, quando a revista surgiu, nos
recusávamos a aceitar qualquer mapeamento político da
literatura: hierarquias, grupos, rixas e subdivisões –
entendíamos que o texto prescinda de qualquer
posicionamento, caso contrário, este não seria um texto
que nos interessaria. Queríamos as idéias, não
ideologias.
Lembro que muitas são as publicações literárias na rede,
e todas admiráveis, antes de tudo porque, a quase
totalidade delas não possui financiamento ou incentivo
externo – existem porque os editores são apaixonados e
acreditam que a literatura compensa as dificuldades. E
evoco Thomas Mann em seu livro Morte em Veneza, quando
diz que quase tudo grande que existe, existe como um
“apesar”, “realizado apesar da aflição e tormento,
pobreza, abandono, fraqueza corporal, vício, paixão e
mil obstáculos”. O que sinto falta, entretanto, em
muitas dessas publicações, é esta seriedade
descontraída, este jogo rigoroso de pedras que buscamos
para a Confraria. Algumas pecam pela “frouxidão”, outras
pelo “aperto”. Então há revistas “democráticas” demais e
outras que representam apenas o gosto pessoal do editor
ou, pior, o grupo formado em torno deste. Por preguiça
ou prepotência, falta pesquisa, critério e empenho em ir
além do que chega pronto até o editor. Gosto sempre de
dizer que literatura não é o lugar para fazer o que se
gosta, mas o que se duvida. Nós da Confraria, nunca
quisemos ficar à disposição do que conhecíamos ou do que
admirávamos – queríamos ser um panorama da pluralidade,
contínuo, atualizado e em aberto: um eterno work in
progress deste fenômeno maior que passamos a chama
Literatura. Procuramos contemplar e confrontar as
diversas vertentes literárias, os diversos grupos, e
também, as diversas possibilidades, assim como aqueles
que não nunca serão vertentes ou grupo organizados.
Mas creio que o maior responsável pelo êxito da revista
seja na verdade a abertura que tentamos proporcionar ao
pensamento: a possibilidade de uma academia livre,
lúdica e para todos. E isso significava pegar a produção
acadêmica mais recente e colocá-la, editorialmente
ordenada, a disposição de todos, sem as barreiras da
falta de distribuição, custo de impressão ou jargões
acadêmicos. Uma proposta didática, sem cair no
professoral. Enquanto cidadãos, queríamos usufruir da
produção desses intelectuais sustentados pelo
contribuinte. É algo difícil de ser percebido, mas as
pessoas têm carência disso, sobretudo num país que quer
se construir enquanto nação e ainda enfrenta o obstáculo
de um analfabetismo de proporções continentais. Enfim,
será que nascemos somente para sermos campeões em
quantidade de analfabetos, em quantidade de cirurgias
plásticas realizadas, em tempo de permanência na
Internet? Estas listas deprimentes que encabeçamos pau a
pau com os países mais industrializados são sintomas de
carências profundas, onde a Internet, a busca pela
superficialidade estética, pelo corpo perfeito, supre a
falta de acesso ao conhecimento ou o acesso a um
conhecimento deturpado e opressor. O pensamento é
libertário e não uma ferramenta de poder, na mão de uma
elite decadente que subsiste nas zonas nobres. Há alguma
doença em nossa sociedade de livrarias-botequim chiques
que ansiamos profundamente em curar. E creio que
iniciativas como a Confraria tenham um pouco do
antídoto. Enfim, acho que fazemos apenas o que deveria
ser feito nesse momento, isto é: propiciar diálogo – que
é um encontro verdadeiro e profundo – entre coisas que
não se comunicavam.
De que forma a tecnologia ajuda o poeta no seu
ofício com as palavras?
