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Novos
rumos literários
André di Bernardi
Publicado originalmente no
Caderno Pensar, Jornal Estado de Minas
No dia 22 de
junho de 2007, contrariando conselhos de médicos e familiares, o poeta
carioca Márcio-André arrumou as malas e partiu, com a cara e a coragem,
para Pripyat, uma funesta e longínqua cidade fantasma onde houve em 1986 a
famosa catástrofe de Chernobyl. Exposto a uma média de 130 microroetgens
por hora de radiação gama, proveniente do césio 137, ele fez um estranho
recital de poesia, batizado pelo intrépido bardo de Conferência
poético-radiotiva de Pripyat. Esta e outras histórias estão no livro
Ensaios radiativos, que reúne escritos, ensaios, crônicas e entrevistas
publicados em jornais e na internet ao longo do último ano.
Com extrema inteligência e com um fino e poderoso poder de argumentação,
Márcio fala o que pensa sobre a permanência das coisas e dos deuses,
discute tecnologia, fala sobre a cidade e o papel do escritor e também não
foge da raia para colocar na mira do seu poder de fogo o Google e até
mesmo o programa Pânico na TV.
Mas, como bom poeta que é, é justamente quando escreve sobre a poesia que
Márcio-André consegue dizer a que veio. Ao “pensar as nuvens”, ao “pensar
através das coisas”, muito bem amparado por um ferino discurso poético,
Márcio encontra e cria elos que o religam ao coração pulsante da vida que
o cerca. “O enorme coração do cavalo bombeia sessenta vezes mais sangue
que o do cavaleiro. A poesia bombeia sessenta mil vezes mais sangue que o
poeta.”
Ao falar sobre Londres, Paris, Coimbra, Chernobyl ou Muzambinho, o pólo
magnético de seu compasso aponta para um único núcleo pulsante. Ele chega
ao enorme o mistério da alma de cada coisa. São insondáveis os poderes da
palavra. Márcio descobre e compartilha o seu farnel: “Não há poesia
desvencilhada da vida, nem vida desvencilhada da poesia – tudo o que
sonhamos é real.” Mostrando a cara, colocando-se à mercê da poesia,
voltado para o outro e para o contemporâneo, com todas as suas
contingências e os seus desastres, chafurdando na lama do seu tempo,
Márcio-André vem tentando aprender, com esmero e sensibilidade – um dia o
gajo ainda chega lá – sobre este belo “ofício do desconhecido”.
INTRADOXOS
Outro livro que chama a atenção pelo vigor, pela ousadia estética, outra
ótima aposta literára de Márcio-André é o livro Intradoxos, obra lançada
em 2007 também pela Confraria do Vento. “Acrescida de dentes e olhos”, a
sua máquina (“máchina”) de dimensionar coisas capta o segundo, o instante
preciso de cada troço, de cada mínima coisa que sempre o surpreende. Sua
poesia, uma festa de signos que se cruzam pelas vias do infinito, contagia
e contamina, isso porque está e anda com suas próprias pernas, ela mesma
contaminada de seu próprio tempo.
Fugindo bravamente de tudo que é inércia, sua poesia é arejada e tem sabor
de varanda e fruta no ponto. Como ressaltou Boaventura de Souza Santos, na
orelha do livro: “Intradoxos é uma poesia profundamente inovadora. Parte
de um profundo conhecimento da tradição/ortodoxia para se poder confrontar
consigo mesma com uma inocência inaugural própria de quem só chegou agora
(tarde?) e apenas sabe que está suficientemente dentro de si para poder
iniciar a caminhada. É um começo que não termina, e só começa quando se
esquece de que é um anacíclico ovo. Afinal, só o poeta tem o privilégio de
circundar o vazio de dentro para fora.”
Acrescida da pujança de enigmas, longe do bafo de governos, distante do
mofo e liberto de cabrestos estéticos, Márcio-André, tenho certeza,
escreve com as janelas abertas para deixar entrar – e para melhor
enfrentar – o novo. Em Intradoxos, não existe a palavra domínio, não há
imposição ou força bruta. Márcio-André deturpa com sutileza e rara
sabedoria as normas, ou qualquer regra, para forjar e para encontrar uma
dicção multifacetada, que integra, que abarca para melhor se impor. Para
fazer ventar.
Em suas poesias, Márcio-André brinca, de fazer a festa, como um “marajá do
verbivocovisual”, como sacou o poeta Chacal falando sobre sua poesia.
Nesta gostosa ciranda as palavras giram, pulam, saltam, viram-se umas para
as outras em posição de reconhecimento mútuo. Impera nesse contexo um
forte sentido de comunhão. Intradoxos é uma obra estranha: “este não é um
livro que termina mas que começa”. Concordo. O campo de visão de cada
contexto poético, de cada verso vivo se amplia e vence, sempre, a poesia.
Márcio-André nasceu e reside no Rio de Janeiro. Em janeiro, parte para
Portugal, para residir por seis meses na cidade histórica de Monsanto,
período no qual ministrará curso de extensão na Universidade de Coimbra. O
poeta é também autor dos livros Movimento Perpétuo (2002), cazas (2006).
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