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A
ordem alternativa das coisas
Anderson
Fonseca
Publicado originalmente no
Portal
Cronópios
A visão
Arthur Rimbaud teve sua visão do inferno em Ardenas, nordeste da França,
que o levou a escrever Uma estação no Inferno; Blake que iniciou suas
visões divinas nos campos de Peckam em 1761, escreveu O Livro de Urizen
e Canções da Inocência; Jack Kerouac viu On the Road na Rota 66; Márcio-André
teve sua visão em Pripyat, cidade onde ocorreu o acidente de Chernobyl,
neste momento surge sua poesia contaminante em césio-137. É preciso,
portanto, ir ao inferno... ou ao deserto (imagem e semelhança do
inferno) para o poeta encontrar sua poesia.
Segundo Márcio:
“Pripyat é a realização, em nosso mundo prático, das abstrações
quânticas. As formas possíveis e poéticas propostas pelo comportamento
das partículas, as de uma realidade absurda e não-linear, seus entes
coexistíveis simultâneos em diferentes estados, materializados naquele
mundo com defeito chamado Chernobyl, sua beleza terrível, suas criaturas
invisíveis geradas pelo pesadelo quântico.”
Ali, no deserto radioativo, o poeta percebeu que "somos seres em eterna
contaminação", e que toda a realidade, em sua matéria temporal, está em
permanente contato.
A visão de Chernobyl tornou Márcio-André num poeta-profeta que vê, ao
mesmo tempo que denuncia nas imediações irregulares do mundo pós-moderno,
a linguagem em perpétua contaminação. Esta visão encontra-se no livro
Ensaios Radioativos, recém lançado pela editora Confraria do Vento.
Neste, Márcio reuni ensaios, entrevistas e as crônicas de sua viagem a
Pripyat em 2007.
Escrito com elegância, Ensaios Radioativos, é uma defesa da Poesia, sua
tese: a poesia como possibilidade do real, em outras palavras: tudo está
na base de tudo, toda a existência encontra-se em contato (contaminação).
Márcio viu a não-coerência quântica das formas poéticas na substância
das partículas coexistentes em Chernobyl, ali, contemplando a radiação
teve uma epifania:
“Em Chernobyl eu tive essa visão de que tudo se contamina mutuamente, a
todo instante. O poético nada mais é que a capacidade fundamental e
anterior a todas as coisas de pensar através das coisas, e nela
permanece tudo o que fazemos de forma não alienada – seja na literatura,
na arquitetura, nas artes plásticas, na filosofia ou no simples ato de
caminhar pelas ruas ou olhar uma paisagem.”
A eterna contaminação de todas as coisas na ubiqüidade dos possíveis
sugere a autenticidade entre ficção e realidade, sugere a co-identidade
dos modos de ser da Linguagem, sugere o simulacro de uma realidade à
outra. Somente pensando a realidade como possível e a palavra como
possibilidade do real, o poeta compreende que todo ser está em potência
e não em atualidade, logo não há gênio, não há cânone, não há ego,
apenas o movimento perpétuo da Palavra no corpo da Palavra. “Diante
disso, dicotomias rudimentares entre autores canônicos e não-canônicos,
gênios e não-gênios, ou mesmo distinções entre prosa e poesia, ficção e
realidade ou entre as linguagens artísticas nem seriam mais um problema,
uma vez que se anulam como mero simulacro de nossa história recente.
Para além da distinção entre qualidades externas à obra, precisamos
vislumbrar que toda a obra é uma possibilidade em aberto – somente por
isso ela pode ser adaptada ou traduzida, desdobrando-se em outras obras
-, não permitindo, por isso, mesmo, o estabelecimento de uma fixação
objetiva, logo canonização”. – Márcio-André.
Por fim, da possibilidade como potência e não-ato vem a poesia como
não-ação...
Wu-Wei
O filósofo Lao Tsé, no Tao Té Ching, escreveu:
“O ser e o não-ser geram-se mutuamente... Assim o sábio executa suas
tarefas sem agir e transmite pensamentos sem usar palavras. Todas as
coisas agem, e ele não lhes nega auxílio. Produz sem apropriar-se de
coisa alguma. Realiza sua tarefa e não pede gratidão e é justamente
porque não se apega que mérito jamais o abandona e suas obras meritórias
subsistem”.