Toda nova tecnologia traz novas dimensões à poesia. E às
vezes apaga outras – sem perdas e sem ressentimentos:
não esquecer que a própria escrita é uma tecnologia e
com ela o homem do ocidente perdeu, a grosso modo, a
mnemotécnica. A poesia gosta de seus novos brinquedos e
vai se encaixando neles, amaciando, significando e
sabotando. Isso porque, na verdade, é a poesia que ajuda
a tecnologia, não o contrário. É ela que conduz a
técnica à sua potência máxima e à sua própria
destruição. Um bom exemplo talvez seja a caligrafia
chinesa, os arabescos, as iluminuras medievais e a
moderna poesia assêmica que concederam à escrita ser
mais que mero suporte, perdendo seu caráter meramente
comunicativo. A poesia é ela própria espaço gerador de
toda tecnologia – origem anterior mesmo a sua
realização: no começo de todas as máquinas está o
poético – isto é: aquele sagrado primeiro, fundador da
técnica enquanto realização do humano. E é também seu
erro trágico – justamente o espaço onde as máquinas
principiam a sonhar.
Em um de seus ensaios franceses, Murilo Mendes diz que a
obra de Ezra Pound representa a passagem da escrita à
mão para a escrita à máquina. Se isso é verdade, creio
que o computador hoje possibilite a tridimensionalidade
e a fragmentariedade da escrita, sobretudo por conta da
ferramenta copiar-colar, e então, tenhamos uma
literatura impossível anteriormente, mas nem por isso
mais fácil e mais nova, como poderiam supor alguns
“deslumbrados”. Aliás, é com isso mesmo que temos que
ter cuidado: com o deslumbramento. Todo deslumbramento
corre o risco de tornar a tecnologia mais relevante que
a poesia contida nela, e, portanto, corre o risco de
torná-la estéril.
Mas a tecnologia necessariamente é esteril?
Pergunto isso porque durante muito tempo a escrita dos
programas para computadores é considerada por alguns
arte por outros técnica, dissociar desta técnica a
criatividade do ser humano que a guia, é quase
impossível. Por outro lado, no tratamento das palavras,
na sua junção para representar idéias, existe o
componente lógico quase (ou muito) semelhante à logica
do matemático ou do desenvolvedor de software (que
também trabalha sobre um léxico, guiado por sua
sintaxe). Pergunto: até que ponto o uso da ferramenta
(ou tecnologia, e aqui falo de uma maneira ampla, não
apenas de computadores) não designa o bom profissional?
Não, nenhuma tecnologia é essencialmente estéril. O
problema aparece quando a tecnologia começa a gerar-se
por ela mesma, que é um problema dessa nossa
modernidade, onde os hábitos humanos já são regulados
por um hermético sistema de produção-consumo, sem que
este possa ser acessado de fora. Isto é: o erro não está
em produzir e consumir – isto sempre foi do caráter
humano – mas em fazermos disto um sistema no qual nos
alienamos, nos tornando alheios à coisa
produzida/consumida e onde nos deixamos ser utilizados
como força motriz para esse sistema movimentar-se a si
mesmo. Da mesma forma se comporta a tecnologia,
condicionada a realidade na qual está inserida. Ela é
sim fruto da criatividade humana, mas somente este
aspecto não a exime de ser estéril. Um erro comum,
aliás, é confundir criatividade com poética. A
criatividade talvez seja o aspecto mais evidente do
poético, mas nem de longe é o mais determinante. Da
mesma forma, literatura é muito mais que uma técnica de
junção de palavras. Ora, a sintaxe é também uma
tecnologia e pode se movimentar sozinha. O fato portanto
de se articular enquanto sintaxe não determina uma obra
de arte. Assim, um uso mais correto ou mesmo mais
criativo pode designar um bom profissional, mas nunca um
poeta. Há, sobretudo, poetas que trabalham com o “erro”,
o que seria impensável para um profissional de qualquer
área.
