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Entrevista a André di Bernardi Suplemento Pensar, Estado de Minas. 20 de dezembro de 2008

 


O curitibano Paulo Leminksi cunhou esta enigmática frase, ou verso, ou vaticínio: “Para ser poeta, é preciso ser mais que poeta”. Pois o escritor carioca Márcio-André parece que captou como ninguém a mensagem. Poeta, tradutor, ensaísta, este carioca é dono de uma alma, digamos, no mínimo inquieta. Artista multimídia, é também editor fundador da revista de arte e literatura Confraria e coordenador editorial da editora Confraria do Vento. Discorrendo com inteligência e paixão sobre literatura, mercado editorial, e, claro, falando muito sobre poesia e sobre os caminhos e descaminhos da literatura nacional, o poeta Márcio-André concedeu esta entrevista exclusiva ao Pensar — André di Bernardi.


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Fale um pouco sobre a história da Confraria do Vento.

A Confraria do Vento surgiu como um grupo de pesquisa poética na UFRJ lá para os meados 2002. Eu, Victor Paes e outros poetas marcávamos reuniões semanais ou nos encontrávamos pelos corredores para ler textos e debater questões de natureza estética. Estávamos determinados a entender profundamente o mecanismo da escrita. Dali surgiram duas frentes de realização: um grupo de investigação e apresentação de poesia sonora, o Arranjos para Assobio, que durou até 2007, e a revista Confraria, fundada em 2005 com a intenção de levar a um público não acadêmico tudo o que estava se produzindo e pensando em torno da questão da obra de arte naquele momento, sempre de forma lúdica e longe dos jargões da academia. E foi um sucesso: em menos de um ano, a Confraria chegava a um milhão de acessos únicos e quando percebemos já era uma revista prestigiada no Brasil e mesmo no exterior. Apesar disso, vale ressaltar, a Confraria do Vento nunca foi um coletivo, nem um grupo de amigos, apesar de todos se tornarem amigos com o tempo, e nem um grupo estético, ainda que tenhamos como base certos princípios éticos/poéticos. Era simplesmente uma proposta em aberto para quem quisesse dar a sua contribuição. E o grupo mudou muito desde sua fundação, agregando quem fosse interessante e interessado. Depois de perdas e ganhos, resistem ao meu lado e ao do Victor, o Ronaldo Ferrito, a Karinna Gulias, o Pablo Araujo e o Aderaldo Luciano, poetas e pensadores de primeira. Assim como a revista tem conquistado a simpatia de alguns escritores prestigiados, como João Gilberto Noll e Joel Rufino dos Santos, que a partir de janeiro serão colunistas fixos. Hoje a Confraria do Vento atua também como editora e estamos planejando ampliar a revista, o que inclui, além da dinamização da versão eletrônica, uma versão impressa regular.


Qual a importância da internet para o cenário cultural como um todo. Quais são as delícias, e quais são os perigos que a rede oferece?

Eu acredito que seja impossível, hoje, ignorar o papel da internet para a cultura letrada. As vantagens são infinitas, sobretudo quando falamos de possibilidade de acesso ao conhecimento. Se não fosse pela internet, a Confraria não teria chegado tão rápido aos leitores, pois esta é a sua maior contribuição: a geometrização da informação (isso, claro, se considerarmos a informação um bem para além daquele contemplado pela nossa sociedade do consumo). O que tentamos com a revista foi se valer dessa geometrização em favor de certa democratização do pensamento, o que não deixa de ser uma sabotagem ao sistema, ainda que muito tímida. Mas os perigos também aparecem, e em maior escala. A internet tem sido apontada por alguns entusiastas como solução rápida para as mazelas do mundo moderno, e com isso corremos o risco de relaxar com o que é essêncial. Fala-se muito em superar o analfabetismo digital, quando não conseguimos resolver sequer os problemas básicos de analfabetismo. A internet não torna ninguém um ser humano melhor, apenas amplia suas qualidades informativas e, conseqüentemente, o seu poder de contribuição à sociedade do consumo. E isso não é suficiente, ainda que na sociedade moderna a quantidade de informação seja tomada muitas vezes por auto-conhecimento. A internet é tão ambígua quanto o mundo que a criou: independente do seu suposto poder anarquizante, não deixa de ser um fruto direto do projeto bélico americano, tendo surgido como pesquisa militar. Em suma, apesar do seu enorme poderio, pouca coisa mudou e a internet continuará simples ferramenta, pelo menos enquanto os usuários não forem capazes de fazê-la sonhar para além de si mesma. E ainda estamos muito longe disso.