Lao Tsé, apresenta o conceito de Wu-Wei, a inação na ação, ou seja, o
sábio age sem agir, sua ação está no pensamento, e além do pensamento,
em níveis de consciência que a linguagem torna-se falha na busca de uma
expressão adequada para sua ação inativa.
A ação pressupõe o desejo de/ em direção a, objetiva resultados, ela é
telos -, existe para um fim seja ele o motor imóvel ou a conseqüência de
si mesma em outro que ratifique seu significado, não a ação por si mesma,
livre de finalidades.
Lao Tsé, diz:
“O sábio quando esquece suas finalidades egoístas conquista a perfeição
que nunca buscou.”
Quando um homem põe objetivos a atingir que visam a glória do seu ego, o
outro deixa de existir e ele apenas foca seus olhos em si mesmo. O Wu-Wei
como pensamento taoista, diz que a ação sem objetivo leva ao
desprendimento das coisas, o sábio, portanto, em sua inação está
desapegado do mundo, somente lhe cabe a felicidade de produzir “sem
apoderar-se de coisa alguma’. Nisto, numa ação sem necessidade de
recompensa, com espírito total de desapego o sábio age em amor, em
completa interação com o outro. Em amor o sentido de observador (sujeito)
e observado (objeto) desaparece, apenas há uma co-participação onde
ambos em contato contaminam-se mutuamente.
Acredito que, o poeta Márcio-André, conhece o Tao Té Ching, minha
desconfiança baseia-se antes no livro Intradoxos, e agora, na percepção
clara do conceito de Wu-Wei na sua visão da poesia. Se Márcio conhece ou
não o Tao, pouco importa, no entanto, ele transpõe o principio de inação
para o ato poético:
...“o que propomos é um lugar onde a escrita revela-se escrita por uma
não-ação. Isto é: pelo ethos de uma ação que se acione pelo próprio ato
e não pelos seus resultados”.
Do conceito de uma poesia Wu-Wei, Márcio defende uma escrita “desapegada
de valores externos”. Assim, o poeta, como o sábio taoista, age em
pensamento desprendido do ego, sujeitando-se somente à Palavra que
manifesta o outro (o desconhecido), para o qual sua face deve estar
sempre voltada.
O poeta da inação ao negar a si mesmo para haver nele o outro, age (poiesis)
em amor. Para Márcio o amor pelo outro é a condição do poeta redescobrir
o significado da poesia:
“Ser poeta é escapar a esse círculo vicioso no qual fomos jogados e
habitar o entreato das coisas, vivê-las na emergência de sua permanência.
É ele quem dará duração maior aos objetos mais ordinários, fazendo-os
luzir em seu instante sagrado. O amor pelas coisas é então a condição
fundamental para a instauração de uma realidade mais poética e para a
destruição das instituições. Amor pelas coisas não deve ser confundido
com apego material, que é na verdade o menosprezo máximo pelo outro.
Nesse último caso o que prevalece é antes o amor pela lógica do consumo,
tornando as coisas ainda mais subjugadas à continua reposição...
Inversamente, esse amor pouco se refere a uma obrigatória preservação
dos objetos, uma vez que até mesmo a destruição pode ser fundamental
para sua permanência. E nesse caso, há obras que duram segundos, num
instante eterno. Amor pelas coisas tem a ver com uma abertura a elas e
uma transformação total da realidade. Se encontra verdadeiramente no
respeito pelo outro, na reverência e graça a tudo o que escapa ao nosso
controle, uma vez que este é todo aquele não-eu do qual dependemos e que,
ainda que tenhamos tentado e aparentemente conseguido, nunca poderemos
dominar totalmente.
A Linguagem do Possível
Sentença: A realidade é possível, – parafraseando Leibniz , o que é
possível existe, o mundo (a realidade) e o homem, é então, a realização
do possível e dentro dela a Palavra transdiz e traduz esta possibilidade.
O Filósofo Ramón Xirau, escreveu: “A essência da realidade é a Palavra”
-, o mesmo já havia dito João, o apóstolo, em seu Evangelho: “No
princípio era a Palavra e a Palavra estava com Deus e a Palavra era
Deus”, por meio dela e nela – tese de Paulo – o mundo existe e se move.
Compreende-se, logo, a possibilidade como uma abertura para graus
distintos de atuação, - aqui o Ato de Aristóteles -, e portanto, de ser.
O que é o mesmo que afirmar que o ser torna-se a identidade manifesta do
possível que carrega em si este ser como potência e Vontade convertida
em mundo e em linguagem.