Gosto do seu paralelo com a matemática, pois consegue
fazer enxergar isso de maneira mais clara. A poesia da
matemática não está ou não no fato de se trabalhar com
números, mas no fato dos números poderem sonhar para
além deles mesmos, como os faziam os pitagóricos. Estes
realizavam a poesia em sua matemática. Então, é claro, a
poesia possui sim uma racionalidade, uma técnica (não
uma lógica), mas há um algo mais que não foi levando em
consideração na sua pergunta, e que está para além da
simples “representação de idéias”, que é o aspecto
“luzente” das próprias coisas, que se encontra ainda
mais fortemente na poesia ou na obra de arte como um
todo. Entenda por “luzente” aquilo que luze diante da
condição humana. É isso que torna a literatura mais que
uma tecnologia e uma ferramenta. Este luzir está também
em toda máquina, em toda técnica, em toda feitura do
humano, pois todas surgem da angústia deste homem diante
do mundo. Mas esta luz só poderá luzir de forma evidente
se houver um esforço de fora do sistema e do automatismo
que ele gera, ainda que o germe da destruição já esteja
ali, no estômago de todo sistema. Um bom exemplo é o
artista plástico Palatinik, que utiliza o princípio da
máquina para destruir a própria máquina: destruir a
máquina é destituí-la de função – a tecnologia está
profundamente ligada ao sentido de funcionalidade, a
poesia, ao contrário, recusa ter uma função, por mais
que se atribua isso a ela. É esta recusa que permite a
libertação e a destruição da própria escrita na sua
funcionalidade de tecnologia da comunicação – eis porque
a poesia confunde mais que esclarece.
Reprogramo então sua pergunta: será que os programadores
de computador serão um dia loucos o suficientes para
criar um sistema anti-funcional e sem propósito, que
seja absurdo e não sirva para ser vendido, por exemplo?
Acho que é possível, e já vi algumas experiências nesse
sentido. O artista Mogens Jacobsen exibiu no File
Festival, em São Paulo, o TurntabilisticPC, um híbrido
de toca-discos com computador (o vinil gira sobre o hd
horizontal, onde deveria haver um monitor), que funciona
com motores graduais controlados algoritmicamente, a
partir de informações fornecidas por acessos de
internautas ao aparelho, acessível como servidor na web.
A quantidade, localização e o tempo de permanência dos
acessos determinam a direção e a velocidade de rotação
do disco, executando assim uma música aleatória. Mas são
casos ainda muito institucionais. É preciso fazer a
máquina revoltar-se contra a própria máquina em escala
global, e, pelo menos por enquanto, as máquinas são
mansas como vacas e subservientes a lógica do sistema,
tanto quanto seus operadores.
Reprogramamos sua reprogramação sobre os
programadores: creia Márcio, somos todos loucos (the
fine madness). E mais, criamos muitos sistemas (que
dependendo de quem seja o ponto de vista e do momento
“histórico”) anti-funcionais e sem propósito, um exemplo
é a própria Web, por exemplo, em seu advento. Que seja
absurdo e não sirva para ser vendido? Ora, muitos
produtos de software livre, quando comparados às suas
alternativas pagas, assim são (erroneamente, claro)
considerados… Mas vivemos um
período de experimentação. Somos uma geração de
transição. Não podemos imaginar (ou o podemos, mas muito
pouco) o que será o mundo daqui a 50 anos. Levando-se em
consideração a tridimensionalidade e a fragmentação da
escrita (e tambem da leitura) que sua sensibilidade de
artista captura (e concordo, nisso não há nada de novo),
potencializada pelo uso dos computadores e acesso à
informacao dos dias de hoje, até que ponto o “não
deslumbramento” ou a desejo de não se deslumbrar, não
poderiam ser, em si mesmas, grandes armadilhas? Somos
privilegiados por vivermos um momento tão especial da
história da humanidade ou somos amaldiçoados por essa
responsabilidade em nossas mãos de redefinir o mundo
daqui para frente? (Maior ainda a responsabilidade do
artista, esse visionário.)
