|
|
Sobre os ensaios
radioativos Mariel Reis
Publicado originalmente no
blog do autor
Ensaios Radioativos é um romance descontínuo. Coabitam
neste livro angústias de um poeta que encarna o mundo e suas
titubeações, limitando-se a indagar-se e a inquiri-lo sobre o lugar do
homem sobre a Terra, isto é, se este se pode ver claramente nas frestas
abertas por contaminações sofridas por estar em meio ao processo de
avanço tanto tecnológico quanto emocional.
A poética dos espaços se traduz eximiamente quando Marcio-André se
esforça para convencer-nos de que a loja de discos está e não está ali –
dependendo simultaneamente de ambos os olhares – isto quer dizer,
evidenciando de que todas as coisas estão a se espiar continuamente.
Investigam sua natureza oscilante para encontrarem sua parte permanente
ou eminente caso não consigam fixar-se sobre si mesmas o olhar andarilho
e sem escolha.
A visita a Cidade Fantasma em Chernobyl é uma estrada percorrida e
vazada por este traço, um hiato em que o homem se reprocessa diante
técnica, esvaziada naquele acidente, ali onde o insulto da perfeição e
da segurança esbarrou com o caos contido naquela esfera de Acaso que
somente o poeta pode enxergar. Tudo isso perpassado por uma poética da
afetividade, porque não se amam as coisas mortas? Deste modo (re) leio
Ensaios Radioativos.
O diálogo silencioso que os textos guardam entre si, adensados nos
diálogos das entrevistas, contribuem para uma outra espécie de jogo do
conhecimento. Confirmam os (des)caminhos desse pensamento da
perplexidade, é um romance descontínuo por intercambiar este sentimento,
compartilhá-lo com o leitor. Então, pode ser lido como ficção, porque
nada daquilo poderá estar de fato ocorrendo. Sendo neste instante, esta
percepção, a armadilha do sensorial.
Contaminados prosseguimos a leitura, de uma prosa límpida como a de
Cioran, repleta de abismos e espantos, conduzidos pelo alquimista
Marcio-André através deste desconhecido tão íntimo das menores coisas
que se vistas de perto não possuem nada de normal, calando em si mesmas
o potencial do extraordinário.
|