Márcio-André, em Ensaios Radioativos, apresenta-se como o poeta que
busca a linguagem do possível, ele diz: “a poesia torna a linguagem
possível” e sendo “a realidade uma realização do possível” a poesia
“permite a própria realidade” . Márcio, pois, resgata o significado da
Palavra e da Poesia: o encontro com a realidade. Tal encontro a chamaria
de consubstanciação, um termo teológico para o ritual de celebração da
morte de Cristo, a Santa Ceia. A consubstanciação, significa que no ato
de tomar o vinho e comer do pão o cristão compartilha da natureza real
do messias, pois o vinho e o pão converte-se pela fé (transubstanciação)
no corpo e no sangue do Cristo. O poeta, portanto, entra em
consubstanciação com a realidade e por meio deste compartilhar a mesma
natureza na Palavra ele transubstancializa-se na “coisa” para o qual
está voltado. Ocorre a ele um recolhimento do seu ego, semelhante ao
mito cabalístico da criação do mundo, quando o En Soph, a luz infinita,
recolheu-se num ovo gerando a escuridão emanando do seu reino
transcendente as formas (esferas) que constituem o universo. Márcio,
lembra-nos isto, ao sugerir, que é preciso deixar de ser algo para ser
algo – ato de renúncia. A renúncia está simbolizada na Encarnação do
Cristo quando deixou de ser Deus para assumir a forma humana (o outro).
Renunciar, é portanto, tornar-se o outro na negação de si mesmo. O poeta
renuncia a sua condição de indivíduo abrindo sua existência as
possibilidades do outro que ele desconhece, por meio da palavra poética.
Julio Cortázar, diz algo semelhante sobre o ato poético:
“Todo poeta parece ter sentido sempre que cantar um objeto (um “tema”)
eqüivale a apropriar-se da essência dele; que só seria possível ir em
direção a outra coisa e ingressar nela por via da celebração. O que um
conceito conota e denota é, na esfera poética, o que o poeta celebra e
explica liricamente. Cantar a coisa (“Fazei a laranja dançar!”, exclama
Rilke) é unir-se, no ato poético, a qualidades ontológicas que não são
as do homem, qualidades essas que o homem, descobridor maravilhado,
anseia atingir e ser na fusão do poema, que o amalgama ao objeto cantado,
cedendo-lhe a entidade deste e enriquecendo-o. Porque “o outro” é, na
verdade, aquilo que lhe pode dar graus do ser alheios à especifica
condição humana.” (Valise de Cronópios, ed. Perspectiva, São Paulo, SP,
2004, págs.98).
Lembro-me que ao ler Ensaios Radioativos tive que silenciar meu ego para
permitir a consubstanciação com o escritor, assim, escutei sua voz,
compreendi seu pensamento, vi sua paixão, imaginei sua vida, por um
momento eu me tornei ele, súbito e epifânico, para depois recuar a mim e
novamente ser cartesiano. Mas, neste tempo efêmero, o silêncio permitiu
a existência da palavra substanciada na voz de Márcio-André. O silêncio
é outra forma de renúncia, o poeta se cala para no reino silencioso das
palavras encontrar a Palavra.
Diz Xirau:
“O único silêncio que dá sentido às palavras, e que, por sua vez,
adquire sentido graças às palavras e nelas, é o que nasce e vive com a
palavra. O silêncio essencial é o que está na própria palavra como em
sua residência, como em sua moradia; é o silêncio que expressa: o
silêncio que dito, entredito, visto, entrevisto, constitui nosso falar
essencial.” (Ensaios Críticos e Filosóficos, ed. Perspectiva, São Paulo,
SP, 1975, págs. 185).
O poeta, portanto, renuncia-se para se
sujeitar à Palavra. A Palavra re-significa-se neste ato, deslocando do
seu valor lingüístico, enquanto constituição do indivíduo, para assumir
uma característica sacramental como Om ou Ox, contendo em si toda a
existência e estando para além e co-participante a própria realidade.
Nela não há o cogito de Descartes, apenas ela mesma como condição do
ente.
A sujeição do poeta à Palavra é uma decisão ética, pela seguinte razão:
“A ética é um tal engajamento da vida na escrita que a própria escrita
passa a suplantar a vida do autor.” – Márcio-André. Sujeito, o poeta
aniquila-se ante a Palavra. Segundo Márcio: “O poeta nunca deve ser
maior que a poesia que escreve. Deve sumir diante dela”... Depois,
conclui: “Ser ético é, portanto, escapar ao próprio ego e engajar-se na
quântica das palavras”.