É preciso estar claro o que quis dizer, anteriormente,
com deslumbramento. Eu me referia ao fato de se apostar
todas as fichas na tecnologia sem que se tenha em mente
que ela não dá conta sozinha de nossa condição. O que
criticava não era a máquina – esta é indissociável do
humano –, nem suas conseqüências na escrita, mas o
sistema autônomo onde ela subsiste como peça chave: foi
esse que criou o atual estado de euforia. Fala-se da
tecnologia como uma nova caixa de Pandora de dimensões
inimagináveis – é a era da máquina, da info-máquina, da
máquina que pensa, e por conta disso estamos deixando de
pensar por nós mesmos. Somos nós os únicos a poder
responder as nossas próprias perguntas ao inquirir o
mundo, e numa dessas perguntas surgiu a máquina. Nesse
processo, o que esquecemos é que a máquina é um
perguntar sobre um perguntar, nunca uma resposta. O
deslumbramento seria então a crença na tecnologia para
cumprir sozinha o seu e o nosso caminho, sem a
necessidade de uma ação externa que sempre a coloque em
dúvida de si mesma. Um paralelo interessante seria
talvez a imagem do deus, esta imagem poética e essencial
a toda condição humana – tomá-la por sinônimo de
Verdade, entretanto, eis aí o problema. E o que observo
é que a máquina goza hoje de um privilégio semelhante ao
do Deus da Idade Média, assumindo, na trajetória do
humanismo, este mesmo perfil inquestionável e absoluto -
e é tudo tão frágil! Mais frágil até mesmo que as
fundações de Roma. Um simples bug desconhecido, ou mesmo
um apagão, pode colocar tudo a perder. Aí, teríamos que
reaprender a sonhar por nós mesmos, e não por um sistema
que sonha todos os sonhos de consumo por nós.
Sim, não sabemos o que será daqui a 50 anos. E é por
isso que temos que nos preocupar com essas questões
desde agora – os poetas, sobretudo. O poeta é aquele que
vai lidar e trabalhar com a máquina melhor do que todos
os outros e que no fundo fundamenta todas as máquinas.
Basta lembrar que a ciência é um filho bastardo da
filosofia e a filosofia surge assim, tentando entender a
poesia. Então não há, em minha fala, uma dicotomia. Não
há privilégio ou maldição – nunca houve em nenhuma
época, nem nunca vai haver. O que há é a constante
necessidade de estarmos presentes ao presente, e é o
estado de alerta constante do poeta ao presente que
mantém o mundo em movimento.
Recentemente, aqui no Pontolit, falamos sobre
o projeto da Associação dos Poetas Americanos (existe
alguma dos poetas brasileiros?) que lança, neste mês de
Abril, o acesso por celular a uma base de mais de 2.500
poemas, biografias e ensaios. Você acha que iniciativas
como essa funcionariam no Brasil? Os americanos
comemoram também o First National Poem In Your Pocket
Day, com descontos especiais em diversas lojas para
quem, olhe só, apresentar na boca do caixa um poema. São
resoluções rápidas depois da divulgação do relatório To
Read or Not To Read: A Question of National Consequence,
a new and comprehensive analysis of reading patterns in
the United States, da National Endowment for the Arts (NEA),
que aponta o declínio da leitura na terra de Longfellow.
Acho que pequenas iniciativas como estas tendem a dar
mais certo que políticas estapafúrdias de distribuição
de livros para “movimentar” dinheiro público – e
descontos seriam ótimos num país onde livrarias ficam
com 50% do valor de capa do livro. Apesar disso, tenho
uma tendência natural a desconfiar dessas iniciativas.
Primeiro porque, ainda que ajudem a aproximar o publico
da leitura, nada substitui a clássica e já mais que
batida tecla da “educação de qualidade” – coisa que
ainda está longe de ser implantada por aqui. É mais que
sabido que as políticas de leitura só atingem aqueles
que já tenham, de alguma maneira, acesso ao
conhecimento, pois tendem a ser um complemento, e nada
adianta mantermos o conhecimento nas mãos daqueles que
já os tem.
Isso me leva ao segundo motivo, que talvez seja o mais
sério. A maioria dessas propostas tem o simples e claro
objetivo de ampliar o publico consumidor de livros e não
melhorar efetivamente a qualidade dos leitores.
Tradicionalmente, a leitura passou a ser encarada como
algo já à priori literário, como se a leitura, em si, já
significasse literatura – apesar de evidente, essa
“confusão” foi (e ainda é) amplamente usado como
ferramenta de opressão e de exclusão daqueles
não-letrados e sua cultura “inferior”, pois oral. Tendo
isso em mente, percebemos como muitas vezes tais
iniciativas são nefastas, primando manter em movimento a
máquina editorial. Ora, leitura é uma ferramenta que
pode ser tanto usada para se ler Longfellow ou
Hemingway, quanto para se ler Tom Clancy ou Michael
Crichton. Então será que precisamos consumir mais
livros? Será que um banco de dados no celular não é mais
uma tentativa de ampliar a quantidade de produtos
disponíveis, como são as diversas embalagens de um mesmo
xampu?
