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Apresentação do livro Cazas João Gilberto Noll

 

 

Num determinado ponto de “Cazas” destaca-se “a seiva dos geradores no ventre das lâmpadas”. O poema joga com esse circuito entre paredes, janelas, ruas, entre as coisas do mundo urbano, sobretudo, e às vezes contraditoriamente os atomiza de tal modo que aquilo que se chamaria de verso em outras manifestações poéticas mais discursivas posta-se em sua tensão de base –, pois que é de uma tensão primordial que se trata as três grandes peças do livro. Um sentimento assim talvez decorra da soberba materialidade das artérias dessa cidade indiferente ao autor do verbo, tão indiferente que este sente-se ofendido de caminhar “entre”, com pouca perspectiva de se integrar à passageira sina urbana. Às vezes, o sentido intra-doméstico parece marcado apenas nos seres naturais, como “o cosmético calcário do caracol (casa espiral infinita para dentro)”. A habitação humana “se recolhe para dentro” em situações muito especiais, como a da ausência decorrente das viagens. São palavras-espectros, sumárias, iluminadas pelos postes –, “Todo o resto um estado por definir”. Eis um acento viril, onde a graça é afetada por uma espécie de índole sarcástica: a voz reconhece que o amanhecer é pleno de afeto, sim, “e até deus se enternece”. O ritmo incisivo institui uma música de assertivas hieráticas que à primeira vista pode parecer impenetrável. Em leituras sucessivas, porém, o que se vê é que Márcio-André construiu uma obra definitiva ainda muito jovem. Eis um livro que demonstra o que há de melhor na nova poesia brasileira.

2010 Márcio-André | Design : Confraria do Vento | Crédito das Imagens

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