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As performances
sinestésicas de Márcio-André: uma estética da complexidade
E. M. de Melo e Castro
Falar numa estética da complexidade pode
parecer a muitos talvez problemático, embora as orquestras sinfônicas,
que podem chegar a ter mais de cem instrumentos musicais tocando
simultaneamente uma sinfonia de Beethoven ou de Mahler, não nos causem
qualquer estranheza. E uma autopista com 4, 5 ou 6 faixas de rodagem em
cada sentido, repleta de automóveis em movimento, em dois sentidos
opostos, é uma situação banal do quotidiano, que faria exultar de
satisfação e de incredibilidade qualquer artista futurista de há cem
anos atrás. Para nós, tal situação é apenas mais uma forma de
constrangimento e um sinal do perigo e de efeito de desastre, que a toda
hora nos espreita nas grandes metrópoles. Mas se fotografarmos ou
filmarmos essas autopistas, de dia ou de noite, de um ponto alto, de
avião ou helicóptero, teremos belíssimas imagens da complexidade móvel.
Imagens, isto é, sinais esteticamente ativos e prazerosos, das
estruturas complexas em que vivemos. (Este efeito tem sido muito
explorado em algumas telenovelas). Tais imagens, que são naturalmente
ícones, têm também a capacidade de agir sobre os nossos sentidos como
índices sensíveis de fruição, tal como agem sobre nós as chamadas “obras
de arte”! E essas imagens têm tais capacidades (ditas estéticas),
justamente porque foram obtidas através de dispositivos tecnológicos
comandados por homens que tinham uma intenção: obter imagens capazes de
nos impressionar e provocar prazer, tal como todos os artistas sempre
tiveram, com os instrumentos e as tecnologias do seu tempo, desde a
pré-história até hoje! Só que hoje a situação é sinestésica e por isso
complexa, podendo ser globalmente difundida!
John Cage disse (numa entrevista dada, tendo um gato na mão, numa janela
aberta sobre as ruas de New York, por onde entravam todos os ruídos do
tráfego intenso) que para ele essa paisagem visual-sonora bastava como
fato sensorial sinestésico e que certamente o gato sabia tudo sobre
isso!... (citação feita de cor). Por isso uma estética da complexidade
é, não só possível, como necessária para entendermos mais profunda e
eficazmente a enorme variedade de imagens com que os dispositivos
tecnológicos nos vêm cada vez mais capacitando e transformando a nossa
sensibilidade e percepção. Mas é preciso reprocessarmos o conhecimento
filosófico e teórico do passado, numa perspectiva múltipla e
probabilística, observando fenomenologicamente com olhos-outros, tanto o
que vemos e sentimos, como o que nos é feito ver e sentir pelos
equipamentos produtores de imagens de que dispomos e cada vez mais, nos
seduzem e utilizamos. Isto porque as imagens-outras que hoje produzimos,
são outras e diferentes, mas são imagens, cada vez mais
outras-diferentes e autônomas, cada vez mais capazes de nos surpreender,
obrigando-nos a persegui-las e a questionarmo-nos sobre as nossas
próprias capacidades de invenção, lançando-nos freqüentes vezes em puras
situações de abdução!
Parece óbvio dizer que não existe uma só maneira de encarar a
complexidade e de com ela trabalhar inventivamente. Porque se só
houvesse uma, não existiria complexidade. E o nosso “agora” é complexo.
Dizer isto tem o sabor de uma tautologia ou de uma verdade que ninguém
se lembraria já de contestar. É numa encruzilhada sensorial, cheia de
armadilhas, e por isso amplamente sedutora, que as performances
multimídia que Márcio-André tem recentemente realizado vêm ao nosso
encontro simultaneamente como produtos estéticos complexos e intuições
poéticas inusitadas, dados a partir de elementos díspares, muitas vezes,
do nosso contemporâneo dia a dia: vídeos captados no YouTube ou
realizados para outros fins. Esses elementos visuais são aleatória ou
programadamente sobrepostos e sintetizados, num clima pansinestésico
totalizante, não se sabe bem de quê. É esse o encanto e o novo que essas
performances nos oferecem pelo tratamento das imagens múltiplas e das
sonoridades casuais eletronicamente tratadas (mas não sincronizadas) e
pela presença surpreendente de um autor-executante de violino
eletrônico, assim como de atores ou bailarinos que são sombras
fantasmáticas de uma talvez já desnecessária presença humana.
Os ingredientes usados no coquetel multimídia Multitubetextura, em sua
recente apresentação em São Paulo, na Casa das Rosas (18 de janeiro de
2011), foram assim descritos no programa:
Márcio-André é reconhecido internacionalmente por explorar a partir
do improviso, as possibilidades da fala, libertando a poesia dos limites
da leitura e extrapolando a fronteira com a música experimental. Nesse
espetáculo, projeções simultâneas de vídeos escolhidos no YouTube serão
manipuladas e processadas em tempo real...
Mas isto não é tudo. O que de fato aconteceu foi a improvisação
principalmente feita num violino eletrônico, de que Márcio é exímio
executante, sendo o som processado por um computador através do qual foi
comandada toda a performance. Os vídeos, criteriosamente escolhidos no
YouTube, segundo temas pré-programados, foram apresentados em imagem
múltipla em 2 grupos que variavam entre 9 e 12 vídeos simultâneos...
porque na sala não havia espaço para mais...
