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Afirmação poética da vida
Francisco Bosco
Publicado
originalmente no
Jornal
O Globo, 21 de fevereiro de 2009
Márcio-André, poeta, autor de “Intradoxos” e editor da excelente revista de arte e literatura “Confraria”, torna público este livro, “Ensaios radioativos”, que reúne uma série de ensaios curtos, três entrevistas concedidas pelo autor e um relato de viagens a culminar em sua visita à cidade-fantasma de Prypiat, Chernobyl, a nada metafórica waste land onde houve o acidente nuclear mais desastroso da História. No meu entender há mais coisas a se dizer contra o livro do que a seu favor. Vou começar pelos aspectos positivos.
O ensaísta Márcio-André desenvolve seu pensamento procurando ir sempre al grano, seu texto tem uma fluidez que evita perdas discursivas (intróitos desnecessários, exposições irrelevantes etc.) e, em seus melhores momentos, como no ensaio “Hopper e a máquina de horizontes”, atinge uma verdadeira prosa de ideias, um ritmo constante e intenso de belos (elegantes) e bons (insuspeitados) argumentos. Além do referido ensaio, o relato da viagem a Cherobyl também proporciona uma leitura interessante. E é notável, ainda, um trecho de entrevista em que o autor analisa a célebre tradução de Pound para um epigrama de Confúcio, onde aparece a expressão “make it new”, de que o poeta de “Os cantos” faria um emblema artístico. Nesse trecho, Márcio-André estabelece com rigor e excelência crítica a diferença entre a perspectiva vanguardista de Pound (que não deixa de guardar uma analogia estrutural com a lógica capitalista do consumo), e aquela, digamos, originária de Confúcio.
Pelo emprego dessa palavra, “originária”, já podemos passar aos que me parecem ser os defeitos do livro. “Originário” é um termo muito presente no pensamento de Heidegger, cujo modo de ver as coisas orienta a perspectiva geral de Márcio-André. Desse modo de ver surge a principal proposta ética do livro: a de se habitar poeticamente a cidade, recusando “a instrumentalidade da linguagem” e “a instrumentalização do corpo” e afirmando um modo poético da vida, que por sua vez franqueia a experiência de uma outra realidade, cujas características não lineares, não-causais, indeterminadas e instáveis o autor compara àquelas das partículas descritas pela física quântica. Quanto a essa proposta, deve-se observar que as críticas de Márcio André à “rotina massacrante dos sistemas” não acrescentam nada de relevante às que Foucault ou o próprio Heidegger fizeram. Concorde-se ou não com elas, o ensaísta não oferece leituras diferentes da questão que se propõe examinar; ora, a diferença é, no meu entender, o critério primordial de avaliação de uma obra.
Se o livro se resumisse a essa alternância entre uma boa exposição de ideias já conhecidas e trechos de vigor crítico, teríamos uma economia satisfatória. Mas ele contém outros problemas. O menor deles é o emprego de conceitos um tanto vagos, que o autor não chega a desenvolver. Por exemplo, a idéia heideggeriana de que o leitor deve ter uma abertura” para “a poiesis que opera na obra”, de que a crítica só é possível “a partir de um contato direto com o texto, através de um exercício de escuta”. Essa perspectiva, que soa tão idílica e democrática, encerra uma dimensão arrogante e teoricamente improcedente. Postular que se escute uma obra implica em acreditar que a obra detenha uma verdade, incorrendo numa teoria imanentista da arte (e quem mais, senão quem a postula, terá direito de julgar se um leitor “escutou” ou não a obra?).
Como se não bastasse, Márcio-André complementa essa perspectiva com seu oposto simétrico e igualmente equivocado: dedica páginas e mais páginas a uma crítica às estratégias de poder no mundo das letras, crítica em que repete os momentos menos sutis dos estudos culturais, chegando à conclusão de que “gênio é antes quem tem poder para eleger-se”, e perguntando-se “se a ferramenta de poder e articulação política (...) não seria a verdadeira essência da poesia moderna”. Com isso desenhasse as duas efígies da moeda: de um lado uma teoria radical mente imanentista, e de outro uma teoria que a anula, pois afirma que o valor de grandes obras não é outra coisa senão uma conspiração do macho branco adulto ocidental. A questão é mais complexa do que isso.
