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Apresentação do livro
Cazas
João
Gilberto Noll
Num determinado ponto
de “Cazas” destaca-se “a seiva dos geradores no ventre das lâmpadas”. O
poema joga com esse circuito entre paredes, janelas, ruas, entre as
coisas do mundo urbano, sobretudo, e às vezes contraditoriamente os
atomiza de tal modo que aquilo que se chamaria de verso em outras
manifestações poéticas mais discursivas posta-se em sua tensão de base
–, pois que é de uma tensão primordial que se trata as três grandes
peças do livro. Um sentimento assim talvez decorra da soberba
materialidade das artérias dessa cidade indiferente ao autor do verbo,
tão indiferente que este sente-se ofendido de caminhar “entre”, com
pouca perspectiva de se integrar à passageira sina urbana. Às vezes, o
sentido intra-doméstico parece marcado apenas nos seres naturais, como
“o cosmético calcário do caracol (casa espiral infinita para dentro)”. A
habitação humana “se recolhe para dentro” em situações muito especiais,
como a da ausência decorrente das viagens. São palavras-espectros,
sumárias, iluminadas pelos postes –, “Todo o resto um estado por
definir”. Eis um acento viril, onde a graça é afetada por uma espécie de
índole sarcástica: a voz reconhece que o amanhecer é pleno de afeto,
sim, “e até deus se enternece”. O ritmo incisivo institui uma música de
assertivas hieráticas que à primeira vista pode parecer impenetrável. Em
leituras sucessivas, porém, o que se vê é que Márcio-André construiu uma
obra definitiva ainda muito jovem. Eis um livro que demonstra o que há
de melhor na nova poesia brasileira. |