Recentemente criou-se uma polêmica com relação às questões do direito autoral. O foco central da discussão apontava justamente para a internet. Como produtor cultural, como poeta e como editor, qual a sua opinião sobre o assunto?

Mesmo quando produtor cultural ou editor, eu sou poeta. Há de se compreender, então, por que minha opinião vá contra a da maioria de meus colegas. Por exemplo: eu não sou um entusiasta da cultura do livro (pelo menos não do que ela se tornou), assim como não compactuo com a cultura dos bens de consumo. Arte para mim nunca será um produto cambiável e acho besteira se pensar que podemos resguardá-la junto aos seus “donos”, como se resguarda ações na bolsa. Por mais que se tenha feito isso, a obra de arte recusa as burocratizações e as manipulações do poder e a internet tem, até onde conseguimos vislumbrar, uma força anárquica (e é aí que simpatizo com ela) contrária a isso, pois tende à destruição dos direitos clássicos, à descentralização que impede os resguardos e as vaidades: a cultura do copiar-colar, das não-fronteiras. Essa coisa de direitos autorais é uma idéia muito recente, mas já anacrônica diante da tecnologia. Claro que é sempre preciso pensar no artista que precisa e deve sobreviver de seu trabalho nesse mundo cão, mas já começam a surgir soluções interessantes para essas questões, como o Creative Commons, a disponibilização na rede, por parte de alguns artistas, de músicas com valor escolhido pelo comprador e até mesmo pagamento facultativo, entre outras.


Na abertura da revista Confraria, lançada recentemente, existe um termo belíssimo que aponta um rumo, que define os objetivos da publicação: "educar pela dissonância". Fale mais sobre isso.

Nosso principal interesse com a revista era atacar a cultura letrada, o que parece uma contradição. O melhor ataque, porém, é aquele que utiliza as próprias forças do alvo, o que ele tem de mais inflamável. Nesse caso, o mais inflamável é a pluralidade de crenças em uma mesma coisa, pois concordemos ou não com uma teoria, toda e qualquer teoria realiza o real. Por isso, colocamos lado a lado na revista propostas extremamente diferentes, autores assumidamente antagônicos, textos contraditórios entre si. Ao contrário do doutrinamento, queríamos, com essa dissonância de ensinamentos diversos, o vôo panorâmico de onde se avista que o próprio conhecimento é uma farsa. Quando evidenciamos essa farsa, a coisa acaba soando mais como brincadeira. A brincadeira é justamente o espaço em que os “brinquedos” podem ser destruídos em prol da própria brincadeira. É aí, na frequência do lúdico, que o conhecimento torna-se libertário.


Você afirma que a revista busca aproximar o universo acadêmico do público em geral. Como fazer isso de forma efetiva, sem perder em termos de profundidade e conteúdo?

A academia tem muitas coisas boas, e a melhor delas é o gosto pela pesquisa. Por outro lado, o exercício do pensamento existe muito antes da academia e os jargões (notas de rodapé, referências, sisudez, afastamento científico etc) são formas retóricas da instituição, prestando-se muitas vezes a compensar a falta do que dizer. Então, se pudéssemos separar os vícios acadêmicos do pensamento produzido, seqüestrando alguns ótimos professores resguardados pelos muros, por que não devolver sua produção àqueles que pagam o seu salário? A nossa tradição “meio-socialista” acreditou fortemente no nivelamento como proposta de educação em massa e manteve esses mundos, o do pensamento e o da população, separados. O resultado é que a tal massa de manobra da revolução se tornou hoje a massa de manobra do mercado, mantendo-se, em uma sociedade fortemente elitista, uma circulação viciada do pensamento. Criou-se até um termo para isso, um termo péssimo e segregante: alta cultura. Ora, um texto reflexivo, por mais difícil que seja, se despido das armaduras retóricas, pode ser compreendido se lido duas, três, quatro ou quantas vezes forem necessárias, bastando que esteja acessível a todos, no espaço e na forma. Nem todos irão ler, claro, pois também não se trata de inverter o foco da massificação, e nem todos que lerão quererão acessar o texto a fundo, mas que pelo menos um chegue lá e aquilo lhe acrescente algo, essa já será a maior das revoluções.


Jovens talentos encontram grandes dificuldades para publicar ou para encontrar abrigo em grandes editoras. Você criou, ao lado de poetas universitários, a Editora Confraria do Vento. Qual o principal objetivo da iniciativa?

Era de fato criar um selo de qualidade que publicasse autores de qualidade, fossem eles jovens ou já tarimbados, o que ajuda de fato a criar um “canal de escoamento” para essa demanda de escritores órfãos. Entretanto, nosso interesse não é o autor, mas sempre o leitor, não significando isso que fazemos livros pensando no mercado, mas que procuramos entre esses autores aquele que possa oferecer algo de efetivo e transformador com o seu trabalho.


