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Palavras cuasecoisas Laiz Fraga

Publicado originalmente na Revista Verbo 21

 

 

O livro Intradoxos, de Márcio-André, é um exemplo de liberdade poética. O autor, que também é ensaísta e escreveu peças musicais para teatro e cinema, consegue agregar à poesia várias linguagens antes desconsideradas como forma de expressão poética. O signo do diferente se impõe logo ao manusear o livro. O leitor se depara com textos de ponta-cabeça e precisa testar várias posições até encontrar a forma correta de ler o livro: de ponta-cabeça e da direita para a esquerda.

Na primeira parte de Intradoxos – que é dividido em três – o autor constrói um "mundo" e nos moldes do mito grego da cosmogonia compõe as características desse universo peculiar. A propósito, as referencias à mitologia estão sempre lá; vez ou outra o leitor se depara com personagens da Odisséia de Homero e com deuses gregos. Intradoxos tem influência da linguagem mitopoética – que se constrói por simbologias e alegorias de imagens –, extremamente densa e cheia de significado, justamente como as poesias de Márcio-André.

Para ler Intradoxos é preciso reaprender a lidar com a linguagem, a gramática e o espaço. As poesias se dispõem nas páginas de modo a permitir várias possibilidades de leitura e liberdade para escolher o próprio caminho, como um labirinto de versos ou aqueles jogos de liga-pontos. As palavras aparecem com a grafia modificada. Palavras que conhecemos grafadas com “q” são alteradas: cuanto, pecheno. Nos primeiros contatos é preciso certo esforço de entendimento, o que provoca reflexão. Coloca a gramática em xeque.

Márcio-André não se satisfaz com palavras e faz poesia com as mais inusitadas formas de expressão. Usa kanjis japoneses, pinturas rupestres, mapas, linguagem html, vocabulário científico, símbolos matemáticos. O que torna sua poesia ainda mais substantiva: imagens de palavras. Aparecem também curiosas notas de rodapé onde Márcio-André explica com pormenores a palavra destacada por alguns parágrafos, destrinchando complexas teorias. Complexas e quase incompreensíveis. O que Márcio-André quer dizer nem sempre está ao alcance de quem lê; as poesias muitas vezes exigem referências que não são tão evidentes, tornando sua obra aberta e susceptível demais a receber o significado que o leitor quiser atribuir. Todo esse esoterismo entrega um dos principais papeis do autor ao leitor.

Intradoxos apresenta intertextualidade. Os versos dos poema remetem a partes de outros poemas e todos juntos formam um grande texto. Como se em cada um deles houvesse um link que levasse o leitor de um a outro. Um aglomerado de temas em um bagunça toda interligada que me surpreende, e, sobretudo me deixa inquieta. Intradoxos é a antítese de várias convenções – da literatura e de tudo o mais –, que Márcio-André desconstrói com propriedade, reduzindo-as ao absurdo. Desfaz o tradicional e consegue não cair no vazio.


 

2010 Márcio-André | Design : Confraria do Vento | Crédito das Imagens

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