Até aqui mencionei aspectos positivos do livro, indiquei uma insuficiência e discordei de uma perspectiva teórica que o orienta. Mas há ainda um problema grave. Ao longo do livro, Márcio André insiste na crítica ao egocentrismo do mundo literário, para o qual o artista é maior que a “Obra”. Por mais que se concorde com suas críticas, não dá para deixar de flagrar um movimento que vai se instaurando e chega a beirar a desonestidade. Pois o mesmo autor que vocifera contra a noção de genialidade não se incomoda em colocar na orelha de seu livro um outro autor que o chama de “genial”.
O mesmo autor que despreza as estratégias de autopromoção não vê nada de errado em reunir, na mesma orelha, 12 declarações elogiosas a seu trabalho, incluindo nomes hipercanonizados como David Lynch e Walter Salles. O mesmo autor que critica a vaidade de seus colegas transcreve o depoimento de um leitor que afirma ser a “Confraria”, revista editada por ele, “um pequeno milagre, maior que a bossa nova” (sic), e ainda arruma um espacinho para contar que, num encontro literário em terras d’além-mar, uma mulher o considerou “o homem mais bonito do evento”.
Além disso, há inúmeros
atentados à língua no decorrer do livro. Não vou falar dos mais sutis, como os
tantos erros de concordância, o emprego errado de expressões estrangeiras ou
mesmo erros grosseiros de digitação (como a palavra “autîncio”, que, suponho, o
leitor deva inferir que seja “autêntico”). Não se trata de exigir um português
castiço (no limite quase todos nós escritores desconhecemos um ou outro aspecto
da norma culta), mas escrever “farça” e “haverão” (estando o verbo haver no
sentido de existir) é um pouco contraditório demais para um escritor que se tem
em tão alta conta.
Resposa a Francisco
Bosco Márcio-André
Publicado
originalmente no
Jornal
O Globo, 28 de fevereiro de 2009
Não tenho problemas em receber críticas negativas a meu trabalho. Sempre fui partidário da teoria de que uma opinião divergente é sempre mais útil e por vezes mais sincera, motivada por certo incômodo mais radical, mais primitivo e por isso mais autêntico, sendo fundamental para a caminhada de todo escritor ou artista. Essa crítica negativa, quando honesta, é fruto de um envolvimento profundo do crítico com a obra e merece respeito. Diante disso, eu me sentiria obrigado, desde já, a agradecer a esmerada resenha aos meus Ensaios Radioativos publicada pelo Francisco Bosco no Prosa & Verso da semana passada (21/02).
Mas, apesar de toda a atenção dispensada ao livro, o que constatamos é que o resultado nem de longe procede de um exercício crítico. A resenha em questão me soa meramente vexatória. Intitulada ironicamente de “Afirmação poética da vida”, a resenha parece ter o único objetivo de criar um mal estar sobre o livro e é explícita, do subtítulo à legenda da foto, a intenção de desqualificá-lo por meios espúrios. Tal impressão não me seria tão evidente se a crítica se resumisse a aspectos do livro enquanto obra literária e não a fatores externos (os quais imiscui com a obra), numa antiga prática de desqualificar um discurso através de armadilhas retóricas. A própria decisão de abrir o texto apontando os pontos positivos do livro, nada mais é que um antigo recurso para dar a sensação de neutralidade. Mas basta passar essa parte inicial para notar que estamos diante de um festival de má vontade: por pura má vontade, desloca fragmentos do livro de seu contexto e o entrega, acrescido de um julgamento seu, ao leitor do suplemento que, sem o acesso ao mesmo, jamais poderia perceber originalmente do que se trata. Por má vontade, o crítico confunde argumentação teórica com “autopromoção” e ironia com “vaidade”.