Sua editora foi criada com o intuito de "fomentar, produzir e comercializar literatura acessível e de qualidade." Ela surgiu "a partir da necessidade de publicar autores jovens ou pouco divulgados". Quais são as principais dificuldades que você vem encontrando pelo caminho?

Eu apontaria dois problemas como sendo os mais graves: a falta de interesse dos cadernos culturais e o problema da distribuição.


Segundo Walter Benjamim, a experiência urbana matou a poesia. Você concorda com esta provocação? Você é poeta, tem lançado seus livros, em suma, está se movimentando. Fazendo uma pequena provocação: você realmente acha viável a utopia literária? A poesia é algo viável?

O que Benjamim entendia como poesia é bem distinto do que habitualmente compreendemos. É algo mais profundo, mais essencial e se refere a uma narratividade anterior e subsistente a toda obra literária. É uma experiência mais coletiva e para ele sua morte está relacionada a alienação do homem moderno de sua essência, da perda de uma interioridade ancestral que não se resumia a mera subjetividade. Neste sentido a poesia se tornou de fato mais difícil, mas não impraticável. Ainda que ela dependa dessa coletividade que a cidade desfaz e segmenta em regras sociais e algorítmicas, a própria possibilidade de sua perda é uma questão que por si só não deixa a poesia esgotar-se. Mas isso independe de ser poeta ou movimentar-se. Nenhum livro lançado é garantia de que se esteja aviando a poesia, pois contra a estática do destino não há fuga possível, mas é a própria necessidade da fuga que move, enquanto destino, o poeta e torna a poesia viável ainda hoje.


Como é feito o processo de garimpagem dos autores que a editora já publicou e que ainda pretende publicar?

A revista Confraria acaba sendo um primeiro passo, por conta da pesquisa que fazemos e da quantidade de material enviado espontaneamente. Também viajamos muito e sempre acabamos entrando em contato com os autores, além do fato de que os editores mantém também um trabalho individual de investigação e relações com colaboradores em outros países. Para 2009 estamos preparando, por exemplo, antologias da poesia de Cabo Verde, Finlândia, Portugal e Inglaterra. Também estamos traduzindo autores ainda inéditos no Brasil, como Serge Pey e Roberto Juarroz, assim como ensaios de Paul Valery e Stephany Mallarmé.


Qual o critério de avaliação dos autores da editora?

O mesmo da revista: qualidade – não importa qual “tendência” o autor siga, é a honestidade dele com sua obra que vai nos cativar.


Quais são as principais dificuldades do mercado editorial brasileiro?

Certamente está na elitização da literatura. O fato de as livrarias cobrarem entre 40 e 60% do valor de capa de um livro é o que comprova que estamos longe de ser um país de leitores. Nenhuma editora pode baratear seus livros se a livraria, sem pagar o autor, a tradução, a revisão, a editoração, o designer e a impressão, tira limpo, metade do valor da edição. Conseqüentemente, as livrarias se concentram cada vez mais nos bairros nobres e se parecem com butiques e cafés charmosos.


Com Ensaios radioativos, você chega ao seu quarto livro. Quais as pedras que você encontrou pelo caminho para chegar a este patamar? No livro, você narra a aventura de seu recital poético na cidade fantasma de Pripyat, em Chernobyl. Como surgiu esta idéia maluca e ao mesmo tempo genial?

Com o tempo, os livros acabam sendo fruto de uma caminhada pessoal e não somente o resultado de um projeto de escrita. Então a coisa começa a se movimentar sozinha e quando vemos já tem um livro pronto. Mas não há como mensurar isso materialmente, mesmo autores que reescrevem um mesmo livro a vida inteira só fazem reinventar-se, da mesma forma, um quarto ou um décimo quarto livro não deixam de ser o primeiro. Chernobyl surgiu, por exemplo, de um impulso que me move desde que comecei a escrever: a busca de uma outra realidade, ou mais precisamente a realidade real do mundo, essa fora do simulacro das rotinas, das instituições e da mídia. Comecei a andar pelas ruas dos bairros mais afastados do Rio. Foi quando compreendi que o destino de todas as cidades num futuro qualquer, por mais populosas, é ser uma Chernobyl vazia e triste. No fundo, todas as cidades são iguais, só muda a organização das ruas. E o que eu queria descobrir é se Pripyat fugiria à regra, se ela seria uma outra possibilidade de urbe. O recital e a contaminação foram apenas conseqüências.


