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Intradoxos:
cartografia da busca
Flávio
Viegas Amoreira
Publicado originalmente na
Revista Germina
Intradoxos é
Universo em estado de desnudada natureza: o Ser em seu habitat,
atmosférico, geológico, elétrico, corrosivo, seminal ao termo. Retenção
precisa: esfericidade "aperfeitando-se". Obra rompedora: caosmo.
A Poética de Márcio-André (dado que criação e conceito) é iluminada, não
deliberada como "veritas", mapeamento do movimento da essencialidade
presentificada na forma de emolduramento-experiência: todo desdobrar da
Vontade em seu desvelamento. Quando tantos impasses e logros impedem a
possibilidade ainda do invento-intento em nosso idioma vanguardoso surge
Intradoxos: clarão além dos "objogos" ou evocação lírica discursiva. Li
esquadrinhando: oralizei a imagética ali contida e sublinhei índices de
ultra-significação nesse recenseamento objetal, que se elevam além do
"magma analógico": nessa obra nenhum monturo metafórico; Márcio-André ecoa
o "fenômeno originário", murmura especulando a partir de sonidos da
clareira: "multialético", tateia em cheio o Devir das coisas e inteirações
de significados infindados ainda que coesos na provisoriedade da palavra.
Bem diz mestre Boaventura de Souza Santos: "A poesia de Márcio-André é uma
luta permanente com a língua. O seu experimentalismo não é abstrato (ou
seja, concretista), é antes a sua maneira de interpelar uma tradição
asfixiante e ao mesmo tempo vazia". É essa gozoza zona cinzenta
pós-canônica que poetas dessa íngreme lavra vão forjando: desde ambiciosa
teia conteudal, advinda da especulação fenomenológica, até a disposição
gráfica primorosa, fazem de Intradoxos jorro seminal com mesma percepção
cósmica de Novalis e intento de arquitetura lingüística tão díspares
quanto as de Francis Ponge e René Char.
Cosmogênese da presentificação:
"no princípio foi o giro
e sua sinfonia de esferas
[só é verdade a parte que se desconhece]"
O livro trespassado: recusa e retenção; cruzamento paradigma-sintagmático;
o entrecho é tudo que não a sucessão de agoras: "o tempo decorrido
regressa a um nada tubular". Cidades, labirintos e corpos: translúcida
limpidez; o poeta reflexiona ângulos inusitados: que supunha indizível
quando "ainda não existia encaixe entre as coisas"; colocar-se
originariamente diante do ser familiar ao permanente:
"na grafia do relâmpago surgirá um nome
parte de outro nome
revelado nas tempestades"
Não se guia por inspiração: Márcio-André é dos que exemplifico como
"curtidores da linguagem", transmodernos ainda no bafejo de Baudelaire
dizendo: "Sinto pena dos poetas guiados apenas pelo instinto; me parecem
incompletos. Na vida espiritural dos poetas deve ocorrer um momento de
crise, em que repensariam sua arte, descobririam as leis obscuras que os
levaram a produzir arte, e chegariam, através desse estudo, a uma série de
preceitos cujo propósito seria a infalibilidade na produção poética".
Antinomias, oxímoros condensantes: "o sonho é que nos sonha / o rumo é a
referência da perda" fazem-me crer na dissolução pelo intento: o abismo
que redime: "O que é primeiro não é plenitude do ser, é fenda e a fissura"
(Blanchot); o desejo é o pensamento da ausência: perpasso aqui como guiado
num gigantesco oroboro sintático, palíndromo: geometria da angústia
obsedante: "[ falar do mar é uma imposição do mar]", "o nome a consumar
seres"; anagrama "ovoritorno", ao findar será o Verbo. Drummondianamente
logopaico: ["o filho não gerado no útero possível" / "não sou eu que não
caibo na cidade / a cidade é que não cabe em mim"], imageticamente
lorquiano em sua tessitura mineral-telúrica: "sonhos faróis / cristalinos
como dois leões de louça / alémterra - no ventre da fotoesfera,
Márcio-André nem se declama ou é explicitamente melódico: seu "cordames de
galáxias" é composto para ser entoado ou cantado numa espécie precisa de
cântico: "Música Cuântica" não me desprende do roteiro inevitável de Ezra
Pound de "tratar diretamente a 'coisa', seja ela subjetiva ou objetiva";
Pound é foda! A "coisa" é em Márcio-André a clareira-olho: "invólucro do
ver". Anagrama ao "ritorno": "anacíclico ovo"; circularidade e
visceralidade.
A poética de Márcio-André vem tornando a Confraria do Vento a mais
representativa convergência de Alta Literatura do Rio de Janeiro e um dos
pólos vitais da produção de refinada extração lírica do Brasil. Num "mix"
do Padre Vieira citando Lucas: "A semente é a palavra de Deus" e Pound: "O
fato poético preexiste".
Percebo em Intradoxos tanto verbalização do ocaso dialético em direção à
potencialidade polissêmica da palavra-objetada, quanto bonecas russas
semiológicas: a imanência em suas bordas mais alargadas: como se
Márcio-André: a palavra é Deus inoculado no ser-dizente.
Não são versos para servirem de epígrafes a nenhuma escritura do enlevo ou
paixão: são excertos transmodernos como que pré-socraticamente
apocalípticos: big bang congelado em blocos para paciente discernimento:
"o giro [na
substância da roda]
não exila seu eixo
a roda só gira sua margem
o centro [fixo] [um deus] moto-perpétuo"
É da (des)ordem mesmo de Heráclito que nos dizia: "A rota do parafuso do
pisão, reta e curva, é uma e a mesma". Faz um ano que leio e transleio
esse Intradoxos: voltarei a ele e sua desconstrução, até que originalidade
tamanha faça juz a nexo seminal do que seja originalidade: "ver de avesso
invés o verso".
Solidão intelectual é uma merda: essa obra-prima me faz insistente em meu
ultra-literário intento. Intradoxem!
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