Cada vez mais nos deparamos com “incentivos” que não
incentivam nada: oficinas literárias, cursos para
escritor, prêmios para leitores, lobs de editoras, uma
grande fábrica de sonhos pré-fabricados que se quer
alavancar a todo custo. Obviamente, não estou atacando a
leitura – a literatura escrita tem um aspecto
insubstituível no que concerne a criação literária.
Também não estou querendo diminuí-la em relação às
tradições orais – ambas são importantes no que oferecem.
Estou apenas querendo mostrar que pode haver outras
iniciativas em prol da difusão da literatura que vão
além destas consolidadas pela cultura do livro e que
muitas vezes resultam mais humanas e incisivas.
Recentemente, a Cláudia Roquette-Pinto me falou de um
projeto na Alemanha, dirigido pelo poeta Thomas
Wohlfahrt, que é um encontro internacional de escritores
em um trem em movimento, que vai parando de cidade em
cidade para que estes leiam seus poemas para a população
local – sem falar claro, do quão fértil é para a
literatura a convivência diária daqueles poetas durante
os dias que “morarão” juntos. Acho que isso seria uma
iniciativa ótima para também implantarmos aqui e é a
prova mais evidente de que a literatura independe das
últimas novidades nas livrarias (ou no celular).
Eu acrescentaria, Márcio, a importância dos escritor
estar mais presente nas bibliotecas públicas, lendo e
interagindo com o público leitor. Mas, diga-nos, de que
forma a poesia hoje contempla a relação que os digital
natives (como os chama o professor Steven Johnson) com
os computadores? Nunca se leu tanto na história da
humanidade e cada vez mais lê-se em telas. Como disse,
os que estão na faixa dos seus 30 anos, têm um pé no
passado e outro no futuro (e não sem angústia). Já
podemos (devemos) considerar que computadores (e outros
dispositivos digitais de acesso à informação), como os
livros, suportes apropriados à leitura? E de que forma
esse suporte influencia o conteúdo (em termos de criação
e absorção)?
Realmente não entendo o que você quer dizer com
“contemplar”. A poesia não é um bem material que se opte
ou não por ter, mas uma condição essencial do humano,
leia-se na tela ou no papel, leia-se livros de poesia ou
não. Cada época é uma época, e todas as épocas trouxeram
mudanças em diferentes graus, portanto a mudança faz
parte do caráter humano e, enquanto formos humanos,
seremos entes poéticos. O que estamos vivendo hoje, com
o advento da informática, apesar de surpreendente para
nós, não difere em “importância” do advento da escrita,
da prensa ou da lâmpada. E apesar de eu e você não
sermos “nativos digitais”, temos dificuldades de
imaginar a vida antes, por exemplo, da luz elétrica (e
não custa nada lembrar que, ainda hoje – graça a deus –
um terço da população mundial não sabe o que é luz
elétrica).
Em suma, toda mudança é surpreendente – umas até mais do
que outras –, mas não são nada mais que um processo
natural de nossa caminhada. Portanto não há um antes e
um depois. Poderia até dizer que a diferença é que agora
as coisas estão acontecendo mais depressa, mas nós não
temos idéia do tempo das coisas que ainda não
aconteceram totalmente e nem onde elas vão parar, então,
nem isso temos como mensurar. Apesar de chegamos a um
momento da ciência onde se estuda insistentemente o
presente e até mesmo o futuro, todas as cogitações são
fadadas ao erro – e isso, por si só, é o que constitui a
nossa poesia humana: a insistência em todo e qualquer
erro, e não se o poema está no i-pod ou no papel de pão.
