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Quando o recorte é o todo
Marcos
Pasche
Publicado originalmente no
caderno Idéias & Livros, Jornal do Brasil, 04 de Abril de 2009
Por maior que
seja sua presença na variada fisionomia ideológica brasileira (ou talvez
por isso mesmo), a academia é alvo de constantes críticas, seja por
parte de intelectuais que não se vinculam a ela, seja por muitos de seus
ícones. As reprovações mais constantes – algumas generalizantes, é
verdade – direcionam-se ao caráter fechado das universidades, seja pela
lógica departamental que fez da especialização sinônimo de alienação,
seja pelo divórcio entre as vidas de dentro e de fora do campus.
Nesse sentido, a produção bibliográfica acadêmica, originada mais por
exigências institucionais do que por questionamentos de seus autores,
apresenta, para o bem e para o mal, um determinado recorte temático com
o intuito de explicar a realidade. É o caso, entre as ciências humanas,
de estudos geográficos, historicistas, sociológicos, literários etc. Mas
não é o caso de Ensaios radioativos, de Márcio-André, jovem
poeta-filósofo proveniente da faculdade de letras da UFRJ.
Já em sua primeira parte, "A permanência das coisas", Márcio-André,
relatando uma viagem feita à cidade de Pripyat (onde houve o acidente
nuclear de Chernobyl), desenvolve a ideia de "contaminação", unindo um
conceito teórico a uma vontade de congregar todos os fenômenos da
existência humana, visto que a vida é um bloco indivisível de infinitas
figurações. Lembrando Heráclito (ou contaminado por ele), Márcio
esclarece: "A palavra contaminação vai ao encontro mesmo da física das
partículas, ao mostrar que tudo é uma só coisa".
Adiante, o ensaísta abordará a diferença entre contaminação e
influência, atestando o caráter amplo da primeira, em contraste com a
segunda, que é segregadora e denota certa hierarquia nociva à essência
artística. Para a explicação, ele se vale de um insólito exemplo: "Não
creio ser absurdo que uma obra antiga como Os lusíadas possa ser
contaminada por uma moderna como, por exemplo, a de Mário de Andrade".
Márcio-André não se põe numa torre de marfim, e é por isso que,
transitando entre a obra de Erza Pound e o Pânico na TV, passando pelo
pensamento de Martim Heidegger e o aspecto oracular do Google, abraça
com seu livro as casas do subúrbio (sem se limitar a descrevê-las), no
capítulo "Proposta para se pensar as nuvens". Mais do que uma
manifestação provinciana, tais páginas proclamam o amor pelas coisas
ordinárias, afastando-as do mero enquadramento mercadológico que as
torna instantaneamente perecíveis: "Aquele que menospreza as coisas não
é ninguém mais que aquele que acredita na soberania do sujeito num mundo
que subsiste para seu consumo".
Compõem o livro ainda entrevistas concedidas pelo autor e relatos de
algumas viagens suas à Europa. Do início ao fim da obra (desprovida da
dureza científica da tese acadêmica, com notas de rodapé e afins),
estampa-se o desejo de que o homem entre em conexão com a vida em todas
as suas feições e componentes, ao mesmo tempo em que se mostra o quanto
é nocivo o hábito comum da segregação.
Os Ensaios radioativos de Márcio-André nos apontam o cristalino e
lutulento lago do existir, convidando-nos ao mergulho. E não há nisso
nenhuma incoerência travestida de paradoxo, pois como ele mesmo diz,
"paradoxo é uma palavra inventada para suprir nossa incapacidade de
entender o absurdo do mundo".
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