Partindo de um outro tema que você aborda no livro, em poucas palavras, qual é o papel do escritor no mundo contemporâneo?

Não sei se a resposta cabe em poucas palavras, mas para resumir: nenhum. E é essa falta de um papel preciso que lhe precisa um papel ainda mais radical. O escritor – falo, claro, do escritor verdadeiro, e não daquela categoria institucionalizada à qual muitos se agregam tão logo tenham a primeira oportunidade –, por não caber nos espaços previstos, por não estar totalmente enquadrado nas categorias sociais, por deslizar suavemente para dentro e para fora das instituições, sem nunca estar totalmente fora nem totalmente dentro, é quem pode reclamar o seu lugar real, que busca desde antes da fundação do mundo contemporâneo: o espaço de uma ética menos mesquinha, menos mercantil e desigual, menos corrupta com o outro. Essa figura será sempre a de um inconformista, caso contrário não será um escritor. E é triste notar que os escritores estão cada vez mais tranqüilos frente às instituições que os seduzem com suas falsas promessas de aceitação e com seus afagos diretos no ego.


Sei que você é um artista performático. Qual a importância do diálogo entre artes, entre gêneros distintos para o seu trabalho literário?

Na minha concepção não há distinção entre as linguagens artísticas, nem entre as disciplinas, quanto mais entre os gêneros. Essas são meras criações retóricas do mundo contemporâneo, visando a instrumentalização do indivíduo e da vida. Todas são a mesma linguagem, compartilham do mesmo fogo fundamental do poético, encerram-se numa única instância de interação entre homem e mundo. Não estou falando em diálogo entre elas, mas na força furiosa que as torna inseparáveis. Minha obra parte disso, dessa vontade de dizê-las todas de uma vez. Chernobyl foi isso, o impulso físico de tornar a cidade o meu corpo inteiro através da radiação e o meu trabalho no palco é isso, uma síntese verbivocovisual em tempo real.


Atualmente você trabalha no livro "poética das casas", que recebeu a bolsa da Fundação Biblioteca Nacional para obras em andamento. Como anda o processo?

Bem, acabo de fechar uma etapa onde fiz caminhadas sistemáticas pelos subúrbios e pela baixada fluminense (os lugares menos turísticos do Rio), num ritmo diferente do dos moradores, observando as casas, a rotina, o sentimento dos lugares. Cogitava como seria um bairro ainda mais distante no espaço ou no tempo, talvez mais, um bairro subsistente àqueles e que não pudesse ser visto, apenas sentido. A partir disso, começo a propor uma aproximação radical entre a matéria das cidades e a dos sonhos. Defendo no livro que não há uma casa que não tenha tido uma existência onírica, não somente propondo um outro olhar sobre a cidade, mas apontando uma alternativa à realidade como um todo e ao círculo vicioso do sistema que nos afasta de nós mesmos.


De que forma você gostaria que definissem a sua poesia e quais são as suas referências literárias?

Tenho muitas, que vão de Edward Hopper, que é artista plástico, a Iva Bittová, que é compositora. É pois no irrestrito que concebo meu trabalho. Ainda que não me caiba escolher, espero que, pelo menos uma vez, algum bêbado, numa roda de amigos num boteco qualquer, diga que meu trabalho é indefinível. Aí terei a certeza de que a coisa não foi em vão.


Depois de sua passagem por Chernobyl, o que hoje contamina o seu universo poético?

Tenho me concentrado na idéia em torno da indeterminação entre ficção e realidade, pois percebo cada vez mais que não há real separação entre ambas. E não se trata de uma questão retórica, mas concreta e filosófica, que tem o poder de colocar o homem frente a questionamentos profundos quanto ao seu sistema ético. O desastre de Chernobyl, a desertificação do mar de Aral e o muro de Berlim são bons exemplos. Esses eventos teriam sido inacreditáveis se não tivessem acontecido. Então, a única diferença aceitável entre ficção e realidade é o fato de aquilo ter acontecido ou não e sabemos que qualquer história, qualquer passado, é prospectivo ao futuro que se queira chegar e, portanto, segue determinados parâmetros absolutamente ficcionais (a ciência na qual qualquer história se baseia é uma ficção dela mesma). Todo passado é uma invenção e todo futuro uma possibilidade, sendo a única realidade o presente, tão moldável quanto o sonho. É a ficção (do latim fingere, moldar) que conforma a coisa (res, real). Portanto, toda ficção é real. Essa é a contaminação máxima, aquela em que nos contaminamos do sonho e da morte – esse enigma. Creio que isso venha a ser o primeiro rascunho de um livro chamado “A educação pelos quanta”, proposta já esboçada nos Ensaios Radioativos.


 

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