Claro que os dispositivos digitais podem facilitar
enormemente o acesso à leitura, sobretudo por que dão
margem a pirataria – o que é ótimo! Eu só não entendo o
porquê dessa ênfase na leitura – a leitura pela leitura
não quer dizer nada no que tange à poesia e volto à
questão da pergunta anterior. Quando você diz que “nunca
se leu tanto na história da humanidade”, o que é
verdade, você já aplica na leitura um valor
essencialmente positivo, como se a leitura fosse por si
só poética. Existiram e ainda existem muitos grandes
poetas que nunca precisaram ler. Toda a tradição da
Odisséia, dos aedos e dos cultíssimos bardos celtas era
absolutamente oral. Ler só se tomou um valor
naturalmente positivo e universal a partir do momento em
que se precisou fundar as nações e criar uma unidade
lingüística e uma literatura nacional. O primeiro caso
de erradicação do analfabetismo foi na república
instaurada após a revolução francesa. Foi a mais
importante iniciativa moderna em prol da democratização
do conhecimento, mas junto com o humanismo veio o
projeto civilizatório e, ironicamente, este foi também o
primeiro passo para o surgimento da cultura de massa.
Ora, foi bem mais fácil “educar”, habilitar e
condicionar ao consumo uma população letrada – e, ainda
hoje, as escolas cumprem esse papel de adestrar para o
sistema. O importante de termos isso em mente, não é
tirar nossos filhos da escola, mas estarmos alertas para
não compactuarmos com valores que já vêm implícitos em
determinados discursos. Então, a questão deveria ser
outra: se o que estamos lendo (ou como estamos lendo)
traz realmente alguma transformação em nós, enquanto
leitores.
Mas não podemos, por conta disso, cair no essencialismo
oposto, que descaracterizaria toda tecnologia e daria
mérito somente à oralidade. Mudanças de mídia trazem
mudanças na escrita. E na verdade acho que é isso que
pode tornar uma nova tecnologia fundamental e profunda:
a possibilidade de se vasculhar novas dimensões da
Linguagem através dela.
É isso que vai determinar o potencial transformador do
texto ou não – o quanto ele adentre nas possibilidades
de seu próprio “suporte”. O texto poético tende a ir
contra a própria matéria que o compõe. E no caso dos
dispositivos digitais, creio que estes vão possibilitar
o surgimento de uma escrita cada vez mais tridimensional
e menos atrelada à linearidade da própria escrita. Ela
utilizará os códigos fontes, as programações, os bancos
de dados e os vírus de computador.
Dirá coisas inimagináveis e mostrará um mundo onde não
será preciso classificar o que é escrita, imagem,
música: tudo será textura e nos texturizaremos a nós
mesmos. O mais surpreendente, entretanto, é que, no
fundo, os poetas tentarão dizer, através dela, o mesmo
que tentam dizer há pelo menos dez mil anos: os
delimites de nosso erro – e isso por si só já será o
erro trágico da máquina.
Essa frase me chamou a atencao recentemente (li em um
artigo intitulado The Future of Reading, de Steven Levy
para a Newsweek: “Leitores lerão em público e escritores
escreverão em público” (Até escrevi um artigo aqui no
Pontolit sobre o assunto). Mas, Márcio, diga-nos que
parte desse latinfundio caberá aos poetas e à poesia?
Uma frase deslocada é sempre uma frase que mente. Dizer
alguma coisa a respeito dela é mentir sobre a mentira. É
preciso conhecê-la em seu contexto para não atraiçoar
pelas costas. Mas como todo exercício do erro é
delicioso, e como, já dizia Quintana, “a mentira é uma
verdade que se esqueceu de acontecer”, gosto de arriscar
que Steven Levy esteja profetizando o dia em que a
leitura deixará de ser uma atividade solitária para
voltar a ser pública, ser do povo, como na antiguidade,
lida em grandes festivais para milhares de pessoas e que
se lerá poemas em ônibus como os vendedores de bala.
Talvez aí, um ônibus não seja uma imagem tão pesada,
relacionada ao “trabalho escravo” de hoje, e os
festivais não sejam promovidos por mega-corporações de
telefonia e talvez ler em voz alta seja menos uma
maneira de dizer do que de ouvir. Por outro lado, há uma
mentira que seja mais verdadeira em relação a esta
frase: talvez Levy esteja adiantando o óbvio de que em
breve o processo criativo será mais um atração rentável
a ser exibida em publico, na trilha dos reality shows,
então cada vez mais “culturais” e hipócritas.