Pois, no que concerne à crítica efetiva (tirando a parte elogiosa), só há um momento em todo o texto que se refira de fato a algo contido no livro: o momento em que ele afirma erroneamente que eu me aproprio do conceito de “escuta” do filósofo alemão Martin Heidegger. Nota-se que o crítico escolheu, para falar disso, o texto que aborda as relações epistemológicas entre Heidegger, Pound e a física das partículas, e que portanto traz diversas citações do pensador alemão, não sendo elas necessariamente conceitos meus e nem apropriados por mim. Para completar, ele conclui demonstrando ter reconhecido algumas das teorias subjacentes ao pensamento do livro, entre elas a da hermenêutica e a dos estudos culturais, sendo lamentável, entretanto, como já as enquadra em categorias estanques, que se anulariam impossibilitando qualquer diálogo entre si, como se qualquer conceito delas aproveitado evocasse inevitavelmente a totalidade de seus pressupostos e ao mesmo tempo suas previsíveis e engessadas conclusões. Um dos focos da crítica do livro Ensaios Radioativos é justamente o pensamento puramente epistemológico adotado por intelectuais propensos às segmentações teóricas e limitado em questões meramente disciplinares, que ocultam, por baixo de uma carapuça de intelectualidade e erudição, uma pobreza de pensamento sem limites. O que, na minha opinião, consiste em total incapacidade de prever ou conceber algo novo, evidenciado na aparente incapacidade do crítico vertente de perceber uma alternativa filosófica a partir de teorias que as cartilhas lhe ensinaram serem antagônicas. Caso sua leitura fosse mais atenta, ele certamente encontraria a tal diferença, seu “critério para a avaliação de uma obra crítica”, que tanto procurava. Essa se encontra justamente no real debate do livro, em nenhum momento comentada por ele: a indeterminação entre ficção e realidade. Mas aqui também fiquei perplexo, pois, em meio parágrafo, o resenhista classificou Heidegger como filósofo imanentista e (não sendo um conceito meu) encerrou as falhas e consequências do conceito de “escuta”, resolvendo de modo sumário problemas colocados por um dos pensadores mais debatidos e contraditórios do séc. XX, problemas que, ainda hoje, comovem os mais renomados filósofos.
Mas, infelizmente, essa é a única tentativa, em todo o texto, de desqualificar o livro pelo viés do pensamento. O resto da resenha é uma desastrosa sucessão de zombarias que não dizem respeito ao livro propriamente. Ora, confundir o discurso interno do livro com a orelha demonstra um estranho desconhecimento das diferenças entre o trabalho do escritor e o do editor, esse último muitas vezes é obrigado a se adequar a recursos de marketing, impostos pelo mercado. Isso nada tem a ver com vaidade ou se ter em alta conta. E, apelando a um exercício básico de abstração, pergunto: se a capa do livro se rasgasse ou se fosse feita outra edição do livro, o texto perderia ou ganharia qualidade?
Há ainda outros casos que não acho necessário comentar, pois parece depor mais contra o próprio Francisco que contra o meu livro. Tenho que lembrar ainda que ele, pouco antes da publicação da resenha, escreveu,
na Revista Cult, um comentário sobre o mesmo livro, onde já destilava a mesma má vontade, a partir de uma pueril teoria sobre o provincianismo brasileiro. No outro caso, preferiu não citar o nome do livro, somente fragmentos, segundo ele “para não dar excessiva importância ao autor”. Questiono-me, diante dessa frase pernóstica, quem afinal se tem em alta conta para sentir-se no papel de a quem conferir ou não importância.
O saldo de minha avaliação é que o sr. Francisco me parece ter ficado um tanto incomodado, e certamente tocado, pela crítica contida em meu livro. Eu já esperava que os Ensaios Radioativos suscitassem reações extremas, visto que descrevem um ambiente de extremos, mas não imaginei que pudessem despertar discursos tão apaixonados, ainda que inconsistentes. Diante da territorialização, o escritor territorializador demarca o seu campo e assim vão se delimitando as fronteiras, a tomada dos canais, o mapeamento para as próximas gerações de a quem pertencem os terrenos entre os “intelectuais” cariocas. E, nesse aspecto, prefiro manter-me à parte. O território é grande, porém que fiquem com todo ele.
Coimbra, 26 de fevereiro de 2009
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