As peças apresentadas foram:
1. poets
2. trains
3. indivisível
4. soundscapes
5. minimal body percussion
6. Quatro cantos do caos - 4º canto
A primeira peça, POETAS, era constituída por vídeos dos seguintes 9
poetas, todos falando simultaneamente, dizendo, cada um, o seu discurso:
Haroldo de Campos / Octávio Paz / Bernard Heidsieck
Anne Sexton / Ezra Pound / Stepehn Rodefer
Paulo Leminski / Gozalo Rojas / Hilda Hilst
Mas todos estes poetas podem ser substituídos por outros, conforme o
momento ou o desejo do autor. O poema sonoro resulta da sobreposição das
vozes e das intervenções musicais ou verbais ou mesmo performáticas do
executante musical ou de outras pessoas que o desejarem.
O poema TRENS é composto por nove vídeos, nos quais se vê a mesma
perspectiva dos trilhos na deslocação de diferentes trens, cada um com a
sua velocidade, indo em diversas direções, saindo e entrando das
estações ou em marcha pelo campo ou pelas cidades. As imagens múltiplas
e simultâneas, mas divergentes, provocam efeitos sinestésicos de
alucinação que são reforçados pelas intervenções musicais ou vocais
improvisadas.
Noutro destes poemas, PERCUSSÃO CORPÓREA MINIMAL, o mesmo vídeo de um
bailarino percutindo o seu corpo com as mãos, de um modo rítmico
esquemático, é exposta em nove imagens dessincronizadas produzindo um
efeito de multiplicação, esteticamente complexo.
Estas pequenas descrições servem apenas para enfatizar a importância
perceptiva e poética da simultânea multiplicidade das imagens
visuais/corporais/vocais/musicais/performáticas/ etc quando integradas
numa coerência de invenção em que o acaso é o rigoroso mestre.
Quase sempre o autor realiza pequenos filmes das suas performances que
coloca no YouTube, não só registrando as improvisações sonoras e
visuais, como transformando-as em objetos de telearte que podem ser
livremente acessados por um número imprevisível de navegadores na
Internet. Uma rápida busca no YouTube revelará que existem algumas
dezenas de vídeos de poesia sonora-visual ou de performances de
Márcio-André que são exemplo dessa mesma já referida telearte. Este
fator é muito importante porque assim se alarga o número de fruidores da
poesia multimídia, numa época em que o fenômeno poético está em
transformação quanto a suportes e meios. A poesia sinestésica de
Márcio-André deve ser assim entendida como uma válida resposta aos
arautos nefastos do fim da poesia.
Na caracterização deste forma de arte, alguns conceitos usados, como
acaso, sinestesia e performance, penso necessitarem ser melhor
esclarecidos quanto ao sentido do seu uso em referência aos trabalhos de
Márcio-André. Entre a estrutura determinista de um romance convencional,
ou a partitura de uma ópera e o barroquismo de uma obra musical aberta ,
ou de uma peça de Samuel Beckett conceptualmente indeterminada, onde se
podem situar esteticamente as performances de Márcio-André? Creio que a
resposta se situa numa região onde a noção de acaso seja preponderante.
Mas o que pode ser o acaso na estrutura de uma obra de arte onde o meio
em que realiza e a sua intenção comunicacional são determinantes?
Numa conjuntura de “estética relacional” que “consiste em julgar as
obras de arte em função das relações inter-humanas que elas figuram,
produzem ou criam” (Nicolas Bourriaud, Estética Relacional, Martins
Fontes, SP 2009) será preciso distinguir a complexidade de, por exemplo,
uma peça de teatro musical e as performances de Márcio-André, em que os
vários elementos constitutivos são muito semelhantes, tais como música,
representação teatral e corporal, iluminação cênica, cenários, voz
humana falada e cantada e até a coordenação informatizada. Entretanto,
na peça de teatro tudo está previsto objetivamente e ensaiado até mesmo
a interpretação dos atores. Nas performances de Márcio-André, os
elementos de semelhante natureza são montados e postos em relação de um
modo aleatório, sem outra coordenação que a subjetividade dos
intérpretes e o manuseamento dos dispositivos informáticos de luz,
texto, imagem e som, apenas muitas vezes minimamente programados.
Estamos então perante uma noção do caos intuitivo, que nada tem a ver
com o caos matemático e das ciências físicas. Mas que também não é a
improvisação possível, dentro de certos parâmetros, da música barroca.
Tem muito mais a ver com as relações inter-humanas que a própria
execução e atuação geram, e mesmo a interação com o público pode
produzir variações nas apresentações vivas.
Já o caso das apresentações na internet, estando as atuações gravadas, é
gerado um diferente tipo de relações inter-humanas, pois o que está em
causa é a larga difusão não programada a vastas audiências, em
indeterminados locais do planeta Terra e em tempos incontroláveis. Tais
relações virtualizam-se e são apenas potencialmente caóticas. São,
portanto, uma nova forma de telearte, em que até a existência do autor
se desmaterializa e fica problemática.
Também a própria noção de performance se desmaterializa e se poli-situa
em todos os espaços possíveis, dos quais o próprio autor nunca terá
conhecimento completo, tornando-se a performance, nesse aspecto,
semelhante a um livro (que pode estar em qualquer lugar), mas com uma
tiragem ilimitada e uma intervenção e relacionamento poli-social
totalmente abertos, contrariamente às performances do final do século XX
que eram acontecimentos fechados, ainda que conceptualmente abertos e
aptos para a intervenção política. Sabemos hoje que esta intervenção é
também possível pela Internet, podendo os conteúdos políticos e
ideológicos ser realizados pelos novos meios tecnológicos através da
qualidade estética específica e que lhes é própria. Penso ser este o
caso das performances sinestésicas de Márcio-André, que são sinestésicas
porque colocam em evidência as potencialidades do funcionamento
simultâneo de todos os nossos sentidos. E não há nada mais subversivo e
desmitificador que o funcionamento simultâneo e caótico de todos os
sentidos do nosso corpo humano.
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