Medir as palavras é desmenti-las?
Certas vezes, tenho a sensação de que o livro que estou lendo é outro
livro, não o mesmo do autor, porque não se lê um mesmo livro duas vezes.
Eu me pergunto, pois, se você leitor, não estará lendo, a partir deste
ensaio, um outro livro, quem sabe, por mim inventado, ou, re-inventado,
e quem sabe você esteja reinventando o livro de Márcio-André pela
desleitura do livro que invento. Será o ensaio critico de um livro,
portanto, uma das galerias da Biblioteca de Babel? Quando o critico
avalia um livro, estará ele na mesma posição de um físico ao medir
processos atômicos, medindo palavras, e no seu ato de filósofo da
Literatura, duplicando aparências? Então, eu me questiono, se aqui,
estou agindo como espelho, produzindo um outro livro, que por sua vez
será outro para o leitor, e assim sendo outro e vários outros na eterna
Biblioteca que não se repete como o tempo e o p (pi). Não pretendo
responder a estas questões, porque creio, que hão de ser permanentes no
meu trabalho de critico, mas, intuo que sempre que escrever sobre um
livro estarei inventando outro, e isto significa, que sou um
transgressor, irmão de Iscariotes e co-irmão de Pierre Menard, um
critico criando ficções sobre ficções. Logo traidor, logo tradutor.
É comparável a critica literária com a tradução, a ambos cabe a re-invenção
do original lido, e não transliteração. Diz Sabato: “A rigor qualquer
tradução é falsa; não há equivalentes exatos”. Não quero afirmar como
crítico, que ponderar livros seja falsea-los, pelo contrário, lê-los é
falsear. Ouso dizer que há no Livro uma liberdade para a transgressão,
liberdade garantida pela incompletude semântica do significado textual.
Como o átomo de Demócrito, repleto de vazio, no vazio realizando o
clinamen, o Livro contém um vazio que permite a ação da subjetividade
como movimento gerador de significados. Porém, um significado de razão
subjetiva, implica num sentido traidor, logo outro significado surge,
logo outra traição, e todo ato de leitura e análise é um ato de re-criação
do original.
Diz Márcio-André:
“É preciso que o crítico seja, antes de tudo, um artista, que através de
fundamental envolvimento com a obra possa finalmente re-criá-la numa
instância terceira.
(...)
Para Pound, a tradução que merecia ser equiparada ao original era aquela
que se autonomizava, tornando-se outra em relação a tradução meramente
auxiliar. Tradução como traição – o que obrigava a desfazer o fantasma
da fidelidade ao original, fosse semântica ou mesmo formal. Importava,
antes de tudo, a presença do tradutor.”
Em mim, agora ocorre uma crise existencial, eu me pergunto como
diferenciar numa crítica textual o sujeito (o crítico) do objeto (livro-autor).
Para Márcio não há a necessidade da diferenciação, na sua visão quântica
da Palavra, sujeito e objeto complementam-se na construção de uma nova
estrutura.
Em suas palavras:
...“ a tradução criativa deve ser também fruto do confronto direto entre
uma escuta e uma fala, articulação pela qual o tradutor se dá na
recriação como agente desse diálogo. Resultado então do poder-ouvir a
obra para re-nomeá-la através do poder-dizer, no novo poema permanece
não só a essência do poema original, mas a própria essência do tradutor,
ao tentar reescrever o dizer originário do poeta original dizendo
originariamente.”
Acredito, portanto, que na busca hermenêutica em traduzir o pensamento
original do autor, inventei um outro pensamento, todavia, original como
sua origem (in criatio ex-nihilo), porque houve entre o crítico (eu) e o
autor um diálogo de impermanências. Medir palavras é desmenti-las.
Opinião de um leitor
Agora como leitor, que durante semanas teve o prazer de ler um livro,
que lhe gerou inúmeras reflexões e de algum modo, acrescentou uma nova e
interessante forma de ver a poesia. Afirmo: considero o poeta Márcio-André,
um visionário, é claro, que hão de julgar minha opinião um exagero, na
verdade não há exageros, há impressões, ouso dizer, que este poeta que
começou a manifestar sua visão no mundo, ainda terá muito a dizer e com
isto muitos a perturbar com seus pensamentos radioativos. Esperem!
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