A esse respeito, basta lembrar que recentemente uma
violinista espanhola se trancou durante uma semana em
uma caixa de vidro no centro de Madri, para compor uma
peça em público, enquanto recebia sugestões pela
internet. Com o cumprimento do short que ela usava
imagino que ninguém estivesse muito empolgado com
composição. Eu, pelo menos, levei algum tempo até
perceber que ela segurava um violino.
Um fluxo de consciência: vejo algumas
semelhanças conceituais entre Intradoxos e Santos Dumont
Numero 8. Em primeiro lugar, a idéia de um livro que não
termina, mas que começa é semelhante à ideia, no SD8, do
livro incompleto e inacabado (como de fato todos os
livros são). Em Intradoxos, o tempo decorrido regressa a
um nada tubular. No SD8, o tempo que se origina no
futuro atravessa inapelavelmente o presente e mergulha
inexoravelmente no passado. Se o SD8 procura representar
uma certa palindromia do livro, que o torna não circular
mas uma lemniscata, através da referência ao sator arepo
tenet opera rotas no incio do “primeiro cubo” (de Rubik
ou de Necker, o leitor escolhe), Intradoxos busca
auxílio no mesmo palíndromo latino e no conceito de
infinito. E Intradoxos também faz referência ao 8 e a
tira (faixa ou curva) de moebius. A busca é uma busca
mesmo, ou apenas uma fuga? O infinito nos conforta ou é
uma resignação? O eterno retorno é mesmo inevitável? A
história se repete? Isso tudo representa a
inevitabilidade dos nossos caminhos ou ainda temos a
escolha de fazermos tudo diferente? Até onde? Até
quando?
Sim, camarada, estamos em sintonia. Apesar de entender
que nossos livros tratem e digam coisas diferentes,
ambos se tocam em muitos aspectos. O maior deles talvez
seja aquela crença no absurdo da realidade e a convicção
de que todas as coisas guardam deuses. Tentamos
recuperar sinais remotos de que algo tende a não fazer
sentido, dentro de um sentido mais amplo.
O fato de serem livros que vão na contramão do tempo
linear, da leitura, da história e da sociedade, são
indícios de que chegamos a um momento onde estes
elementos já dizem menos do que diziam e que alguma
coisa se perdeu na versão oficial da trajetória do
humano. O maior mérito nisso é perceber que nunca houve
esperança, mas também nunca houve desespero. Não existe
eterno retorno – todo retorno, ainda que eterno, será
sempre outro retorno. Nada dá volta, nada se repete,
nada é infinito – tudo pode ser recomeçado. Toda busca
se confunde com uma fuga e não existe
incomensurabilidade que não caiba em nossa unha. Nada
existe para além de um aqui e agora.
O que estamos condicionados, porém, a entender por “aqui
e agora”, é somente o ato de cagar, comer, foder e
morrer. Não é disso que estou falando. Quem nos enganou
a esse respeito e disse que somos máquinas dotadas de
alguns atributos psíquicos, foram os mesmos que disseram
que arte alimenta a alma. A arte é feita com restos de
ossos e cabelo, e com dedos e língua, logo, só pode
alimentar o corpo.
Estamos acostumados a entender o corpo como um ente
limitado a tudo o que podemos coletar em lâminas.
Esquecemos da parte do corpo que se encarrega do céu e
do anti-céu. Nosso corpo ainda pertence às estrelas e
ainda sente algum pulsar de pulsares, algum latejo de
aurora boreal. Então: nenhuma dicotomia entre finito e
infinito, nenhuma separação entre corpo e alma, nenhuma
distancia entre o feito e o imaginado. A busca não exige
esforço além daquele de sermos o que somos.
Nenhuma diferença entre inevitabilidade e livre escolha
– somos condenados a escolhermos, mas esse escolher já
está subordinado a danação de sermos humanos e não
podemos escolher fora de nossa condição. E esta é um
vazio e uma totalidade ao mesmo tempo. O universo, como
a Biblioteca do Jorge Luis Borges, é a possibilidade
infinita de combinações de letras nos livro de uma
biblioteca infinita. Somos nós, os bibliotecários, quem
decidimos qual livro queremos para desvendar a
biblioteca. E o que eu e você, Cláudio, estamos tentando
fazer é escolher por nós mesmos o nosso.
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